O que minha avó me ensinou sem dizer
Hoje, eu escolho acreditar que a esperança ainda entra pela porta
Era um tempo de silêncio.
Um silêncio que preparava a casa — e a gente — para a Páscoa. Lembro da minha avó.
Das orações feitas baixinho, como quem conversa com algo que não precisa de explicação. E das histórias sobre um homem chamado Cristo.
Na sexta-feira, eu me enchia de perguntas.
Por que não podia pentear o cabelo?
Por que não podia ouvir música?
Por que aquele silêncio carregava uma tristeza que eu ainda não sabia nomear?
Meu cérebro pequeno não entendia. Mas guardava.
Com o tempo, as respostas foram chegando.
E hoje eu não falo de religião. Eu falo de fé.
De acreditar em algo maior. E esse algo maior, pra mim, tem nome: amor.
Um amor que transborda.
Que atravessa o tempo.
Que me alcança até hoje — nas lembranças da minha avó materna, minha avó divina, que sempre encontrava um tempo no dia para agradecer.
Na Páscoa, ela dizia:
— É tempo de mudar, né, filha?
E a gente tentava.
O almoço de domingo tinha sol — mesmo quando o céu lá fora não ajudava. Tinha arroz, batata, tomate. Não tinha bacalhau — era caro demais.
Mas tinha sardinha. E tinha uma torta de liquidificador que, até hoje, eu sinto o gosto.
Era simples.
E era tudo.
Hoje, em tempos tão duros, em um mundo que tantas vezes parece apressado demais para sentir e cruel demais para acolher, eu escolho acreditar que a esperança ainda entra pela porta. Pela janela. Pelo coração. Que ela sobe até a mente e nos lembra, todos os dias, que mudar ainda é possível.
E, mais do que qualquer discurso bonito,
que a gente consiga, de verdade, ser humano.
