Laura Cardoso: de pioneira do videotape na TV brasileira a dubladora dos Flintstones
Atriz que atravessou gerações, Laura Cardoso ajudou a construir a história da televisão brasileira e deixou personagens inesquecíveis no teatro, no cinema e na dramaturgia
Poucas atrizes conseguiram atravessar tantas gerações e, ao mesmo tempo, fazer parte de tantos momentos importantes da história da arte no Brasil. Laura Cardoso foi uma delas. No rádio, no teatro, no cinema e, principalmente, na televisão, construiu uma trajetória que se confunde com a própria história da dramaturgia brasileira.

Aos 98 anos, Laura deixa um legado que vai muito além das dezenas de novelas e personagens que interpretou. Ela pertence a uma geração de artistas que ajudou a construir a televisão brasileira quando o veículo ainda dava seus primeiros passos e também esteve presente em momentos que entraram para a história da comunicação no país. Sua carreira ultrapassou sete décadas e reuniu mais de 60 novelas, além de trabalhos no teatro, no cinema, no rádio e na dublagem.
Uma dessas histórias aconteceu ainda no início da televisão brasileira. Em entrevista a Antônio Abujamra no programa Provoca, da TV Cultura, Laura contou que participou de uma das primeiras experiências com videotape no Brasil, na TV Tupi de São Paulo. A produção foi Hamlet, dirigida por Dionísio Azevedo, e, segundo a atriz, levou dois dias para ser realizada.
Laura não estava sozinha. A produção reuniu um grande elenco, entre eles Cláudio Marzo, Fernando Balleroni (seu marido) e Flora Geny, entre outros atores. Era um período em que a televisão ainda estava descobrindo sua própria linguagem e começava a experimentar tecnologias que mudariam completamente a maneira de produzir e exibir seus programas.
Antes da fama, Laura era Laurinda
Laura Cardoso nasceu Laurinda de Jesus Cardoso, em São Paulo. Ainda adolescente, por volta dos 15 anos, começou a atuar em radionovelas. Foi nessa época que decidiu adotar o nome artístico Laura Cardoso, por considerar que o nome seria mais radiofônico e mais fácil de ser lembrado pelo público.
O sobrenome Balleroni veio posteriormente, depois do casamento com o ator e diretor Fernando Balleroni, em 1949. Os dois permaneceram juntos até a morte dele, em 1980.
A relação de Laura com a arte começou antes mesmo de a televisão chegar ao Brasil. Ela já havia conquistado reconhecimento no rádio e no teatro quando a televisão começou a ganhar espaço nas casas brasileiras. Sua estreia na TV aconteceu na extinta TV Tupi, emissora que seria fundamental para a formação de uma geração de atores e diretores.
Laura também foi Betty, de Os Flintstones
Uma das curiosidades mais interessantes da carreira de Laura Cardoso está longe das novelas.
Na década de 1960, enquanto continuava trabalhando na televisão, ela também emprestou sua voz para Betty Rubble, a esposa de Barney, na clássica dublagem brasileira de Os Flintstones. A atriz revelou anos depois que gostava muito da experiência e chegou a dizer que amou fazer a personagem.
Ou seja: antes de conquistar o público com personagens como Dona Isaura e Dona Guiomar, Laura também já fazia parte da memória afetiva dos brasileiros por meio da voz.

Uma passagem importante pela Record
Laura Cardoso também teve uma passagem marcante pela TV Record entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970. Na emissora, participou de novelas clássicas como As Pupilas do Senhor Reitor e Os Deuses Estão Mortos.
A atriz voltaria à Record décadas depois, em Vidas Cruzadas, exibida entre 2000 e 2001.
A trajetória pela televisão, aliás, foi marcada por passagens por diferentes emissoras e por uma capacidade rara de se adaptar às transformações da dramaturgia brasileira. Laura começou quando as novelas ainda estavam sendo estruturadas e permaneceu em atividade durante a era da televisão moderna.
Em Mulheres de Areia, de 1993, interpretou Dona Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, vividas por Gloria Pires. No ano seguinte, em A Viagem, apareceu como Dona Guiomar.
Foram personagens diferentes, mas que tinham algo em comum: a capacidade de Laura de transformar papéis coadjuvantes em figuras que permaneciam na memória do público.
Em 2012, ela voltou a chamar atenção no remake de Gabriela. Ao lado de José Wilker, roubou a cena como Dona Dorotéia, uma personagem conservadora e extremamente marcante na trama.
A carreira ainda teve trabalhos em produções como Irmãos Coragem, Rainha da Sucata, Felicidade, Terra Estrangeira, Sol Nascente e O Outro Lado do Paraíso, entre muitos outros. Ao todo, foram mais de 100 trabalhos em diferentes formatos e mais de 60 novelas, segundo levantamentos sobre sua trajetória.
Uma atriz premiada antes mesmo da televisão
Laura Cardoso também acumulou reconhecimento por seu trabalho no teatro, no cinema e na televisão. Recebeu importantes prêmios ao longo da carreira, incluindo Grande Otelo, APCA e Prêmio Shell, além do Troféu Mário Lago pelo conjunto da obra e da Ordem do Mérito Cultural.
Mais do que a quantidade de trabalhos, porém, o que chama atenção é o período histórico que ela atravessou. Laura começou no rádio, viu nascer a televisão, participou das primeiras experiências com videotape, passou pela dublagem, pelo cinema e pelo teatro e acompanhou a transformação das novelas ao longo de décadas.

“Dormindo!”
Existe ainda uma coincidência que ganhou um significado especial após sua morte.
Em 2014, durante uma entrevista à TV Cultura, Laura Cardoso foi questionada por Albujamra sobre como gostaria de morrer. A resposta foi simples: “Dormindo!”. Na ocasião, ela afirmou que considerava essa uma maneira tranquila e “santa” de partir.
Anos depois daquela declaração, Laura morreu aos 98 anos, na noite desta segunda-feira (17), em São Paulo. A informação foi confirmada pela família na madrugada desta terça-feira (18). Segundo informações divulgadas nesta terça, ela estava em casa.
A despedida encerra uma trajetória de mais de oito décadas dedicadas à arte, mas não apaga a presença de Laura Cardoso na memória do país.
Laura Cardoso não apenas fez parte da televisão brasileira. Ela ajudou a construir a televisão que o Brasil aprendeu a assistir.