Ponto de Vista

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O mundo pela janela do ônibus

Os avós descobriram um novo significado para a palavra "mimar": em vez de apenas satisfazer os desejos dos netos, passaram a lhes dedicar tempo, paciência e presença

Ana Maria Coelho Carvalho , em Uberlândia

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ônibus
O sonho de Maíra, aos 4 anos, era andar de ônibus – Foto: Arquivo Pessoal

“Educação, boa e velha” é o nome de um texto da psicóloga Rosely Sayão. A autora comenta que na sociedade atual os velhos perderam importância e que os pais das crianças não acreditam que os avós tenham algo a acrescentar à formação dos netos. Mas os avós insistem e descobriram um novo significado para a palavra “mimar”. Em vez de apenas satisfazer os desejos dos netos, passaram a lhes dedicar tempo, paciência e presença. Penso que pertenço a esse grupo. E acrescentaria ainda: mimar também é aprender com eles e divertir-se com suas descobertas.

Como no dia em que realizei o sonho da minha netinha Maíra, quando ela tinha quatro anos. O sonho dela, na época, era passear de ônibus. Assim, decidi levá-la ao Campus Umuarama, onde eu trabalhava, e fomos para a praça Tubal Vilela. Depois de esperarmos no ponto por 20 minutos, ela entrou no ônibus animadíssima, conversando com os passageiros e de olho na janela. Ficou preocupada com uma moça de pé ao lado de um assento vazio e falou várias vezes: “-Moça, senta aí”, mas a moça não obedeceu.

Quando chegamos ao Campus, uma amiga minha, professora e pesquisadora de répteis, levou a Maíra para conhecer o serpentário e deixou que ela passasse a mão em uma cobra inofensiva. Ela ficou fascinada.

Na volta, pegamos o ônibus no ponto mais perto. Assim que a porta abriu e a Maíra subiu os degraus, parou no meio do corredor, antes da roleta, colocou as mãos em volta da boca e gritou a plenos pulmões, com seu vozeirão característico:”-Geeeente! Geeeente! Eu passei a mão na cobra!”. Alguns passageiros riram, outros devem ter pensado que ela estava mentindo, outros continuaram dormindo. Eu, meio sem jeito, tentei explicar alguma coisa. Mas logo o ônibus deu um safanão e consegui segurar a Maíra pela gola da blusa.

Na sequência, na pressa de conseguir um lugar na janela, ela entalou debaixo da roleta, tentando passar por baixo. Pegamos o ônibus errado e tivemos que parar no terminal para pegar outro, que estava lotado. Consegui um assento e a coloquei no colo, mas ela ficou indignada porque uma moça ocupava justamente o lugar da janela, e a Maíra tinha certeza que o lugar deveria ser para ela.

No dia seguinte, fomos ao bairro Guarani, também de ônibus, na casa da minha ajudante, e para ela foi outra aventura. Voltou de cabelo lavado e escovado e de unhas pintadas. Minha ajudante tem um salão de beleza e a Maíra usufruiu de tudo. Entrou linda no ônibus, sentamos nos assentos da frente e ela contou toda a sua curta vidinha de quatro anos para o motorista, sempre com um olho nele e outro na janela. Não falou da cobra, mas ao descer gritou: “-Brigaaaaado, motorista”!

Acho as crianças incríveis e por isso ainda pretendo mimar muito meus doze netos. Como escreveu Adélia Prado: “-Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande…” Ou como no texto de Rubem Alves: “São as crianças que veem as coisas -porque elas as veem sempre pela primeira vez com espanto, com assombro de que elas sejam do jeito como são. Os adultos, de tanto vê-las, já não as veem mais. As coisas -as mais maravilhosas- ficam banais. Ser adulto é ser cego.”

Penso que a Maíra viu, pela janela daquele ônibus, muita coisa que eu não vi.

Por Ana Maria Coelho Carvalho
Bióloga e professora aposentada

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.