Soltura de peixes no Rio Uberabinha: um passo importante, mas que exige vigilância
Sem o devido acompanhamento técnico contínuo, fatores como adaptação das espécies, competição por alimento, qualidade da água e impactos no ecossistema local podem comprometer os resultados esperados

A recente ação de repovoamento do Rio Uberabinha, realizada pela Prefeitura de Uberlândia por meio da Secretaria Municipal de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, em parceria com o grupo de voluntários SOS Mais, marca um momento simbólico e necessário para a consciência ambiental da nossa cidade.
A soltura de 180 mil peixes, ocorrida no dia 28 de março, é apenas a primeira etapa de um projeto ousado, que pretende introduzir até 1 milhão de espécies nativas no rio até o fim do ano. Trata-se de uma iniciativa relevante, que visa restaurar a biodiversidade, fortalecer os estoques pesqueiros e contribuir para o equilíbrio ecológico de uma das principais bacias hidrográficas da região.
Mais do que números, o maior valor dessa ação está no envolvimento da sociedade — especialmente de voluntários e, sobretudo, no impacto educativo que ações como essa provocam nas novas gerações. Quando crianças e jovens participam ou acompanham iniciativas ambientais, cria-se algo muito maior do que um projeto: forma-se uma consciência coletiva.
No entanto, é justamente nesse ponto que surge uma reflexão necessária.
Embora a soltura de espécies nativas autorizadas — como curimba, piau, jundiá, lambari e pirapitinga — tenha sido devidamente aprovada pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), e os peixes sejam provenientes de piscicultura regularizada, é preciso reconhecer que o repovoamento, por si só, não garante o sucesso ambiental.
Existe sempre o risco de uma ação reversa.
Sem o devido acompanhamento técnico contínuo, fatores como adaptação das espécies, competição por alimento, qualidade da água e impactos no ecossistema local podem comprometer os resultados esperados. A introdução de peixes, ainda que nativos, precisa ser monitorada ao longo do tempo para que não se transforme, inadvertidamente, em desequilíbrio.
Por isso, o papel dos órgãos ambientais não se encerra na autorização do projeto. Ele começa, de fato, após a soltura.
É fundamental que haja:
• Monitoramento periódico da fauna aquática
• Avaliação da qualidade da água
• Estudos sobre a adaptação e reprodução das espécies
• Controle de possíveis impactos ecológicos
Além disso, é indispensável avançar em ações complementares, como:
• Combate à poluição do rio
• Recuperação das matas ciliares
• Educação ambiental contínua
• Fiscalização de atividades irregulares
O repovoamento é, sem dúvida, uma ação estratégica, como destacou o secretário Dilson Dalpiaz. Mas ele precisa caminhar junto com uma política ambiental mais ampla, permanente e integrada.
O Rio Uberabinha não precisa apenas de peixes.
Precisa de cuidado constante.
A iniciativa merece reconhecimento. Mas, acima de tudo, exige responsabilidade, continuidade e vigilância.
Porque preservar não é um ato isolado.
É um compromisso diário com o futuro.
Por Paulo Franco
Técnico de Telecomunicação com formação superior, poeta, comunicador e pesquisador da sensibilidade humana através da arte e da palavra.
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