Ponto de Vista

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Me sinto um mineirinho confuso: afinal, o café ficou forte ou fraco?

A ABIC trabalha com critérios que avaliam diversos atributos da bebida, como aroma, sabor, doçura, corpo, acidez, amargor, adstringência e intensidade. Ou seja: café “forte” e café “bom” não são necessariamente a mesma coisa

Paulo Franco , em Uberlândia

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Mineirinho confuso
Foto: Reprodução

Bom dia, minha gente!
Hoje eu acordei com uma dúvida genuinamente mineira. E, para piorar a situação, encontrei na mesa um pano escrito “Coffee Break”.
Ora, se está escrito coffee break, então bora lá: todo mundo tomar um café!

Só que surgiu o problema.
Um toma o primeiro gole e reclama:
— Está forte demais!
O outro prova e responde:
— Forte? Está é fraco!

E eu, mineirinho confuso, fico olhando para a xícara e pensando: afinal de contas, quem está certo?
Será que o café está forte? Está fraco? Ou será que nós, mineiros, estamos ficando exigentes demais?

Fui procurar uma resposta e descobri que a história é muito mais interessante do que parece.
O café mineiro tem padrão?
Temos, sim, padrões de qualidade. E não é simplesmente uma questão de alguém provar, fazer uma careta e decretar: “Esse café está forte!”

A ABIC — Associação Brasileira da Indústria de Café trabalha com critérios que avaliam diversos atributos da bebida, como aroma, sabor, doçura, corpo, acidez, amargor, adstringência e intensidade. Ou seja: café “forte” e café “bom” não são necessariamente a mesma coisa. (Abic)

E existe ainda uma classificação oficial para o café torrado, estabelecida pela Portaria SDA nº 570, de 2022, que define requisitos de identidade e qualidade para o produto. (Abic)
Portanto, não é apenas no “achômetro”.

Mas aí vem outra pergunta:
E o nosso café mineiro?
Ah, aí nós temos motivos para colocar a água no fogo com orgulho!

Minas Gerais é o maior estado produtor de café do Brasil e responde por aproximadamente metade da produção nacional, além de ser uma das principais fontes brasileiras de cafés especiais. (Abic)

E nós, aqui na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, temos uma verdadeira joia: o Cerrado Mineiro.

A Região do Cerrado Mineiro possui Denominação de Origem, reconhecida pelo INPI, e reúne 55 municípios. Para um café utilizar essa denominação dentro das regras estabelecidas, existem critérios de origem e qualidade, incluindo requisitos de produção, rastreabilidade e avaliação do café. (Cerrado Mineiro)

Ou seja: não é simplesmente pegar qualquer café, colocar “Cerrado Mineiro” na embalagem e sair dizendo que nasceu aqui.
Existe origem. Existe território. Existe qualidade. Existe história.

Mas por que um acha forte e o outro acha fraco?
Talvez porque estamos confundindo intensidade, amargor, corpo e concentração.

Um café pode ter sabor intenso sem ser excessivamente amargo. Pode ser encorpado sem ser queimado. Pode ser mais suave e continuar sendo um café de excelente qualidade.
A própria ABIC explica que o amargor é influenciado, entre outras coisas, pelo grau de torra e pelo método de preparo. Quanto mais escura a torra, maior tende a ser o amargor. (Abic)

E o preparo também muda tudo.
A quantidade de pó, a quantidade e a temperatura da água, a moagem e até o tempo de contato com a água podem transformar completamente a experiência.

Então aquele cidadão que toma café em casa e diz:
— Hoje eu fiz um café que ficou uma maravilha!
Pode receber a visita do vizinho cinco minutos depois:
— Credo! Isso está forte demais!

E o dono da casa responde:
— Forte? Eu achei fraco!
Pronto. Começou a discussão.
E agora, o que fazer?

Eu tenho uma sugestão simples:
Vamos parar de discutir se o café é forte ou fraco e começar a conversar sobre o café que cada um gosta.
Porque café também é cultura, memória e hábito.

Tem gente que gosta de café mais encorpado. Tem gente que prefere uma bebida mais suave. Há quem goste de torra mais escura. Outros preferem perceber notas doces, frutadas, florais ou achocolatadas.

E tudo isso pode existir dentro do maravilhoso universo do café.
A ABIC, inclusive, vem trabalhando com definições de diferentes estilos de café torrado, justamente para ajudar o consumidor a entender melhor aquilo que está comprando e escolher uma bebida de acordo com sua preferência. (Abic)

Então, na próxima vez que alguém disser:
— Esse café está fraco!
Não precisa discutir.
Pergunte:
— Fraco para você ou fraco segundo qual critério?

Porque até o café merece um pouco de inteligência emocional.
E se estiver escrito Coffee Break no pano da mesa, melhor ainda.

Bora tomar café!

Mas vamos combinar uma coisa: antes de reclamar, dê mais um gole.
Pode ser que o café não esteja forte.
Pode ser que não esteja fraco.
Pode ser simplesmente que o seu paladar esteja pedindo outro café.

E, neste caso, como bom mineiro, eu só tenho uma solução:
Passa mais um!
Porque, em Minas Gerais, café ruim é um problema.
Mas café bom demais…
é problema nenhum.

 

Por Paulo Franco
“O Shakespeare de Uberlândia”

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.