Bugonia tem estranheza pela estranheza e é o pior indicado ao Oscar
Verborrágico, mas raso, Bugonia surpreende pela atenção da indústria em premiações como o Oscar, o que parece ser apenas o prestígio de diretor e protagonista com pares
Vinícius Lemos , em Uberlândia
Haja estranheza para manter a sua atenção em Bugonia. Por mais que o diretor especialista nisso, Yorgos Lanthimos, tente, é difícil superar a verborragia inicial até chegarmos a algo realmente chocante. E, quando isso chega lá, bem, o filme segue um dos dois caminhos que reserva para si. É irônico, mas está longe de ser uma das coisas mais legais que você já viu na vida.
O longa é econômico: trata-se do embate entre um conspiracionista e a CEO de uma grande empresa. Ela é sequestrada e tem a cabeça raspada sob a acusação de ser uma alienígena, cuja espécie comanda a Terra. O alucinado quer uma reunião com os chefes dela.
O que deveríamos ver a seguir seria um afiado debate entre vítima e sequestrador. Só que não há nada além do óbvio nesses diálogos. Sim, há umas teorias malucas e uns papos sobre como os poderes dela poderiam ser neutralizados — além de uma Terra plana — que tiram algumas risadas de canto de boca, mas isso não segura uma hora de projeção.

Talvez, se fosse um filme com 30 minutos a menos, a falta de punch das conversas fosse menos percebida. Do jeito que ficou, a produção pode perder muitos espectadores em dois atos.
Espantam-me as indicações ao Oscar do filme justamente por isso. O roteiro, adaptado do longa sul-coreano Save The Green Planet, de 2003, é bem raso. Além do papo chato, nenhum dos personagens é realmente bem desenvolvido. Isso quando não são completamente desnecessários.
Emma Stone e Jesse Plemons tiram leite de pedra. Ele trabalha com uma quase caricatura. Sim, você já viu algum conspiracionista do tipo, mas não é porque eles parecem ser maluquinhos de bairro que eu me interessaria em ver duas horas disso em uma comédia de humor negro. A boa atuação de Plemons deveria ser reverenciada por trazer alguma camada para um personagem traumatizado como vários outros que você já viu por aí.
Já Emma é boa pela entrega, pois, se Lanthimos faz algo certo aqui, é exigir também fisicalidade de sua protagonista.
De resto, todas as demais pessoas que vemos em tela são artifícios para que a dupla central tenha algo a fazer. O amigo de Plemons serve para que ele fale as mais variadas teorias da conspiração e conte seu plano. É incrível que o roteiro ainda o utilize, a certa altura, para tentar chocar a plateia, uma vez que a morosidade vai tomando conta de Bugonia.
O policial, então, é um apêndice que o filme cria para tentar dar mais uma camada ao protagonista quando, com dois ou três ajustes, poderia ser limado da trama sem grandes prejuízos.
Da mesma forma, algumas esquisitices — como uma pessoa sendo guiada como um balão pela rua — parecem estar em tela apenas porque você espera isso de Yorgos Lanthimos.
Aí, quando Bugonia coloca todas as cartas na mesa e tenta rir de si mesmo, a piada parece uma gracinha para atiçar os conspiracionistas de quem tirou sarro — e dar um final sombrio sem perder o tom bem-humorado.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais