Crítica: Valor Sentimental é um belo passeio emocional que você já viu antes
A história que Valor Sentimental conta é muito bem conduzida, mas em momento nenhum você será surpreendido com um desvio para um caminho desconhecido
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Valor Sentimental não vence pela originalidade da trama. Assim que o plot ficar claro, você vai telegrafar onde o filme vai chegar. O importante, contudo, é você embarcar no passeio e aproveitar o clima com grande amplitude térmica. Frio por vezes, chuvoso na maior parte do tempo, mas com momentos calorosos.
Aqui temos um cineasta que busca se reaproximar das filhas, depois de anos de ausência, com um projeto novo. Ainda que ele negue, há muito de biográfico ali. Especialmente em relação à sua filha mais velha, esse novo longa-metragem do personagem tem a necessidade de aceitação da mulher, que reluta. Estão estabelecidos os principais conflitos.

Gosto muito do texto falado de Eskil Vogt e Joachim Trier, este também diretor de Valor Sentimental. Sejam os diálogos, sejam as narrações. É tudo bem encaixado, seco e bonito a depender da necessidade da mensagem. A abertura do filme, inclusive, é uma coisa maravilhosa.
Nela já se destaca outro trunfo da obra, sua montagem. Impressiona como é econômica, direta e inteligível. Você vai e volta no tempo, vê cenas de filmes anteriores do cineasta vivido por Stellan Skarsgård, tem passagens de peças teatrais da filha interpretada por Renate Reinsve introduzidas no contexto da trama principal e o filme nunca se perde. Pelo contrário, tudo ali serve para que Valor Sentimental conte sua história.
O elenco, inclusive, é excepcional. Skarsgård está entre a dor de saber que nunca esteve ao lado das filhas de verdade e a tentativa meio desajeitada de voltar à convivência. Ele só quer que a primogênita leia o roteiro, mas ela está amargurada com razão – e Renate deixa claro no olhar a luta entre o amor pelo pai e a dor que ele causou.
No meio desse fogo cruzado silencioso, Elle Fanning sofre, interpretando a atriz famosa que foi escolhida para substituir a filha de Skarsgård no protagonismo do projeto. Repare como ela vai perdendo o brilho – inclusive o cabelo loiro é escurecido a certa altura. Ela simplesmente não consegue entender o que o diretor quer de verdade. E ele sabe que não poderia se fazer entender naquele contexto.
O meu grande problema com Valor Sentimental, contudo, é que, por mais que Trier saiba contar sua história e articular seus personagens para isso, o filme não traz grandes novidades. Esse tipo de história você já viu antes, com o mesmo tipo de desfecho, os mesmos medos, ansiedades e, por vezes, até com mais emoção aflorada.
Eu estava junto de cada um dos personagens na jornada, entendi a angústia e felicidade deles. Mas ao fim do caminho, percebi que soube até a hora de abrir o guarda-chuva quando o tempo fechou ou abrir a janela quando o tempo melhorou.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais