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Uberlândia e sua identidade cultural: muito além do progresso econômico

A cultura é o tecido que costura nossa memória coletiva

Paulo Franco , em Uberlândia

Quando se fala em Uberlândia, o imaginário popular rapidamente associa a cidade ao vigor econômico, ao entroncamento logístico que conecta o país, aos centros de compras que atraem consumidores de toda a região. E de fato, somos um polo. Mas reduzir nossa existência a esses aspectos é ignorar a alma que pulsa em suas avenidas largas, em seus bairros históricos e, principalmente, em suas manifestações culturais.

Nestas últimas semanas, tenho refletido sobre o que verdadeiramente constitui a identidade de um povo. E chego à conclusão inescapável de que a cultura é o tecido que costura nossa memória coletiva, que dá sentido à nossa passagem por este chão do Triângulo Mineiro.

Cultura de Uberlândia
O desenvolvimento cultural de Uberlândia ainda está em construção – crédito: Imagem feita por IA/Divulgação

A efervescência que (sobre)vive

Uberlândia possui uma cena cultural muito mais rica do que supõem nossos próprios moradores. O Carnaval de rua, que nos últimos anos tem ressurgido com força nas praças do Fundinho e no centro da cidade, não é apenas folia — é a retomada de um espaço público que nos pertence. As tradicionais congadas, com sua herança africana secular, mantêm viva a resistência e a fé de comunidades inteiras, especialmente na região dos Martins e bairros periféricos.
O circuito de festas regionais — a Folia de Reis, as quermesses dos bairros, a Festa do Congado — nos lembra que nossa identidade não se forja apenas nos centros culturais oficiais, mas nas esquinas, nas associações de bairro, nos terreiros e nas igrejas.

Literatura uberlandense: vozes que merecem eco

Falar de cultura em Uberlândia sem mencionar sua produção literária seria uma omissão imperdoável. E aqui abro um parêntese pessoal: tenho a honra de fazer parte desta cena, ao lado de tantos outros escritores que dedicam suas vidas à arte da palavra. Nomes como Guilherme de Freitas, Márcio Alvarenga, Mônica Cunha, Fernanda de Oliveira, Martha Pannunzio, Maria Inês Mendonça, Dolores Mendes, Luciano Araújo, Totonho Martins, José Lucindo Pinheiro, Simone Martins, Laura Gobbi e Ivone Assis — cada um, à sua maneira, constrói o mosaico literário de nossa cidade.
Somos dezenas, talvez centenas, produzindo poesia, crônica, conto, ensaio. Publicamos na Amazon, em editoras independentes, em blogs, em jornais locais. Levamos a palavra aos cafés, às escolas, às universidades. Mas ainda assim, enfrentamos o desafio colossal de fazer com que o uberlandense leia o uberlandense.
Há um paradoxo: enquanto a cidade cresce materialmente, seu consumo cultural local ainda engatinha. Preferimos muitas vezes olhar para fora, para os grandes centros, e esquecemos que ao lado de casa existe um poeta publicando seu décimo livro, um cronista dissecando a alma da cidade em colunas de jornal, um romancista transformando nossas ruas em cenário de ficção.

O poder público e o fomento à cultura

É preciso falar também sobre políticas públicas. A Lei Municipal de Incentivo à Cultura existe, mas frequentemente se perde em burocracias ou em editais que privilegiam sempre os mesmos nomes, os mesmos segmentos. A cultura periférica, a literatura independente, o teatro de rua, os artistas plásticos que expõem em bares e praças — esses ainda lutam por espaço e dignidade.
O Centro Municipal de Cultura, a Usina de Conteúdo, o Arquivo Público, os museus — todos cumprem seu papel, mas poderiam ser muito mais se houvesse integração real com a comunidade e políticas de longo prazo, que não dependessem de gestões ou partidos.
A descentralização cultural é urgente. Não podemos concentrar toda a programação no centro ou nos bairros nobres. A cultura precisa chegar aos terminais de ônibus, às praças dos bairros distantes, às escolas municipais com atividades contínuas, não apenas em eventos esporádicos.

O papel da imprensa e das novas mídias

Veículos como o Paranaíba Mais cumprem função essencial ao abrir espaço para reflexões como esta, ao dar voz a quem pensa e produz cultura na cidade. Mas precisamos de mais. Precisamos que a grande imprensa local dedique espaço fixo à cobertura cultural, que críticos de arte e literatura tenham espaço, que os lançamentos de livros e exposições não sejam relegados a notas de rodapé.
As redes sociais e os blogs têm sido aliados fundamentais. É por meio deles que muitos artistas uberlandenses conseguem alcançar público, vender sua obra, estabelecer conexões. Mas ainda há um abismo entre a produção cultural e o grande público.

Uberlândia: capital cultural do Triângulo?

A região do Triângulo Mineiro possui cidades com tradições fortíssimas. Araguari com sua música e suas conterias, Uberaba com o legado do Zebu e seu circuito de exposições, Patrocínio com suas manifestações folclóricas. Uberlândia, como maior cidade, tem a responsabilidade de ser também um polo aglutinador, um centro de irradiação cultural.
Isso significa investir em intercâmbios, em festivais que tragam o melhor da região para cá, em incentivos para que nossos artistas circulem pelas cidades vizinhas. A cultura não pode ter fronteiras — e a nossa região é rica demais para ser ignorada.

Conclusão

Uberlândia é uma cidade jovem, mas com alma antiga. Seu progresso econômico é inegável, mas seu desenvolvimento cultural ainda está em construção. Cabe a nós — poder público, iniciativa privada, imprensa, artistas e comunidade — escrever as próximas páginas dessa história.
Que elas sejam páginas de poesia, de diversidade, de inclusão e de orgulho. Que o Shakespeare de Uberlândia não seja um título simbólico, mas a afirmação cotidiana de que esta cidade também é feita de versos, de prosas, de palcos e de telas. De gente que sente, que pensa, que cria.
Porque, no fim das contas, uma cidade sem cultura é apenas um amontoado de prédios e ruas. Com cultura, ela se torna um lar.

 

Por Paulo Franco
Técnico de telecomunicação, poeta, escritor, cronista e pesquisador da sensibilidade humana através da arte e da palavra. Conhecido como “O Shakespeare de Uberlândia”.

 

*Esse é um artigo independente e não representa, necessariamente, a opinião do Portal.