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Críticas, informações e discussões sobre o mundo do cinema e streamings, assinadas por Vinícius Lemos!

 

Quando eu chorei no Cinema

Eu sou chorão, mas eu posso salientar algumas vezes em que eu chorei no Cinema (ou em casa) vendo alguns filmes malvadões

, em Uberlândia

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Eu sempre fui chorão. Isso não é novidade para pessoas mais próximas. Por óbvio, isso se estende para os filmes. É bem fácil me ver de olhos marejados assistindo a alguma produção. Mas fiquei pensando nisso depois que vi mais um capítulo da série This Is Us e, de novo, lá estavam as lágrimas. Da mesma forma que não consigo não me emocionar com a produção da TV, houve algumas experiências marcantes em relação ao cinema.

Quando eu era adolescente, tinha aquele constrangimento de demonstrar emoção ao ver um filme. Coisa da idade. Até que me deparei com a cena final do filme Tempo de Matar (1996). Aluguei a fita VHS e vi sozinho. Fui pego de surpresa no julgamento do pai que matara os estupradores da filha e estava no banco dos réus. Nenhuma tática surtia efeito em um Sul racista dos Estados Unidos para tentar livrar o homem negro da condenação. Até que Matthew McConaughey pede para que o júri feche os olhos e faz seu monólogo. Não são palavras bonitas, pelo contrário, é uma descrição forte sobre violência entrecortada por flashes em tela. Só que não é só isso, tem aquele gancho no final. Haja tenacidade emocional. Não tive e chorei.

Devia ter uns 14 anos quando assisti a Tempo de Matar e, mesmo sozinho, fiquei um tanto envergonhado. Mal sabia que isso se tornaria tão comum quanto meus choros de criança.

Passei umas vergonhas reais depois. Como quando estava no cinema vendo Carandiru (2003) pela primeira vez. Na cena do massacre, minha reação foi desproporcional. Claro, é um horror o que se passou em cena, mas eu simplesmente não conseguia conter o choro, como se eu mesmo estivesse presente na prisão quando a chacina acontecia. Só faltava soluçar. Tinha gente me olhando de canto de olho. Chorar é uma coisa, eu não estava bem.

Em termos de volume de choro, Carandiru é um tipo de recorde, só que não trouxe o mesmo mal-estar de Réquiem para um Sonho (2000). Quando vi o filme de Darren Aronofsky, fiquei emocionado, mas, principalmente, deprimido. Repare que o filme atravessa estações do ano: verão, outono e inverno. Seu final tétrico não chega à primavera, estação associada a coisas boas, como renascimento e flores. Depois de uma situação pior do que a outra, seus personagens estão quebrados. Foi assim que peguei meu antigo (e aposentado) telefone fixo e tentei falar com umas duas pessoas para tentar me animar. Detalhe: ninguém me atendeu. Acontece. E sempre que indico Réquiem para um Sonho para alguém, aviso que, se for assistir, que esteja com um humor quase maníaco, pois o filme vai drená-lo.

Blade Runner tem o monólogo mais bonito do Cinema – Créditos: Divulgação/Warner Bros.

Àquela época, pensei já ter me sentido da pior maneira possível vendo um filme. Só que nada me preparou para Túmulo dos Vaga-Lumes (1988), a melhor animação de todos os tempos. Melhor e pior, depende do seu ponto de vista. É o filme mais triste já feito também, segundo a minha opinião. Contexto: no dia em que um amigo conseguiu a fita para que pudesse me mostrar a produção, eu estava longe de minha irmã havia alguns meses. Ela foi morar com minha família para Rondônia e, bem, sozinho em Uberlândia, lá estava eu vendo um filme sobre um irmão mais velho tentando cuidar de sua irmã caçula em meio à Segunda Guerra Mundial.

Ver aquela tragédia toda foi uma péssima ideia naquele momento. Se eu já tinha sucumbido ao fim da trama, quando “Home, Sweet Home”, interpretada pela soprano Amelita Galli-Curci, surge em tela embalando flashbacks, qualquer força que segurava meu choro foi embora com a lágrima seguinte. E lá se foram várias outras. Muitas outras. Tantas seriam necessárias que, no dia seguinte, quando tentei rever Túmulo dos Vaga-Lumes, bastou que as luzes dos insetos se levantassem na cena inicial para que eu voltasse a me emocionar. É difícil até escrever sem relembrar da sensação.

O choro nem sempre é de tristeza. Foi isso que descobri com Beleza Americana (1999). Claro, existe uma tragédia anunciada no filme, mas também existe uma lembrança do pai sobre sua filha naquele momento que passa longe da tristeza do momento, e isso puxou meu tapete. Eu já não estava muito forte desde o início daquele monólogo final, que é bonito por si só. Daí ele rememora sua filha… As palavras muito bem escolhidas e aquela montagem são de uma beleza sem igual. A acidez de Beleza Americana te deixa desarmado para aquilo tudo.

Foi algo parecido com o belíssimo monólogo final de Blade Runner (1982), com sua metáfora das lágrimas na chuva e a efemeridade da vida dos replicantes. Não esperava me emocionar ali.

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Por falar nisso, como eu poderia esperar lágrimas por conta de um filme de terror? Quando vi o primeiro Invocação do Mal (2013), a cena da figura bizarra em cima de um armário me trouxe um susto que subiu pela espinha, a ponto de me deixar travado na poltrona do cinema e fazer meus olhos lacrimejarem. Mas isso não foi choro de verdade. Emoção mesmo aconteceu ao fim de Faça Ela Voltar (2025). Depois que você foi minado pelo horror, o filme se explica e seus personagens ganham uma camada dramática realmente não esperada. E lá estava eu chorando de tristeza.

Eu poderia citar uma ou duas dezenas de filmes que me impuseram um choro de formas marcantes, como quando a emoção surgiu inexplicavelmente já nos créditos de Menina de Ouro (2004) ou quando não me segurei vendo Projeto Flórida (2017) e aquela sequência final de corrida à Disney. Não sei até hoje o motivo das lágrimas naquele cochicho indecifrável ao fim de Encontros e Desencontros (2003), nem como Nasce uma Estrela me pegou desprevenido em seu último minuto, quando a grandiosa apresentação de Lady Gaga é interrompida por Bradley Cooper ao piano em “I’ll Never Love Again”.

Não é difícil me fazer chorar, mas nem todos os momentos em que uma criança sofre, um relacionamento se acaba ou um cãozinho morre vão me dobrar e mudar meu conceito sobre o filme. Tem muitolonga-metragem que me emocionou que não está em alta conta para mim.

Mas há vários deles que mandaram bem quando me emocionaram, e o fato é que o choro costuma cristalizar momentos cinematográficos. Nem é preciso rever a cena: basta relembrar que um sorriso ou uma lágrima brotam no rosto.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais