Depois de Tirar os Microfones
Foi no gesto mais automático do meu trabalho que ouvi, pela primeira vez, o som da minha própria história.
Tirei os microfones. Primeiro, a garra que prendia os dois na lapela; depois, as caixinhas penduradas no cós da calça. A convidada do dia estava ao meu lado e aguardávamos o momento da foto. Nesse gesto automático de todos os dias, vi uma vida inteira passar no espaço breve entre o esticar do meu braço e o pousar do equipamento sobre a mesa.
Por segundos lentos, pausados, pensei nos movimentos idênticos que repeti em quase quarenta anos de profissão. Não apenas esse, mas tantos outros gestos que cercam o caminho que escolhi. Olho para trás e vejo muita estrada percorrida. Volto o olhar à frente e é como se a finitude se escancarasse para mim e sorrisse — ou talvez, debochasse.
Entre os sentimentos que carregam a ponte entre passado, presente e futuro, a melancolia se faz inevitável. Mas ela não chega sozinha; vem acompanhada daquela sensação que só alcançamos quando acumulamos o peso das experiências: a verdade necessária de que é hora de se apropriar da própria história.
O que trago desses quarenta anos não é apenas o eco de milhares de entrevistas, mas uma biblioteca de vivências que guardo comigo. O questionamento — aquele que me belisca e me faz ter vontade de chorar, perguntando se realmente vivi cada instante com gana e gosto — ainda surge. Contudo, aquela que sempre esteve comigo me mostra que, embora tudo na vida tenha um ponto final, ele revela, na verdade, uma moldura para o que foi possível construir no meu quintal.
Não deixei de aproveitar o que passou; eu apenas estava ocupada demais colhendo os ingredientes para o banquete que começo a servir agora. O orgulho que sinto não é pelo que terminou, mas pela prontidão com que ainda me sinto capaz de começar.
