Outra Tela

Críticas, informações e discussões sobre o mundo do cinema e streamings, assinadas por Vinícius Lemos!

 

Filmes para conhecer: 360

Com trama circular, 360 é dirigido por Fernando Meirelles, contudo o grande nome do projeto é o do roteirista Peter Morgan

, em Uberlândia

Google News

Filmes para Conhecer é essa prateleira da coluna na qual sempre vou destacar filmes que tiveram notoriedade em algum momento, mas me parecem que vão sendo esquecidos, em menor ou maior prazo. Quando digo prateleira, tem muito a ver com minha própria coleção de filmes e, nesta semana, me deparei com 360, produção lançada comercialmente em 2012, com direção de Fernando Meirelles e montagem do também brasileiro Daniel Rezende.

Tenho certeza de que muita gente pode ter chegado até esse texto e nem ter ouvido falar desse filme. Também pudera: ele teve estreia e resultados de bilheteria mirrados naquele ano. Me espanta até eu não só ter conseguido uma sessão em Uberlândia, mas depois ainda ter conseguido colocar o filme na minha coleção em blu-ray. Outros tempos.

Minha cópia em mídia física

Ainda que nós, brasileiros, possamos nos orgulhar de que Meirelles esteja à frente desse projeto verdadeiramente internacional — envolvendo países como Reino Unido, Áustria, França e Brasil —, a grande verdade é que 360 tem outro dono: Peter Morgan, roteirista desse drama de estrutura interessante e personagens idem.

Meirelles contou que só se sentou na cadeira de diretor por convite de Morgan. Ele estava desenvolvendo um projeto com Jorge Furtado à época, mas, diante do roteiro que lhe foi apresentado e do telefonema de Peter, resolveu embarcar na produção. Até porque já havia financiamento e muito do projeto encaminhado. O brasileiro teve liberdade na escolha do elenco e ainda tinha a facilidade de filmar o roteiro pronto — o que aconteceu no início de 2011, com entrega do corte no final daquele ano, inclusive com a primeira exibição em setembro, no Festival de Toronto.

A grande contribuição do brasileiro ao projeto é o equilíbrio que promove entre vários bons pontos da produção, seja o elenco, a montagem fantástica de Daniel Rezende ou a transposição do texto de Morgan.

O filme trata de uma grande quantidade de personagens ligados por pequenos pontos de cruzamento criados a partir de suas decisões. Daí temos o executivo que quer se encontrar com uma prostituta e é descoberto, a brasileira que volta para casa, a esposa infiel, o criminoso sexual que acaba de deixar a prisão, o senhor que busca a filha, o motorista-capacho e outros tantos. Suas histórias e relações criam uma linda estrutura circular que justifica o título.

Para isso, Morgan lança mão de artifícios arriscados, como apresentar personagens no terço final do longa, o que demanda identificação rápida com a plateia. Algo bem-sucedido em menor (uma esposa que cobra a presença do marido) ou maior grau (esse marido que descobre como tomar as rédeas de sua vida). O caso é que, para todos os personagens, há um arco com começo, meio e fim, dentro da estrutura macro do roteiro. Um trabalho fantástico de Morgan, que, mesmo não sendo bem-sucedido com todos os personagens, é corajoso e relativamente inovador.

Ben Foster tem a melhor atuação mesmo com grande elenco – Crédito: Divulgação/ Diamond Filmes

A mão de Rezende, nesse sentido, é fundamental, já que monta o filme usando elementos sutis para mostrar as ligações daquelas pessoas em trânsito (físico ou no rumo de suas vidas). Repare como há sempre um avião ou ônibus cruzando a tela e de que forma eles se tornam atalhos para as escolhas daquelas pessoas e, assim, elementos fundamentais para o destino de cada um.

E mais: os próprios veículos são usados pelo montador para criar fluidez nas transições, tornando a trama ágil. O que potencializa cada um dos dramas vividos pelas pessoas em cena.

O destaque fica para o arco que envolve os personagens de Maria Flor, Anthony Hopkins e o (melhor de todos) Ben Foster. A partir da decisão da moça de voltar para o Brasil, conhecemos um pai que precisa de redenção e cria laços com a brasileira durante a espera no aeroporto, enquanto ela se envolve perigosamente com um criminoso sexual sem se dar conta do passado dele.

×

Leia Mais

Desse cenário saem: uma atuação digna de prêmios de Foster, o momento mais tocante do filme, com um monólogo de Hopkins, e a personagem na qual o filme investe maior complexidade dramática em um projeto que deixa claras, no início e no fim, suas pretensões. São duas falas que questionam inicialmente “como viemos parar aqui” e, sutilmente, deixam clara a estrutura da trama do filme, com outra pessoa dizendo “pronto, demos a volta completa” — e repare como as pontas do desfecho e da abertura se encontram.

O grande problema de indicar 360 neste momento é como ter acesso ao filme. Ele está na plataforma da Diamond Filmes, que você pode assinar dentro do Prime Video. Eu sigo com minha cópia em mídia física, bem mais difícil de encontrar.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais