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O dia em que Ancelotti reconciliou (ou não) dois gênios do cinema

A pelada que serviria para reconciliar Pier Paolo Pasolini e Bernardo Bertolucci teve um personagem inesperado: um garoto chamado Carlo Ancelotti

, em Uberlândia

Tem uma história famosa sobre um jogo de futebol entre dois grandes nomes do cinema italiano que serviu não só para refazer a amizade abalada entre Pier Paolo Pasolini e Bernardo Bertolucci, como ainda ganhou tangência com o futebol brasileiro: o nome de Carlo Ancelotti.

Os cineastas italianos já tinham sido próximos. O pai de Bertolucci era amigo de Pasolini e, em 1961, quando dirigiu Accattone, Pasolini convidou Bertolucci para trabalhar como assistente de direção. O fato meio que abriu as portas para a carreira do diretor, que ainda estava em formação.

No entanto, em 1972, por ocasião do lançamento de O Último Tango em Paris, Pasolini fez algumas críticas à produção de Bertolucci, acusando o colega de espetacularizar o sexo em cena.

Bertolucci e Pasolini – Crédito: XII Congresso PCI di Bologna de 1969

Três anos depois, contudo, ambos filmavam suas novas produções em áreas rurais nos arredores de Parma. Tanto Salò ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo, quanto 1900, de Bernardo, precisavam de grandes propriedades rurais, arquitetura tradicional italiana e campos agrícolas praticamente intocados para suas locações.

Foi aí que a atriz Laura Betti, amiga de ambos e que filmava Salò, teve a ideia de organizar uma partida de futebol entre as equipes dos dois filmes para aproximar os diretores novamente.

O desafio foi aceito e, em 1975, o jogo foi marcado.

O problema é que Bertolucci “reforçou” seu time com jogadores de verdade, entre eles um adolescente chamado Carlo Ancelotti, então com 16 anos. Naquele momento, o atual técnico da Seleção Brasileira ainda não era jogador profissional e atuava no futebol de base da região de Parma.

Ancelotti e a equipe de 1900 venceram por 5 a 2 o time de Pasolini. Inclusive, o jovem teria marcado um gol, depois de se fingir de assistente de produção.

Uma foto das duas equipes confraternizando ainda em campo se tornou famosa e chegou até Ancelotti. Como informou a La Gazzetta dello Sport, ao ser questionado sobre a imagem, o Mister confirmou:

“Sim, esse menino sou eu. Onde você encontrou a foto? Nunca a tinha visto antes. Posso ficar com ela? Vou guardá-la como lembrança.”

Ancelotti à direita, no círculo vermelho, e Pasolini à esquerda, no destaque branco – Crédito: Centoventi Contro Novecento

À época, Pasolini ficou irritado porque considerou que Bertolucci havia quebrado o espírito da partida ao escalar atletas junto aos integrantes de sua equipe de filmagem. Ou seja, o que era para ser um amistoso se tornou mais um motivo de atrito entre os dois.

Essa história se tornou um documentário em 2019, chamado Centoventi contro Novecento (120 contra 1900, em alusão aos títulos dos filmes).

Inclusive, no filme já se falava da possibilidade de Carlo Ancelotti ter estado em campo em 1975, algo que, naquela época, ainda não havia sido confirmado. Apenas em 2021, a La Gazzetta dello Sport conseguiu a declaração do agora treinador.

A história terminaria com uma notícia boa e uma má.

O documentário Centoventi contro Novecento recuperou imagens do pós-jogo em que Pier Paolo Pasolini e Bernardo Bertolucci aparecem juntos, sorrindo, conversando e dividindo o troféu da partida. Esses registros sugerem que a tensão foi passageira e que eles fizeram as pazes logo depois.

Todavia, não houve tempo para uma reaproximação mais profunda. A partida aconteceu poucos meses antes do assassinato de Pasolini, em novembro de 1975.

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Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais