Crítica: Manas é sobre violência, mas sóbrio e realista
Manas descortina o ciclo da violência contra meninas na Ilha do Marajó e, ainda que não surpreenda, conta bem sua história sobre a triste realidade
A grande virtude de Manas vai além de argumentar que é necessário quebrar um ciclo para que a violência possa cessar. O que filme melhor faz é preservar a vítima, mesmo dentro um contexto completamente insalubre.
Estamos na Ilha de Marajó e o destino de todas as meninas no local é ser objeto. Não é à toa que apenas dizer que a jovem “vai para a balsa” já seja entendido, sem grandes explicações. Por óbvio estamos falando de prostituição de adolescentes muito jovens.
Chega a ser um alívio quando Marcielle (Jamilli Correa) é proibida pelo pai de ir até a tal embarcação vender alimentos, mesmo sendo incentivada pela mãe. Aliás a abertura do filme é um diálogo sobre a irmã mais velha da protagonista, que saiu da vila depois de se relacionar com um homem. Mas os abusos estão ainda mais enraizados naquele lugar e as coisas, claro, irão sair do controle.

Assusta ainda que essa realidade esteja naturalizada na comunidade de tal forma, que as meninas já a conheçam tão cedo. Há uma colega de sala de Marcielle que já o faz, da mesma forma que a dona de um pequeno comércio local é um tipo ambíguo entre a resignada e a cuidadora daquelas adolescentes.
O ritmo de Manas é lento, até por buscar ser naturalista. A fotografia nunca se excede, mesmo quando estamos dentro uma boate na beira do rio. Os diálogos, ainda que sejam mais universais do que regionalistas, na sua maior parte, parecem que são ditos por pessoas reais. E há construção de rotina familiar. A quebra dessa rotina, inclusive, é importante para que coisas sejam ditas e entendidas, mesmo não mostradas explicitamente
Foram esses momentos que mais me chamaram a atenção no longa, já que o recurso do roteiro escrito a várias mãos, inclusive pela diretora Marianna Brennand, é essencial para evitar o choque e vitimização daquelas personagens para além da óbvia situação criminosa pela qual passam.
A história pode ser contada sem objetificar ainda mais as meninas. Por isso, um enquadramento tão simples, em que um homem cola seu rosto em Marcielle e sua respiração ofegante ganha o som da cena, se torna tão forte – e não é necessário que seja dito mais nada.
Leia Mais
Há, inclusive, uma rima entre a ação da menina naquele momento e o final da projeção que representa o início e o fim daquela situação.
Manas, contudo, pela trama que se pôs a contar, tinha dois caminhos mais óbvios a serem tomados e a produção não foge deles. Reforça seu pé na realidade, mas não surpreende nem cria tensão – ainda que seja um recorte social tétrico colocado em tela.
O filme já está disponível para aluguel digital e em plataformas de streaming.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais