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Atrevidos

Foi com o atrevimento de pessoas que hoje dão nome a ruas e outros espaços públicos que Uberlândia se transformou no que é hoje

Neivaldo Silva - Magoo , em Uberlândia

O meu grande amigo Luiz Fernando Quirino criou a expressão Uberlandino para nomear os que nascidos noutras plagas aqui aportaram e contribuíram e muito para que os Uberlandenses, denominação dada aos aqui nascidos, transformassem este pedaço do Sertão da Farinha Podre em um dos trinta maiores municípios brasileiros.

Se tivesse que dar mais um nome a este povo, os chamaria de Atrevidos. Foi com o atrevimento de pessoas que hoje dão nome a ruas e outros espaços públicos que Uberlândia se transformou no que é hoje, e o que me magoa é que poucos sabem ou se preocupam em saber.

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Se tivesse que dar mais um nome a este povo, os chamaria de Atrevidos – crédito: Divulgação

O bairro Lídice tem este nome, e, ao contrário do que alguns contam, não é homenagem a nenhuma mulher, já que nos anos 30 e 40 era muito comum nomear os loteamentos com os nomes de mulheres da família, como é o caso do Marta Helena, nome da irmã do loteador.

Lídice é uma espécie de ressurreição, pois homenageia uma cidade da Tchecoslováquia arruinada pelos alemães durante a Segunda Guerra e consternado pela tragédia, o loteador imaginou uma Nova Lídice que surgiria abaixo do centro da cidade até as margens do Córrego São Pedro.

Atravessar o São Jorge na avenida Seme Simão sem saber que ele, apesar do nome Sírio, nasceu no Alabama e atrevidamente criou a fábrica de televisores Halley, um marco na indústria eletrônica. Quem por acaso sobe a Cipriano Del Fávero, e antes da metamorfose que a faz virar Avenida Brasil, passa pelo viaduto Edson Garcia Nunes e reconhece nele o construtor dos dois primeiros shoppings da cidade, na Floriano Peixoto e na Vasconcelos Costa, e que num lance mais ousado ainda criou a TV Triângulo, hoje TV Integração. Por acaso, você sabe que Johen Carneiro não era engenheiro e tampouco homem? Sim, embora sempre apareça alguém afirmando isso e usando uma pronúncia masculina, a professora Jonhan, como se pronuncia, deu aulas de língua nos colégios da cidade e foi pioneira em eventos culturais, participando de bandas, corais e criando conjuntos colegiais para serestas, serenatas e bailinhos dos anos 50 e 60.

A Minervina Cândida, que ocupa noticiários em dia de temporais, foi a primeira professora de escola primaria de Uberlândia. A Rua Grande Xexéu é pequena, mas o Xexéu realmente foi grande como torcedor do Uberlândia Esporte, animador de Carnaval e pioneiro na reciclagem de materiais. Ali no Luizote tem a Rua Maximiliano Carneiro, que um dia foi o Coronel Hipopota, uma espécie de Silvio Santos do cerrado que reinou no rádio de Uberlândia e que depois se transformou em ídolo em Goiânia.

São centenas e centenas de homens e mulheres que hoje emprestam seus nomes aos espaços públicos da cidade e que mereciam um resgate histórico. Quando fui vereador, sugeri em projeto que nos espaços onde são feitas as homenagens, houvesse pelo menos uma placa com um QR code contendo a história do homenageado. A ideia não vingou com a absurda justificativa de que isso oneraria os cofres públicos, mas eu até hoje não enguli esta justificativa e ainda cobro da egrégia Câmara Municipal que, ao homenagear qualquer cidadão, disponibilize em seu site o histórico do homenageado. Algumas professoras motivam seus alunos a pesquisarem quem são os homenageados em ruas, pontes, parques, escolas e outros prédios públicos, e nem sempre é possível encontrar o currículo ou o histórico do homenageado.

Falta um pouco de justiça aos Atrevidos de Uberlândia.

 

Neivaldo Silva “Magoo”
Jornalista, radialista e ex-vereador

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.