Lídice, a história trágica por trás do nome de um bairro
Vila tcheca foi massacrada por tropas nazistas em retaliação à morte de autoridade do Serviço Secreto alemão

Morei no bairro Lídice, em Uberlândia, durante 47 anos. Meus filhos nasceram e foram criados nesse bairro e apenas recentemente descobri por que ele recebeu esse nome. Várias cidades e locais ao redor do mundo chamam-se Lídice em homenagem a uma vila da antiga Tchecoslováquia, para que ela jamais seja esquecida. A vila foi totalmente destruída pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial e se tornou símbolo da crueldade nazista.
É uma história muito triste, conforme pesquisei. Tudo aconteceu como vingança pela morte de Reinhard Heydrich, comandante nazista, segunda maior autoridade do Serviço Secreto (SS) e um dos mais cruéis líderes do regime. Seguidor fiel de Hitler, era seu protegido especial e foi nomeado Protetor do Terceiro Reich. No dia 27 de maio de 1942, dirigia-se da vila onde morava para seu escritório, no centro de Praga, capital do país, então sob domínio alemão. O carro em que viajava foi emboscado por dois integrantes da resistência tcheca, treinados na Inglaterra e lançados de paraquedas no país. Atingido pelos disparos, Heydrich morreu uma semana depois, no hospital, em consequência de uma infecção generalizada.
Enraivecido, Hitler ordenou que se fizesse de tudo, sem poupar vidas, para encontrar os responsáveis pela morte do oficial nazista e vingar-se dos tchecos. Aconteceu uma retaliação sangrenta e generalizada das tropas nazistas contra a população civil da Tchecoslováquia. Lídice, uma pequena vila próxima à capital e dedicada à mineração, foi considerada hostil aos alemães e apontada como ponto de reunião dos assassinos de Heydrich. Por isso, foi escolhida para ser massacrada.
No dia dez de junho, a vila foi cercada por tropas nazistas, que impediram a saída de seus moradores. Os homens com mais de quinze anos foram separados, colocados em celeiro e fuzilados em pequenos grupos. As mulheres e crianças foram enviadas para campo de concentração, onde a maioria morreu de tifo ou de exaustão pelos trabalhos forçados. A vila inteira foi demolida com explosivos e o terreno foi aplainado por tratores. Os alemães espalharam grãos por toda a área para transformá-la em pasto e a riscaram dos mapas da Europa.
Cerca de 340 habitantes de Lídice morreram no massacre alemão, entre homens, mulheres e crianças. Outra pequena aldeia de Lezaky também foi destruída, e seus habitantes, executados. A vingança alemã causou cerca de 1500 mortes em toda a Tchecoslováquia. Os resistentes que atiraram em Heydrich acabaram se suicidando em Praga, quando estavam prestes a ser presos pela SS.
Os nazistas costumavam ocultar seus crimes de guerra. No caso do massacre de Lídice, porém, fizeram questão de divulgá-lo para que servisse de ameaça à população da Europa ocupada pela Alemanha. O fato provocou uma onda de terror e indignação em todo o mundo.
Atualmente, o local onde existia Lídice foi transformado em um campo santo e memorial nacional, onde arde uma chama eterna. Existe ali um memorial especial, esculpido em homenagem às 88 crianças que foram mortas. Estão todas de pé, com roupas simples, com expressão séria e enfileiradas, algumas de mãos dadas. É tenebroso pensar que foram todas, em sua inocência, mortas por vingança, em meio a uma guerra. Em 1949, reconstruíram a vila nas proximidades daquela que havia sido retirada do mapa, mas nada apaga da história da humanidade a tragédia que aconteceu em Lídice.
Como moradora do bairro Lídice, em Uberlândia, sinto que, de alguma maneira, convivo com essa história. Enquanto o nosso bairro pulsa de vida, em algum lugar do passado, uma cidade inteira foi silenciada e eliminada pelo ódio e pela vingança.
É preciso lembrar que esse nome carrega uma história. Cabe a todos nós transformar o nosso bairro em um lugar onde a memória se transforme em sementes de paz e harmonia. É preciso também fazer uma prece silenciosa por tantos habitantes de Lídice que morreram porque o ódio venceu a razão. Que descansem em paz. E que sejam lembradas não apenas pela violência que sofreram, mas por nos mostrarem que sempre é preciso cultivar a paz, o respeito e a fraternidade, para que tragédias como essa nunca mais encontrem lugar na história da humanidade.
Por Ana Maria Coelho Carvalho
Bióloga e professora aposentada
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