Excepcionalidades: em eleição, nem sempre é bom falar tudo
Verdades inconvenientes que não contarão a você na campanha eleitoral
Intenções são mais substanciais do que fatos durante um período de campanha eleitoral. Vejamos, portanto, o caminho trilhado de agora até 6 de outubro próximo, data das eleições. 5565 municípios brasileiros com média de 2,92 candidatos a disputar cadeiras de prefeito – mais de 16 mil concorrentes.
Homens e mulheres bem intencionados e que, por circunstâncias convenientes, deixam à margem a realidade que impede as devidas concretizações. Tratam isso como excepcionalidades, a exemplo da tarifa zero no transporte público sem triscar no “e quem vai pagar a conta?”.
É que falar em dinheiro para os pobres é bom. Mas mencionar possíveis alterações na regra do jogo é ruim, afugenta votos.
Outra excepcionalidade é combater pobreza na periferia, o tráfico de drogas, a violência nas ruas, sem mencionar que disso dependem convênios com governos, emendas parlamentares, pires na mão com pedidos a quem resolve. Prefeito nenhum decide coisas assim com uma canetada. A conta não fecha e, mais uma vez, é conveniente falar de uma sem se desgastar com a outra.
No panteão dos planos de governo que veremos em breve, logo depois das convenções partidárias, desfilarão intenções que farão brilhar os olhos dos eleitores; aumento de vagas nas creches, carro pra levar os filhos na escola, atendimento médico digno e sem fila de espera, pavimentação de ruas e sumiço de buracos. “De onde vem o dinheiro? Ahhhhh… depois a gente vê”.
É que o Brasil convive com tantas agruras que uma mente fantasiosa de marqueteiro encontra pincéis de todas as cores para pintar soluções das mais descabidas.
Vai ter candidato falando que tem secretarias demais nas prefeituras, cabides de emprego, cargos comissionados em exagero. E prometerão reduzir. Será? O pretensioso candidato esquece-se dos conchavos que acabou de fazer com a esquadra de partidos políticos para viabilizar sua candidatura. Cada um dos muitos partidos que formam sua chapa quererão a parte que lhes cabe nesse latifúndio.
Mas isso é apenas uma excepcionalidade. Não convém discuti-la agora.

160 milhões de brasileiros estarão aptos a exercer o voto em 2024. Mas essas práticas que tanto nos fazem desacreditar a política geram o fenômeno da abstenção intencional. Jovens de 16 e 17 anos cresceram quase 15% em relação ao último pleito. Sem obrigação de comparecimento, eles vão votar? Não é uma excepcionalidade, pode ser tendência.
Democracia é ferramenta cara e o modelo está desgastado justamente pelas práticas de campanha dissociadas do jeito de governar. Elege-se uma ideia, uma paixão, uma bandeira. E quem governa se senta na cadeira cheio de limitações. Mas não sabia que era assim antes de se colocar à disposição do eleitor?
O comportamento político no Brasil é cheio de excepcionalidades porque a nossa história se mostra assim. Desde a retomada do voto direto para presidente, com a instalação da chamada Nova República, 3 presidentes começaram e terminaram seus mandatos. Em 39 anos, uma morte e dois impeachments. A figura do vice merece um olhar mais atento, sobretudo nas prefeituras.
O brasileiro vai às urnas e enxergará na tela as fotos dos dois: o titular e o vice, que pode vir a exercer o papel do titular – é sempre bom frisar. Também estarão ali, implícitos, fatos e intenções. Ou, de acordo com a conveniência, meras excepcionalidades.
É, ou não é, um país excepcional?