Sopro tardio
Eu pensei que aquele sopro do tempo fosse alegria confirmada, mas era tristeza anunciada
Meu pai morreu de infarto.
Num sábado, logo depois do meio-dia. Faltava pouco para o verão terminar e talvez seja por isso que eu tenha sentido um vento desavisado enquanto almoçava num restaurante na serra do mar. Eu via o horizonte e imaginava, em breve, a volta pra casa. Na época, eu morava no Rio de Janeiro e as coisas estavam difíceis. Foi ali que decidimos que era hora de mudar o rumo e recomeçar.

Eu pensei que aquele sopro do tempo fosse alegria confirmada, mas era tristeza anunciada.
Não me despedi dele. Não contei que estaria mais perto. Que, quem sabe, eu lhe daria um neto. Que eu seria companhia nas visitas à minha avó paterna para tomar café, comer biscoito direto da lata de alumínio e conversar bastante. Não deu tempo.
E tempo é algo raro: roga-se por ele e não se consegue. Nos dias de hoje, não alcançamos as horas urgentes de fazer o que queremos, de estar com quem faz sentido ou simplesmente de dançar com o tempo para sentir a vida.
A morte do empresário e influencer Maderite, aos 50 anos, foi mais um beliscão da vida — pelo menos para alguns. Eu levei um susto e reforcei uma atitude. Bati o portão de casa e fui comer espetinho com vinagrete lá na casa da minha mãe. Rimos, brincamos, relembramos e cuidamos do amor que nos sustenta diante das tragédias que nos rondam.
E hoje?
O que vamos fazer para viver?