Em que momento a política deixou as pessoas de lado?
Na eleição, todo mundo aparece. Todo mundo conhece o problema. Depois da eleição, boa parte disso simplesmente some

Eu vivo no meio político há muitos anos e já vi de tudo.
Vitória, derrota, acordo improvável, rompimento, traição, gente mudando de lado e gente defendendo hoje o que ontem criticava sem piscar.
Nunca fui ingênuo. Política é disputa de poder. Sempre foi. E provavelmente sempre vai ser.
Mas tem uma coisa que vem me incomodando cada vez mais.
Em que momento disputar o poder passou a ser mais importante do que o que se faz com ele?
Porque, sinceramente, hoje é difícil olhar para a política brasileira e não ver uma disputa permanente por espaço.
É cargo, partido, candidatura, eleição, fundo partidário, quem apoia quem, quem rompeu com quem, quem manda, quem vai mandar, quem apareceu mais, quem ganhou a narrativa da vez.
E isso não para nunca.
E no meio disso tudo eu fico me perguntando: onde foi parar a população?
Onde está a pessoa que espera meses por uma consulta?
O trabalhador que recebe o salário e já começa a decidir qual conta não vai pagar?
O pequeno empresário tentando sobreviver, o jovem sem perspectiva, a mãe que precisa de uma vaga para o filho, o idoso que depende do serviço público.
É dessa gente que a política deveria estar falando.
E fala.
Talvez esse seja o problema.
Fala demais.
Na eleição, todo mundo aparece. Todo mundo conhece o problema. Todo mundo tem solução. Tem abraço, foto, vídeo, visita, café na casa das pessoas e uma enxurrada de promessas.
Depois da eleição, boa parte disso simplesmente some.
E aí entra uma coisa que, pra mim, já cansou: a tal da narrativa.
Hoje tudo virou narrativa.
Se fez, cria uma narrativa. Se não fez, inventa outra. Se mudou de lado, explica. Se não cumpriu o que prometeu, justifica. Se ontem dizia uma coisa e hoje diz outra, sempre aparece alguém para dizer que agora “é diferente”.
E a gente foi aceitando isso como se fosse normal.
Só que enquanto isso acontece, tem gente esperando meses por uma consulta. Tem gente trabalhando o mês inteiro e não conseguindo pagar as contas. Tem jovem sem enxergar futuro.
Isso não é narrativa.
É vida real.
Talvez por isso a política tenha perdido tanto respeito.
Eu não acho que as pessoas deixaram de acreditar na política. Acho que cansaram do que fizeram com ela.
Cansaram de ver uma disputa em que parece mais importante derrotar o outro lado do que resolver alguma coisa.
E aqui tem uma parte que também é nossa.
A gente transformou política em torcida.
Se é do meu lado, eu passo pano. Se é do outro, eu condeno.
O erro do adversário vira imperdoável. O mesmo erro do aliado vira “contexto”.
E isso talvez seja um dos efeitos mais perigosos dessa polarização: a gente foi perdendo a capacidade de cobrar quem a gente mesmo apoia.
Eu me recuso a achar isso normal.
E não escrevo isso porque deixei de acreditar na política.
Se tivesse deixado, nem estaria escrevendo.
Eu ainda acredito na política. Conheço gente séria dentro dela. Já vi decisão política mudar vida de muita gente. Sei o que um mandato pode fazer quando existe trabalho e compromisso com quem colocou aquela pessoa lá.
Justamente por isso me incomoda ver a política tão pequena.
Política não deveria servir para melhorar a vida de quem está dentro dela.
Deveria servir para melhorar a vida de quem está fora.
Parece óbvio.
Mas talvez hoje a gente precise lembrar até do óbvio.
Porque depois de tanta briga, tanta eleição, tanta estratégia, tanto discurso e tanta narrativa, o que sobra no fim é o que a gente vê na rua, no posto de saúde, na fila, no mercado, no ônibus lotado, na casa de quem já não sabe mais como fechar o mês.
E isso deveria pesar mais do que qualquer disputa.
Se não pesa, a gente já perdeu alguma coisa importante no caminho.
E talvez nem tenha percebido.
Por Noel Arantes
Jornalista
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