O cérebro, o Natal e a escolha pelo sentido
Quem organiza a vida em torno do serviço ao outro, do perdão que liberta e do amor que não negocia, constrói um tipo raro de felicidade que não depende das circunstâncias
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Há um momento curioso no fim do ano em que o barulho do mundo parece diminuir. As mensagens desaceleram, as agendas se esvaziam e, por alguns instantes, a vida parece pedir silêncio. Não é melancolia. É lucidez. O Natal tem esse efeito raro: não nos empurra para frente, como o Ano Novo costuma fazer, mas nos convida a olhar para dentro.
Foi no extremo oposto do Natal que Viktor Frankl compreendeu algo que atravessaria gerações. Em meio ao horror dos campos de concentração, quando tudo lhe havia sido tirado, restou-lhe a liberdade mais íntima: escolher o sentido. Frankl percebeu que a felicidade nunca se apresenta como um prêmio direto. Ela surge como consequência, quase sempre silenciosa, de uma vida que encontra significado, mesmo em cenários adversos. O Natal, em sua essência, fala exatamente disso: não da ausência da dor, mas da presença do sentido.
Talvez por isso tantas pessoas cheguem ao fim do ano com a sensação estranha de ter conquistado muito e, ainda assim, sentir falta de algo. Durante décadas, Jim Carrey foi o rosto da alegria escancarada e do sucesso absoluto. E foi justamente ele quem afirmou que gostaria que todos ficassem ricos e famosos para descobrir que isso não é a resposta. O cérebro se adapta rapidamente às conquistas externas. O prazer sobe, estabiliza e o vazio volta a bater à porta. O Natal, com sua simplicidade quase desconcertante, parece nos lembrar que felicidade não é acúmulo, mas reconexão.
Há quem encontre esse eixo pela via da gratidão. Antes de se tornar uma das mulheres mais influentes do mundo, Oprah Winfrey conheceu a escassez, o abandono e a dor. O que a sustentou não foi uma virada repentina de destino, mas um gesto diário: agradecer pequenas coisas, todos os dias. A gratidão não apaga feridas, mas muda a perspectiva de onde olhamos para elas. Hoje, a ciência confirma que a prática regular da gratidão reorganiza o cérebro, reduz ansiedade, melhora o sono e promove bem-estar duradouro.

Mas há um gesto ainda mais difícil, e mais libertador, do que agradecer: perdoar. Quando Nelson Mandela deixou a prisão após 27 anos, poderia ter escolhido o ressentimento como companheiro legítimo. Optou por não carregar o peso que o passado lhe oferecia. Disse certa vez que guardar ressentimento é como beber veneno esperando que o outro morra. O perdão não reescreve a história, mas devolve o futuro. Estudos mostram que perdoar reduz inflamação, diminui níveis de cortisol e melhora a saúde emocional e cardíaca.
Há ainda o amor que não exige retorno. Madre Teresa de Calcutá costumava dizer que não é o quanto fazemos, mas quanto amor colocamos no que fazemos. Atos de generosidade ativam no cérebro os mesmos centros de recompensa do prazer, porém de forma mais estável e duradoura. Talvez por isso o Natal nunca tenha sido, de fato, sobre presentes. Mas sim sobre presença.
É nesse ponto em que a teoria encontra a vida cotidiana que algumas histórias deixam de ser argumento e passam a ser testemunho. A trajetória de Teodora Dalva é uma dessas. Nascida em uma família numerosa, criada na roça, interrompeu os estudos por muitos anos para cuidar e servir. Quando retomou a educação formal, não o fez por vaidade, mas por propósito. Concluiu o supletivo e ingressou na Faculdade de Farmácia da USP, no final da década de 70, tornando-se uma das primeiras mulheres a ocupar a moradia pública da universidade.
Mais do que o diploma, foi sua forma de viver que se tornou referência. Sua vida simples sempre girou em torno da caridade, da religiosidade, do perdão e do amor ágape. No balcão da farmácia, oferece mais do que medicamentos: escuta ativa, orientação e acolhimento. Pessoas entram buscando alívio físico e saem, muitas vezes, emocionalmente mais leves.
Talvez não seja acaso que seu nome dialogue com o céu. Como a Estrela Dalva, ela não domina a noite, anuncia o dia. Surge quando ainda há escuridão, mas a luz já começou a romper.
O Natal insiste em nos lembrar que felicidade não é uma soma de conquistas lineares. É coerência ao longo do tempo. É atravessar pausas, perdas e recomeços sem perder o eixo do que realmente importa. A ciência hoje confirma o que a espiritualidade sempre soube: quem organiza a vida em torno do serviço ao outro, do perdão que liberta e do amor que não negocia, constrói um tipo raro de felicidade que não depende das circunstâncias.
O Ano Novo chega com suas promessas de recomeço, mas o calendário não muda ninguém. O que muda são as decisões pequenas, diárias, repetidas e conscientes. Felicidade não é um estado permanente de alegria.
Talvez, no fim, seja isso: agradecer antes de exigir, perdoar antes de adoecer, amar sem garantias e escolher sentido quando o prazer não sustenta mais. O Natal passa. O Ano Novo começa. O que realmente fica é a forma como decidimos atravessar o tempo. E, com alguma maturidade, percebemos que ser feliz não é coisa do mundo. É coisa da sua cabeça!
Joaquim Guimarães Costa.
Advogado, executivo e escritor
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