Mônica Cunha

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Entre a janela e o meu sim

A ideia de voltar para a faculdade depois de décadas longe de uma sala de aula amadureceu nas férias do ano passado

, em Uberlândia

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Sim, depois de décadas, estou de volta à sala de aula; agora construindo novas amizades na área da Psicologia – foto: Arquivo pessoal/Divulgação

 

Foram dois conselhos.
O primeiro veio de uma colega de trabalho.
O segundo, de um padre.

Ela me disse em 2019, no estúdio da TV, enquanto esperávamos uma entrevista começar.
Ele me sugeriu anos depois, durante um café no jardim da confeitaria de uma grande amiga — já no respiro mais leve do fim da pandemia.

Guardei os dois.

Em tempos diferentes, voltei a eles como quem tateia uma ideia ainda sem forma.
Focada na profissão que escolhi aos dezoito, pensei muitas vezes que aquilo talvez estivesse fora de mão.

Mas a vida tem um jeito curioso de repetir o que importa.

Outras vozes vieram. Outras pessoas queridas trouxeram a mesma pergunta disfarçada de sugestão.
E o que antes era distante… começou a ganhar corpo.

Fazer psicologia.

Sim, voltar para a faculdade depois de décadas longe de uma sala de aula.

A ideia amadureceu nas férias do ano passado.
O outono soprou essa possibilidade com mais frescor.

E foi numa tarde de chuva forte que decidi.

Enquanto a coordenadora saiu para buscar a grade do curso, fiquei sozinha diante da janela.
Lá fora, o cerrado encharcado respirava sob a insistência da chuva.
Ali, naquele intervalo breve, pedi a Deus um sinal.

Ele veio.

Não como resposta falada — mas como um acalento certeiro no peito.
O conforto de uma decisão.

O primeiro dia de aula foi numa quarta-feira.
A disciplina que me acolheu nesse início foi anatomia.

Sentei no fundo da sala.
Era o lugar possível para quem chegava — em todos os sentidos.

Lá se vão dois meses.

Entre vozes novas, tempos diferentes, histórias que ainda não conheço…
por um instante, me senti pequena.

Como se tivesse chegado atrasada a uma conversa que já acontecia há muito tempo.

“Será que eu pertenço aqui?”

Mas, nesse tempo, algo começa a se ajeitar dentro de mim.

Talvez não seja sobre chegar pronta.
Talvez seja sobre ter coragem de chegar.

Mesmo com dúvida.
Mesmo com estranheza.
Mesmo com esse silêncio interno que ainda procura palavras.

Porque todo recomeço… tem um pouco de desencontro.

E talvez…
seja justamente aí que a gente começa a se encontrar.