Quase um quarteirão!
Entre memórias e passos reaprendidos, uma filha redescobre a força silenciosa da mãe ao testemunhar sua volta ao mundo — e à própria autonomia
A parede pintada de azul me confundiu.
Eu sabia que era perto de casa, porém não identifiquei exatamente onde. E era justamente ali que minha mãe estava — de pé, ereta e elegante, protegendo-se do sol com um, perceba a incoerência, baita guarda-chuva.
A foto foi tirada pelo fisioterapeuta Vinicius. Há alguns bons meses ele acompanha dona Ivone. Ela passou por duas cirurgias para tratar uma artrose teimosa. Colocou duas próteses — no joelho e no quadril direitos — e vem se recuperando no tempo de uma mulher na casa dos oitenta anos.

Aquela imagem me fez parar numa fração de segundo. Primeiro, para me localizar no bairro onde nasci e sei tudo de cor. Segundo, porque foi uma surpresa perceber um progresso tão significativo.
A gente vai colecionando momentos marcantes nessa vida, e um deles cravou minha memória e partiu meu coração. Foi no dia do aniversário dos meus irmãos. Fomos comer pizza na casa da minha irmã, vizinha da mamãe. O caminho era simples: passar pela porta da cozinha, descer uma rampa leve e entrar pela sala. Pouquíssimos metros — pelo menos para nós, com pernas mais obedientes.
Naquele dia, dona Ivone fez o percurso gemendo e se arrastando com a ajuda do andador. Aquilo foi como rasgar a minha alma.
Hoje, saber que ela conseguiu completar quase um quarteirão com os próprios passos me causa uma alegria difícil de nomear.
Dona Ivone descobriu, nesse exercício com o Vinicius, apesar de ser o mesmo lugar onde foi criada e onde criou sua família, um novo horizonte. O de que, com esforço, dedicação e ternura, é possível chegar a um lugar que antes parecia inimaginável.