Manas vence o Grande Otelo e Academia prova que não queria O Agente Secreto no Oscar
Houve empate entre Manas e O Agente Secreto no prêmio principal da Academia Brasileira de Cinema, mas o filme de Marianna Brennand recebeu maioria dos prêmios artísticos
“Imprensa, aí está o que tanto queria: O Agente Secreto deverá representar o Brasil no Oscar”
Essa foi a frase dita por Sara Silveira, produtora cinematográfica e então presidente da Comissão de Seleção da Academia Brasileira de Cinema para o Oscar 2026, quando do anúncio de O Agente Secreto como escolha para representar o Brasil na premiação estadunidense no ano passado.
Nesta terça-feira (4/8), aconteceu a entrega do Prêmio Grande Otelo 2026, da Academia Brasileira de Cinema, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. As vitórias de Manas em categorias como Direção, Roteiro Original e Filme de Ficção (num empate inédito com O Agente Secreto) demonstraram que os ânimos da própria Academia Brasileira variaram entre “amamos Manas” e “temos um problema com O Agente Secreto”.
Acredito mais na hipótese de que os membros votantes se apaixonaram pelo filme de Marianna Brennand. Não desmereço Manas, filme que só pude assistir bem recentemente (ainda farei uma crítica sobre ele nesta semana, aqui na coluna). Adianto, inclusive, que gostei da produção, principalmente quanto à forma respeitosa com que retrata as vítimas dos abusos mostrados na trama.
Contudo, mesmo que o filme brasileiro mais lembrado em festivais e premiações pelo mundo entre 2025 e 2026 tenha recebido 18 indicações ao Grande Otelo, O Agente Secreto perdeu as principais justamente para Manas. Manas foi particularmente forte nas categorias de autoria cinematográfica, enquanto O Agente Secreto venceu nas categorias técnicas e visuais.

A Academia está errada quanto à própria premiação? De forma alguma. Mas votações demonstram preferências, e o que quero que fique deste texto é que o Brasil, em 2026, passou muito perto de ser a França de 2024.
Explico: em 2023, Anatomia de uma Queda havia acabado de conquistar a Palma de Ouro em Cannes. Era, portanto, um dos filmes europeus mais celebrados daquele ano e tinha uma perspectiva muito forte na temporada de premiações. Mesmo assim, a comissão francesa não o escolheu para representar a França no Oscar. O escolhido foi O Sabor das Coisas. A decisão acabou sendo considerada um grande erro estratégico: o país perdeu o Oscar de Filme Internacional, enquanto Anatomia de uma Queda acabou recebendo cinco indicações ao Oscar 2024: Melhor Direção (Justine Triet), Melhor Atriz (Sandra Hüller), Melhor Montagem e Melhor Roteiro Original, categoria que venceu.
O Agente Secreto havia vencido dois prêmios em Cannes, de direção e ator, e, claramente, demonstrava ter maior tração no mercado internacional, mas a Academia parecia não querer escolhê-lo para que Manas fosse enviado como representante no prêmio dos Estados Unidos.
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O que era estranho no sentido competitivo, uma vez que não só O Agente Secreto vinha de grande destaque, como ainda foi adquirido pela NEON para distribuição em solo norte-americano, o que dava grande força para uma campanha lá fora. Ao mesmo tempo, Manas fez campanha tentando primeiro conquistar a vaga brasileira. A de O Agente Secreto já vinha sendo estruturada internacionalmente, independentemente da decisão brasileira.
Agora, você pode somar a frase da presidente da Comissão de Seleção, “Imprensa, aí está o que tanto queria”, com as vitórias de Manas e entender que a obra de Mendonça Filho foi escolhida a contragosto.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais