Mídia e Bastidores

Mídia e Bastidores por Júnior Caritel: análise crítica da TV, internet e famosos. Um giro pelos bastidores que influenciam o público dentro e fora da tela

A genialidade e o legado imortal de Manoel Carlos na TV brasileira

Com sensibilidade, Manoel Carlos usou a novela como ferramenta de transformação social, levando temas urgentes que do riso ao drama, ajudou a mudar comportamentos no Brasil

, em Cristalina/GO

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A televisão brasileira se despediu, no último sábado (10/01), de um de seus maiores contadores de histórias. Manoel Carlos, o eterno Maneco, faleceu aos 92 anos, deixando um legado que atravessa gerações e segue vivo no imaginário do público. Mais do que o autor das Helenas, Maneco foi um inquieto da arte, um homem que nunca coube em um único rótulo. Passava sensibilidade e humanidade em suas histórias.

Manoel Carlos ou como gostava de ser chamado: Maneco (Foto: Reprodução / Internet)

Autodidata por convicção, Manoel Carlos chegou a iniciar o curso de Direito na antiga Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, mas abandonou as leis para se dedicar ao que realmente o movia: contar histórias. Em 1957, já escrevia programas de TV, chegou apresentar o “No Mundo dos Livros” na Record e, a partir dali, construiu uma trajetória rica e diversa, passando por diferentes funções, formatos e emissoras.

 

Manoel Carlos em 1957 na Record, no programa “No Mundo dos Livros” (Foto: Reprodução / Internet)

Antes de se consagrar como autor de novelas, Maneco também foi ator de televisão e teatro, já trabalhou ao lado de Hebe Camargo e integrou a equipe de roteiristas de Família Trapo, na TV Record, um dos programas mais emblemáticos do humor brasileiro. Sua passagem pela Record também mostrou sua versatilidade e olhar afiado para o comportamento humano, algo que marcaria toda a sua obra.

 

Manoel Carlos também deixou sua assinatura na extinta TV Manchete, onde atuou como autor e escreveu o seriado “Joana” e a novela “Novo Amor”, reafirmando seu talento em diferentes casas e contextos da televisão brasileira. Também escreveu uma minissérie na Band, chamada “O Cometa”, de 1989. Mas foi na TV Globo que seu nome se tornou definitivo sinônimo de sucesso e sofisticação narrativa.

Na emissora carioca, escreveu novelas marcantes como Maria, Maria, A Sucessora e, mais tarde, criou um dos maiores conceitos da teledramaturgia nacional: as Helenas. Inspirado na mitologia grega, especialmente em Helena de Tróia, Maneco transformou o nome em arquétipo. Mulheres complexas, cheias de falhas, contradições e força. Anti-heroínas que erravam, sofriam e se reinventavam como na vida real.

A primeira Helena foi vivida por Lilian Lemmertz. Décadas depois, o ciclo se encerrou de forma simbólica com Júlia Lemmertz, filha da atriz, dando vida à última Helena escrita por Maneco. A atriz que mais encarnou o papel foi Regina Duarte, a recordista do autor, com quem Manoel Carlos já havia feito história em Malu Mulher, série revolucionária dos anos 1970.

Manoel Carlos e a atriz Regina Duarte que foi a recordista de Helenas (Foto: Reprodução / Internet)

Maneco também foi diretor do Fantástico por três anos, ajudando a moldar o que viria a ser um dos programas mais importantes da televisão brasileira. Só para ter uma ideia da força e criatividade do escritor, em Mulheres Apaixonadas, em 2003, Manoel Carlos mostrou a força da novela como agente de transformação social. A trama expôs a violência contra a mulher, incentivando denúncias e ajudando a amadurecer o debate que resultaria na Lei Maria da Penha; trouxe à tona os maus-tratos contra idosos, reforçando a aplicação do Estatuto do Idoso; e quebrou tabus ao abordar o alcoolismo feminino. Com isso, Maneco provou que sua dramaturgia ia além da ficção.

 

E não se limitou às novelas: escreveu minisséries memoráveis como Presença de Anita, que parava o país nas noites da Globo, e Maysa – Quando Fala o Coração, retratando a vida intensa e polêmica da cantora, mãe do diretor Jayme Monjardim.

Nascido em São Paulo, em 1933, foi no Rio de Janeiro que sua carreira ganhou fôlego e projeção nacional. Nos últimos anos, enfrentava a luta contra o Parkinson, mas jamais perdeu o respeito e a admiração do público e da classe artística.

Manoel Carlos parte, mas deixa personagens que continuam respirando, amando, errando e se reerguendo na memória afetiva do Brasil. Suas obras não envelhecem, elas amadurecem. E, enquanto houver televisão, dramaturgia e emoção, Maneco seguirá vivo.