Doce de leite e fogão a lenha: o resgate do Natal de Dona Ivone
Uma crônica sobre a simplicidade, o amor de família e as memórias que dão sentido ao mês de dezembro
Um domingo à toa pouco antes do pôr do sol, fui à casa de minha mãe. Entre a decisão e o abrir do portão, não se passa um minuto — tamanha é a pressa de querer estar perto dela. É um lar pequeno na metragem, porém enorme no amor e nas histórias.
A mesa redonda tem lugar marcado. Ela senta-se de frente para a porta. O encosto da cadeira toca a parede onde estão dois quadros que eu bordei e a foto dela aos cinco anos de idade. Na imagem, ela exibe os cabelos cacheados pelas mãos da minha avó, finalizados com um laço lateral. Vestido com babados e sandálias brancas: o retrato de uma infância simples.
E ela surgiu em um momento da conversa.
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Um resgate do tempo em meio aos preparativos para o Natal. Dona Ivone contou, mais uma vez, como eles passavam o dia 24 de dezembro. O jantar era servido cedo, com arroz, feijão, maionese e frango. Para a “ceia fina”, a vovó Divina preparava o doce de leite com as próprias mãos. Na inocência da criança, surgia o pedido:
— Mãe — dizia a menina Ivone —, põe um pouquinho desse doce de leite para o Papai Noel ali no “rabo” do fogão.
O fogão era a lenha, construído pelo meu avô Irany, pedreiro de primeira!
E assim era feito. Quando o dia amanhecia, a vasilha estava vazia. A menina acordava feliz, por ganhar o presente e por ter agradado o “bom velhinho”. Imagino, hoje, o sorriso discreto do meu avô diante da pureza da filha única.
Essa história traz leveza para uma data muitas vezes confusa, cercada pelo consumo (ou pela falta dele), por uma montanha-russa de sentimentos e até mesmo por uma descrença que insiste em sussurrar. Escutar essa vivência é um alento. Reacende em mim o que há de mais bonito neste dezembro: um amor indiscutivelmente real!