Relíquias, afeto e o presente que resgatou memórias em família
Em meio à rotina, uma visita surpresa traz peças bordadas à mão e reforça o valor das conexões reais e da amizade
Faltava uma colherada para terminar o arroz e o feijão que sobraram no prato quando escutei a batida da porta do carro. Eu sabia quem era, pois a amiga em questão sempre se preocupa em saber se está tudo bem chegar para uma visita. Naquele dia, seria o que chamamos de “beija-flor”: uma passada rápida.
Levantei-me ainda mastigando e fui abrir o cadeado do portão da casa da minha mãe. Em tempos de insegurança quase eterna, fazemos o que podemos para nos proteger. Ângela atravessou a pequena rua onde moramos carregando uma caixa branca com laço vermelho; lá dentro, enxerguei um papel de seda cor de lavanda. Seria um presente para mim? Gostei da ideia. Meu aniversário havia sido na semana anterior.
Junto dela estava Priscila, em sua primeira visita ao pequeno lar de Dona Ivone. Poucos metros de construção, porém um espaço amplo no afeto! Havia ainda com elas um pacote. Curiosidade à parte, as cumprimentei com a alegria de rever quem preenche nossa vida de graça.
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Devidamente acomodados no sofá e à mesa redonda — entre marmitas, girassóis e forro de festa —, Ângela me entregou a embalagem. Antes que eu pudesse abrir, ela explicou a origem e o motivo de me oferecer algo diferente de perfumes, roupas ou chocolates. Lá dentro, havia duas peças antigas que pertenciam a uma senhora querida.
Enquanto ela contava a história, fui, cuidadosamente, trazendo à tona a relíquia. O tecido tinha a cor do tempo que passa e não desgasta. Ao segurá-lo e esticá-lo, reparei nas flores em rosa, tons de azul, bege e o verde das folhas. Um bordado delicado de anos a fio. Eu não soube o que dizer diante daquela riqueza e da gentileza sem igual dessa amiga que a profissão me trouxe.
Meu silêncio e um abraço apertado foram a minha forma de retribuir o gesto de receber o passado de alguém que, agora, passa a ser parte do meu cotidiano. Para além de um objeto, o gesto traz o poder da amizade em despertar a sensação de ser lida pelo que se valoriza e pelo que se é. Um sopro de segurança no mundo em que vivemos.