Número de animais abandonados em Uberlândia ultrapassa 30 mil
Prefeitura de Uberlândia anunciou novas políticas de bem-estar-animal, mas ONGs e voluntários reclamam da falta de apoio institucional e de doações
A realidade sobre o abandono de animais em Uberlândia tem sido uma preocupação antiga e persistente entre a população e ativistas da causa. Segundo o promotor e defensor da causa animal Breno Lintz, um último levantamento realizado no município identificou ao menos 34 mil animais em situação de abandono.

Mesmo com avanços pontuais em políticas públicas, protetores independentes e ONGs enfrentam uma crise, marcada por alta demanda, queda nas doações e o breve rompimento de convênios com o poder público no município.
Além das organizações formalizadas, protetores independentes também relatam dificuldades. Ana Clara Parreira, que atua há dez anos em Uberlândia à frente do Amor de Patas, afirma que não há locais suficientes para acolhimento e, financeiramente, o suporte é insuficiente para atender à demanda crescente.
O que tem sido feito em Uberlândia pela causa animal
Em 2025, a Câmara Municipal aprovou projeto de lei que instituiu a Política Municipal de Proteção e Bem-Estar Animal. Entre os principais destaques da proposta estão:
- A construção do Complexo Municipal de Amparo ao Animal, com capacidade inicial para 550 animais;
- Sistema Digital de Gerenciamento, para registro, identificação e monitoramento de cães e gatos, com implantação de microchipe;
- Programa Permanente de Castração Animal, priorizando animais de rua, tutelados por ONGs e lares temporários;
- Programa de Clínicas Veterinárias Parceiras, para atendimentos de urgência, emergência e consultas eletivas;
- Rede de Lares Temporários, com suporte veterinário, insumos e, quando houver recursos, subsídio mensal para alimentação;
- Selo Amigo dos Pets, destinado a pessoas físicas e jurídicas que se destacam na defesa da causa animal.

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Em janeiro de 2026, a prefeitura voltou a anunciar novas ações, com destaque para a renovação do convênio com o Hospital Veterinário da UFU, que havia passado por suspensão no início do mês por falta de pagamento do convênio.
Também foram anunciados na ocasião:
- Retomada do Castramóvel;
- Construção do novo Hospital Veterinário da Uniube, no bairro Jardim Botânico;
- Reforço na proteção animal, com lançamento de 4 novas vagas de estágios JuventUdi, para estudantes de cursos como Medicina Veterinária e Zootecnia.
Para Breno Lintz, as novas políticas municipais representam avanço, mas seus resultados só poderão ser avaliados ao longo do tempo. “Como essas ações dependem de orçamento, a efetividade real só poderá ser analisada após alguns meses de execução, possivelmente a partir do meio desse ano”, pontuou.
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Enquanto isso, protetores alertam que a crise é imediata. Sem apoio contínuo, as ONGs seguem sobrecarregadas. A ONG Kasa do Cachorro, que atua desde 2011 em Uberlândia, enfrenta uma crise financeira e estrutural grave.
Cibele de Paula, responsável pela ONG, conta que sempre teve dificuldade de manter seu espaço em razão da grande demanda de animais que acolhe, em meio à falta de recursos, doações e apoio do governo.
A equipe do Paranaíba Mais entrou em contato com a Prefeitura de Uberlândia, para entender como está o andamento das ações propostas e construção do Complexo Municipal, mas não obteve resposta.
Convênios entre o Hospital Veterinário e Prefeitura
O atendimento a cães e gatos vítimas de atropelamento e maus-tratos, feito por meio de parceria entre a Prefeitura de Uberlândia e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), ficou temporariamente suspenso na última semana.
Na quarta-feira (14), após nove dias de interrupção, os atendimentos foram retomados após pagamento dos valores pendentes em 2025 pelo município e consequente regularização do convênio.
Durante o período de suspensão, ONGs e voluntários tiveram que arcar sozinhos com tratamento de alguns animais. Segundo a Cibele de Paula, houve corte de convênios com a Prefeitura e com a UFU em um período de aumento na demanda por atendimento a animais atropelados.

“Uma cachorrinha que chegou aqui com fratura na coluna, precisei arcar sozinha com os custos. Agora, a dívida está em aberto e não conseguimos incluir esses custos nos convênios renovados”, relatou.
Atualmente, a ONG abriga cerca de 220 animais, o que demanda gastos com aproximadamente uma tonelada e meia de ração por mês. “A ração é nossa principal necessidade. Sem recursos, não conseguimos manter o espaço. O começo do ano é sempre o período mais crítico. As doações diminuem muito, mas os resgates continuam”, afirmou.
A situação é semelhante para protetores independentes. A responsável pelo projeto Amor de Patas explica que mantém cerca de 180 cães, todos acolhidos em uma chácara alugada, sustentada basicamente por doações. Segundo ela, há um repasse feito às ONGs, mas o valor não cobre todos os custos com ração, medicamentos, clínica veterinária e demais despesas.
Ela relata ainda que parte dos animais resgatados pelo poder público acaba sendo encaminhada para ONGs e protetores, o que aumenta a sobrecarga das instituições. “Falta um projeto municipal mais organizado, com equipes estruturadas e espaço suficiente para atender essa demanda”, criticou.