A vendedora de ternura
Ana Carolina, a vendedora de ternura que fica num dos cruzamentos mais movimentados da cidade: espero que você a encontre
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A decisão de mudar o caminho veio depois da sibipiruna, antes de chegar à esquina. Um breve intervalo entre uma coisa e outra. Lá na frente, pego a rua em descida — estreita para o número de carros que a disputam, principalmente nos horários mais pesados do trânsito. Para minha sorte, e sossego do cortisol, estava tranquilo naquela hora da manhã.
O sinal fechou e foi então que a vi. Uma surpresa que me fez abrir o vidro e esperar que ela chegasse mais perto. Vestia saia plissada, camisa de manga longa e protegia a cabeça com um chapéu amarrado por uma bandana. As cores intensas do vinho e do roxo se entremeavam em estampas geométricas. Caminhava com um sorriso e carregava uma caixa de papelão. O que será que vendia?

Quando se aproximou e me enxergou, eu a cumprimentei como se fosse uma amiga, quase família. Arrebatada por uma saudade inexplicável, quis saber por onde andava.
Respondeu gentilmente que tinha “ganhado um bebê” e ficado afastada alguns meses. Para não deixar os clientes, designou outra pessoa. Estava de volta. Agora oferecia pipoca doce.
Pedi logo quatro pacotes. Não só para mim — queria levar um pouco daquela energia para aqueles com quem convivo todos os dias. A pipoca ainda morna perfumava o carro com cheiro de açúcar recém-caramelizado, desses que grudam levemente nos dedos e na memória.
Foi a segunda vez que vi aquela moça. E o encantamento transbordou porque ela tem algo raro: verdade no olhar e alegria na alma. A gentileza de também oferecer essas virtudes mudou minha quinta-feira. Levei-a comigo a cada compromisso.
E admito: foi leve — como é leve a presença de quem existe com inteireza.
Ana Carolina, a vendedora de ternura que fica num dos cruzamentos mais movimentados da cidade.
Espero que você também a encontre.