Filmes para conhecer: Os Enforcados
Mais uma parceria de Fernando Coimbra e Leandra Leal, Os Enfocados poderia ter repercutido mais com uma trama sobre maldade, paranoia e deboche brasileiro
Os Enforcados chegou ao streaming em maio, mas também esteve nos cinemas em agosto de 2025. Como só consegui assistir ao longa há poucas semanas, posso dizer sem receio: ele merecia ter recebido maior atenção. Trata-se de um suspense genuinamente brasileiro, que mistura violência, paranoia e jogo do bicho numa espiral de maldade temperada por um deboche característico da nossa cultura.
A trama acompanha um crime ocorrido nas entranhas do jogo do bicho, no Rio de Janeiro, cujas consequências tomam rumos inesperados para Regina (Leandra Leal) e Valério (Irandhir Santos). E essa imprevisibilidade não está apenas na história. Os próprios personagens escondem camadas que vão sendo reveladas aos poucos, em arcos dramáticos amplos.
Fernando Coimbra, que também assina o roteiro, constrói uma narrativa bem amarrada. Por isso, revelar qualquer detalhe além da premissa significa correr o risco de estragar a experiência. Basta dizer que praticamente tudo o que Regina e Valério dizem ou fazem encontra eco mais adiante na narrativa. Nada parece gratuito.

Isso não significa que Os Enforcados seja um filme irrepreensível. A fotografia, embora dialogue com a crueza proposta pela história, me parece inferior ao restante do projeto. Também nunca me convenceu completamente a ambientação da casa em reforma. Ainda assim, esse aspecto acaba funcionando de maneira curiosa, pois reforça a sensação constante de desconforto que o filme busca provocar.
Há apenas um momento em que senti falta de um desenvolvimento maior: a sequência da refeição no estaleiro. Por marcar um ponto de virada decisivo na trama, ela poderia respirar um pouco mais. Ainda assim, cumpre sua função com eficiência. A partir dali, tudo começa a degringolar — para o azar dos personagens e para a felicidade do espectador.
Curiosamente, até o desenho de produção ganha força conforme a narrativa avança. A própria casa, inicialmente pouco interessante, passa a transmitir outra sensação com sua arquitetura polida à medida que os acontecimentos se tornam mais sombrios.
Com o pé no acelerador, Os Enforcados cresce justamente quando expõe suas cartas mais importantes. A narrativa ganha peso, a atmosfera se torna ainda mais sufocante e o suspense encontra sua melhor forma.
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E há o desfecho. É difícil comentar qualquer aspecto dele sem comprometer a surpresa. Basta dizer que é ali que se percebe toda a dimensão do trabalho de Irandhir Santos e, sobretudo, de Leandra Leal, em uma atuação impressionante.
Aliás, não é a primeira vez que a atriz brilha sob a direção de Fernando Coimbra. Ela já havia realizado um trabalho igualmente memorável em O Lobo Atrás da Porta.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais