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Os Arcos Dourados de Olinda: um curta brasileiro em busca do Oscar

Por trás da falência de um McDonald’s em Pernambuco, há uma história política e Os Arcos Dourados de Olinda, o curta brasileiro que pode chegar ao Oscar

, em Uberlândia

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“O estrago meio que já está feito”. Essa foi a frase que mais me chamou a atenção na entrevista que fiz com Douglas Henrique sobre seu documentário em curta-metragem, Os Arcos Dourados de Olinda. Inclusive, “meio que” corroborando uma teoria que eu tinha sobre o ótimo filme que o diretor e roteirista vem distribuindo no Brasil e no mundo desde 2025.

Filme esse que pode ser o primeiro curta-doc brasileiro a ser indicado ao Oscar.

O diretor Douglas Henrique em entrevista para a coluna Outra Tela – Crédito: Vinícius Lemos

A produção parte da premissa folclórica da cidade pernambucana que conseguiu falir, no início dos anos 2000, uma unidade do McDonald’s no Brasil. Essa é a história-guia, mas a grande verdade é que Os Arcos Dourados de Olinda tem até mais de política do que seu ponto de partida tem a oferecer.

Paralelamente, vemos como a então candidata à Prefeitura de Olinda pelo Partido Comunista do Brasil, Luciana Santos, conseguiu se eleger antes mesmo da onda de esquerda que o país viveria em seguida, culminando na eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2002.

Eu questionei Douglas se a ex-prefeita e atual ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação sabia que o filme sobre a lanchonete estadunidense era, em grande medida, sobre a primeira eleição para o Executivo municipal.

“No começo do ano passado consegui entrevistá-la. Ela não fazia ideia de que o filme sobre o McDonald’s escondia que era sobre ela. O filme estreou e muita gente viu… E contou que era sobre ela. Aí, um dia, o Ministério [da Ciência, Tecnologia e Inovação] nos ligou e a gente a convidou para uma sessão especial no Cine São Luiz. Foi quando Luciana o assistiu pela primeira vez”, contou o diretor sobre a sessão com 700 pessoas.

O Cine São Luiz é um dos cinemas históricos mais importantes de Pernambuco e ficou ainda mais conhecido ao fazer parte da trama do filme O Agente Secreto.

A unidade do McDonald’s fechada em Olinda – Crédito: Arquivo pessoal

E o Oscar?

Mas eu cheguei ao filme com o papo de Oscar, uma vez que Os Arcos Dourados de Olinda está inscrito e apto à apreciação dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. E aí o curta ganha mais uma camada, dessa vez para além da história que ele documenta.

A grande verdade é que Douglas Henrique e os demais envolvidos estão dobrando a aposta no próprio trabalho. E a mão do jogo é boa.

Para se tornar apto a concorrer ao Oscar, o filme precisou ganhar um festival que o qualificasse para tal. Isso aconteceu com o prêmio de Melhor Documentário Brasileiro – Curta no É Tudo Verdade de 2026.

Uma condecoração importante, claro, talvez a maior delas até aqui, mas não a única.

“Exibidos em 16 festivais e agora a gente completou 50 premiações e 70 seleções. O único continente em que a gente não estreou foi na Oceania”, me contou o diretor.

Além do mais, neste mês o filme deu sua volta completa e, oficialmente, foi exibido pela primeira vez na cidade que o batiza, como parte de um movimento para que o cinema de rua de Olinda fosse reativado.

“Ele está fechado há 50 anos”, disse Douglas.

O que estou querendo dizer é que o estrago meio que já está feito antes mesmo de uma possível indicação ao Oscar. Eu não preciso dizer: o filme fala por si.

Popularidade

O curta já ganhou popularidade orgânica, e figurar no Oscar do ano que vem pode ser o passo de visibilidade seguinte para a produção.

“A gente viu que tinha uma oportunidade de a galera abraçar isso e que, se a gente fosse atrás da mídia, seria interessante e teríamos pessoas impulsionando. Mesmo se não passarmos, acho que o estrago está feito. A popularidade cresce muito no Brasil, com mostras e cineclubes interessados. Várias e várias pessoas me contaram que voltaram ao Cine São Luiz depois de 30 anos porque descobriram o filme, um curta-metragem brasileiro, o que é muito valioso”, arrematou Douglas Henrique.

Não que isso signifique que Os Arcos Dourados de Olinda já esteja completamente satisfeito. Sua equipe prepara campanha, com assessoria do próprio festival É Tudo Verdade, com exibições em Los Angeles sendo buscadas por meio do Ministério da Cultura e do consulado brasileiro, além de mais participações em festivais na Europa, por exemplo. Lembre-se de que a Academia norte-americana de Cinema tem muitos votantes estrangeiros.

 

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Linguagem arejada de um artista jovem

Nada mal para um diretor que nasceu em 2000, teve uma ideia em 2021 como estudante de cinema, a partir da já famosa história sobre uma cidade que rejeitou o soft power culinário dos Estados Unidos e que buscou uma linguagem arejada para seu filme. Mesmo tendo entrevistado sua protagonista e uma série de trabalhadores do restaurante, ele preferiu não levar essas falas diretamente para o roteiro e para a montagem.

“Enquanto eu montava [o filme], a ideia era que fosse acelerado na quantidade de informações e dinâmico. Por exemplo, tem um momento em que falamos muito sobre a política na cidade e, historicamente, era um momento em que o McDonald’s estava sendo construído. A gente joga uma propaganda [do restaurante] chamando adolescentes para trabalhar e que eles precisam ser bem-arrumados — numa coisa bem fora de tom. E, como eu queria trabalhar movimento, é mais difícil de controlar esse material [as entrevistas], se precisasse picotar ou algo assim. Fora que eu economizaria, sem uma equipe de filmagem [para as entrevistas]”, explicou Douglas.

lembrando que o filme foi escrito em três meses junto do parceiro de roteiro Arnon Hochman,.

“Mas, afinal, como eles conseguem construir uma história de disputa eleitoral com essa falência folclórica de Olinda?”, você pode me perguntar.

Aí você vai ter que assistir a Os Arcos Dourados de Olinda. Ele está disponível no portal da Mostra Cine.Ema até 19 de outubro.

 

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais