Mídia e Bastidores

Mídia e Bastidores por Júnior Caritel: análise crítica da TV, internet e famosos. Um giro pelos bastidores que influenciam o público dentro e fora da tela

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A geração que desaprendeu a esperar

Em uma era dominada por vídeos curtos e notificações constantes, a disputa pela atenção do público está transformando a forma como consumimos televisão

, em Cristalina/GO

Existe uma mudança silenciosa acontecendo na forma como consumimos entretenimento. Ela não está apenas nos números de audiência da televisão ou no crescimento das redes sociais. Está no nosso comportamento.

Hoje, basta observar os comentários na internet para perceber uma ansiedade coletiva. Se uma novela demora alguns capítulos para desenvolver um conflito, surgem reclamações dizendo que “não acontece nada”. Se um programa leva alguns minutos para apresentar um quadro, há quem abandone a transmissão. Se um vídeo passa de um minuto, muita gente simplesmente desliza para o próximo.

Crédito: Reprodução / Internet

Vivemos na era em que tudo precisa entregar o melhor momento imediatamente.

O celular nos acostumou a uma recompensa instantânea. Com um simples movimento do dedo, encontramos outro vídeo, outra notícia, outro assunto. O cérebro passou a esperar novidades o tempo inteiro. A consequência é que ficar alguns minutos concentrado em uma única história parece cada vez mais difícil.

Isso explica, em parte, por que tantas pessoas assistem televisão com o celular na mão. O jornal está ligado, mas o feed continua rolando. A novela está no ar, mas a atenção está dividida entre a cena e as notificações. O filme começa, mas, antes do primeiro ato terminar, alguém já abriu o Instagram ou respondeu mensagens no WhatsApp.

A televisão mudou. Mas nós mudamos ainda mais.

Essa transformação já influencia até a maneira como filmes e séries são produzidos. Diversos profissionais da indústria do audiovisual têm discutido um fenômeno curioso: algumas produções estão simplificando cenas e diálogos porque parte do público não está prestando atenção o tempo todo. Como muita gente interrompe o filme para olhar o celular, determinadas informações precisam ser repetidas ou explicadas de forma mais direta para que a narrativa não se perca.

É uma adaptação ao novo comportamento do espectador.

Não significa que as pessoas ficaram menos inteligentes. Significa que a atenção virou um recurso disputado por dezenas de telas, aplicativos e notificações simultaneamente.

Talvez seja por isso que conteúdos curtos façam tanto sucesso. Eles cabem no tempo da nossa ansiedade. Não exigem espera, construção ou desenvolvimento. Entregam o clímax em poucos segundos e já abrem espaço para o próximo vídeo.

O problema é que boas histórias, quase sempre, precisam de tempo. Uma grande novela não se faz apenas com o último capítulo. Um bom filme não vive apenas da cena final. Um telejornal precisa contextualizar os fatos antes de chegar à conclusão. O entretenimento sempre foi uma jornada, não apenas um destino.

Talvez a maior concorrente da televisão hoje não seja o streaming, nem outra emissora. Seja a incapacidade que desenvolvemos de permanecer atentos por alguns minutos sem procurar um novo estímulo.

No fim das contas, a pergunta não é se a TV perdeu espaço para a internet.

A pergunta é: será que ainda sabemos assistir?