O Bosque Selvagem e o animador mineiro em busca do segundo Oscar
Natural de Uberaba e animador de O Bosque Selvagem, Thiago Calçado falou sobre sua expectativa de seu novo trabalho estar no Oscar 2027 e sua carreira de volta ao Brasil
Era início da noite em Uberlândia e os filhos de Thiago Calçado já dormiam, quatro horas à frente no fuso horário da Noruega, quando ele entrou falando baixo na ligação de vídeo para que pudéssemos conversar sobre seu trabalho mais recente: O Bosque Selvagem, já em cartaz.
Que me desculpe o trocadilho, mas o animador nascido em Uberaba estava bem animado com a ótima recepção do projeto dirigido por Travis Knight para o estúdio LAIKA. “Não vi Toy Story 5… Estou tão empolgado que não quero ver os (possíveis) concorrentes ao Oscar”, disse.
Pois muito bem, o estúdio para o qual ele enviou o currículo algumas vezes antes de ser admitido agora pode, enfim, levar um Oscar para casa com o trabalho do mineiro entre os animadores. O Bosque Selvagem está em alta nas apostas para o prêmio de Melhor Animação da Academia de Cinema dos Estados Unidos em 2027.
Ainda que tenha todos os seus longas indicados ao prêmio (de Coraline a Link Perdido), a LAIKA ainda não subiu ao palco para buscar uma estatueta. “Estou na internet o tempo todo fazendo propaganda (do filme). Eu amo o que faço e quero reconhecimento. E a galera (equipe de O Bosque Selvagem) sofre, chora querendo entregar o melhor, é muita paixão envolvida”, contou Calçado.

Esse é o segundo filme que o animador faz com o estúdio e com o diretor Travis Knight. Em 2016, eles lançaram Kubo e as Cordas Mágicas. “Mandei (o portfólio) umas quatro ou cinco vezes para o estúdio. Depois de cinco anos, um animador lá de dentro me chamou. (…) Esse é o melhor filme do Travis, mas acho que ele consegue ser melhor ainda”, disse Thiago, depois de chamar o diretor de visionário durante nossa conversa.
Eu posso dizer que o animador sabe do que fala, pois seu currículo passa por produções como Ilha dos Cachorros, dirigido por Wes Anderson, e Pinóquio, de Guillermo del Toro. Este último, inclusive, vencedor do Oscar de Melhor Animação em 2023.
Morte e cavalos
No filme da Netflix, Thiago Calçado foi responsável pela animação da Morte, personagem que tem traços felinos no Pinóquio de Del Toro. Isso o levou a animar cavalos e ajudar no trabalho com outros quadrúpedes em O Bosque Selvagem. “Cada animador trabalha em uma sequência. Ninguém queria fazer, então pedi para fazer os cavalos por conta da mecânica. Tinha feito a Morte, então estava interessado nessa dinâmica de animar os animais (de quatro patas)”, explicou.
A estimativa é que 50 animadores tenham participado do longa, que, aliás, é a maior animação em stop-motion em termos de duração, com mais de 130 minutos ao todo. O filme demorou cinco anos para ser produzido. Deu tempo até de Travis Knight seguir com a direção de Mestres do Universo enquanto a animação continuava sendo produzida. Calçado ficou dois anos no time.
Manter a unidade de um trabalho grandioso como O Bosque Selvagem é um desafio. A equipe tem que se encontrar em um cinema no estúdio, assistir a tudo o que está sendo feito e garantir que os detalhes caminhem juntos entre todos os integrantes. “Temos reuniões toda semana, a gente assiste às cenas de todos, vê os trabalhos e troca figurinhas. A gente se filma atuando e temos uma biblioteca de ações. Quando o diretor de animação ou o próprio diretor gostavam de uma cena, eles falavam: ‘essa é a personagem'”, esmiuçou o artista mineiro.
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De volta ao Brasil
Apesar de estar de passagem na Noruega com os filhos, Thiago Calçado agora tem outras prioridades: seu estúdio em Florianópolis (SC). O FOSS Animation Studio nasceu na capital catarinense depois que o animador trabalhou em Minhocas, de 2013, justamente no Sul do país, região na qual se desenvolveu uma cena de produção de animação, com pessoal com experiência em bonecos, cenários e outros conhecimentos necessários para esse tipo de trabalho.
Ao mesmo tempo, ele me contou que trabalha em uma adaptação em animação do livro A Caixa Preta, de Tiago de Melo Andrade, com equipe de Uberaba, sua terra natal. A ideia é misturar animação em 2D e stop-motion. O trabalho ainda está na fase de concepção artística e de roteiro. “Está dentro da minha vontade de voltar para meu país e contar minhas histórias”, explicou o artista, que ainda salientou durante a entrevista que a ideia é buscar, em experimentações, um estilo visual próprio para trazer à tona essas narrativas.
“O Bosque Selvagem se passa em Portland, morei lá, conheço a cidade, tenho certo carinho, mas o filme tem muito dessa cultura de entrar no bosque e tal, isso não é coisa nossa… Por mais que seja feliz trabalhando com isso”, deixou claro.
OK, Thiago, mas a gente sabe que, daqui até janeiro de 2027, quando serão anunciados os indicados ao Oscar, seu foco será mesmo a torcida por O Bosque Selvagem — e, se tudo der certo, pela premiação em março do ano que vem.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais