Da arena à selaria: ex-peão transforma couro em histórias do rodeio

Cleuber Custódio rodou países como peão, deixou as montarias após acidentes e encontrou no trabalho artesanal com o couro uma nova forma de viver o rodeio

, em Barretos

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Força para marcar o couro. Leveza para desenhar os detalhes. Paciência para repetir movimentos por horas até que uma peça comece a ganhar forma. Em uma oficina de Tupaciguara, no Triângulo Mineiro, o seleiro Cleuber Custódio mantém viva uma relação com o rodeio que começou muito antes de ele pegar as primeiras ferramentas.

A cerca de 70 quilômetros de Uberlândia, Cleuber passa até 12 horas por dia entre selas, arreios, cintos, tranças e encomendas enviadas para diferentes estados brasileiros. Há 11 anos, ele se dedica à selaria. Antes disso, porém, eram suas próprias mãos que seguravam a corda dentro das arenas.

Cleuber foi peão de rodeio e chegou a competir em diferentes países. Após acidentes durante a carreira, deixou as montarias, mas nunca se afastou completamente desse universo. Hoje, em vez de montar, ajuda a preparar quem entra na arena.

Seleiro Cleuber Custódio trabalha artesanalmente uma peça de couro em oficina de Tupaciguara
Seleiro Cleuber Custódio trabalha há 11 anos com a produção e reforma artesanal de selas, arreios e outras peças de couro – Crédito: TV Paranaíba/Reprodução

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Seleiro Cleuber Custódio transforma couro em trabalho artesanal

Dentro da oficina, quase tudo passa pelas mãos de Cleuber. Ele produz e reforma selas e arreios, confecciona cintos, trabalha com tranças e tramas e prepara equipamentos usados por peões. “Basicamente, eu faço o que o seleiro faz. Faço praticamente quase tudo. Trabalho também com reforma, faço sela, faço arreio. Praticamente quase todo tipo e modelo de arreio eu faço”, conta.

Entre tantos trabalhos, um deles ganhou espaço especial: o bordado no couro. É diante de uma mesa que Cleuber passa horas trabalhando cada desenho. A força aplicada às ferramentas precisa variar conforme o efeito que pretende produzir. “Tem alguns detalhes, alguns pontos em que você dá vida no bordado e não precisa fazer com tanta força. Já para rebaixar, eu particularmente gosto de usar um pouco mais de força para levantar o bordado e ficar mais aparente”, explica.

O equilíbrio é essencial. Força em excesso pode comprometer o trabalho. “Já aconteceu de eu fazer um pouco de força e as peças quebrarem. Então, tem que ter um grauzinho de força para não danificar.”

Um cinto leva dois dias; uma sela pode consumir meses

Cleuber produz selas de forma artesanal, em um trabalho minucioso que pode levar meses – Crédito: TV Paranaíba/Reprodução

Na selaria artesanal, o relógio funciona de outra maneira. Um cinto costuma exigir aproximadamente dois dias de trabalho. Peças maiores podem levar semanas ou até meses.

Uma das selas encontradas na oficina, específica para mulas e burros, já acumulava cerca de seis meses de produção. O modelo leva partes tramadas manualmente com couro e exige cálculos para definir a distância dos furos, a largura e a espessura dos tentos.

Só uma das tramas usadas na borda pode consumir cerca de quatro dias de trabalho. “É um trabalho bem demorado porque é todo manual. Não tem máquina para fazer esse trabalho”, explica Cleuber.

Os clientes sabem disso. Em agosto, ele já mantém encomendas com previsão de entrega apenas para o fim do ano.

A demanda também exige uma rotina extensa. “Eu trabalho todos os dias da semana. Oito horas por dia, para mim, aqui é muito pouco. Trabalho, em média, 12 horas por dia. Nos finais de semana trabalho menos, mas também não fico sem trabalhar, porque a demanda é muito alta”, relata.

Trabalho feito em Tupaciguara chega a diferentes regiões do Brasil

A oficina está no interior de Minas Gerais, mas as peças percorrem distâncias muito maiores. Cleuber conta que já conquistou clientes em estados como Tocantins, Paraná, Mato Grosso, Rondônia, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo.

Parte dessa procura está relacionada, segundo ele, ao número reduzido de profissionais que ainda dominam determinadas técnicas da selaria artesanal. E há uma particularidade nessa trajetória: o trabalho que hoje percorre o Brasil começou fora do país.

Para entender como Cleuber aprendeu a transformar couro em profissão, é preciso voltar ao tempo em que ele ainda percorria arenas como competidor e viajar mais de 7 mil quilômetros.

Acidente no México abriu caminho para uma nova profissão

Antes de ser seleiro, Cleuber viveu o rodeio profissionalmente. A carreira o levou para competições na Guatemala, Costa Rica, El Salvador, Honduras e México.

Foi justamente no México que um acidente abriu, de maneira inesperada, o caminho para a profissão atual.

Cleuber quebrou a perna durante uma montaria e precisou passar por cirurgia. A recomendação médica exigia aproximadamente três meses sem competir.

Para um peão acostumado à rotina das arenas, ficar parado não era simples.“Eu tive um acidente, quebrei a perna e tive que fazer cirurgia. Foi onde eu aprendi. Eu não podia mais montar, tinha que ficar três meses parado. E fui aprendendo lá no México”, lembra.

Durante a recuperação, Cleuber começou a aprender técnicas de bordado em couro. O que surgiu como uma atividade durante o período longe dos touros acabou abrindo caminho para uma profissão que atravessaria os anos seguintes.

Mas aquele não seria o acidente mais grave da carreira.

Antes de se dedicar à selaria, Cleuber percorreu diferentes países como peão de rodeio e colecionou histórias dentro das arenas – Crédito: TV Paranaíba/Reprodução

Touro pisou no peão e queda quase terminou em tragédia

Em outra competição realizada no México, Cleuber sofreu uma queda que quase custou a vida dele.

Durante a montaria, a mão escapou da corda. O touro mudou o movimento e pisou no lado esquerdo do corpo do peão. “A mão escapou da corda. Ele veio de contramão, rodando de contramão, e acabou pisando em mim. É muito rápido. Você não vê nada. Quando percebe, já aconteceu”, recorda.

O impacto quebrou costelas e provocou uma lesão grave no braço. Cleuber também sofreu uma hemorragia interna. “O problema maior foi a questão da hemorragia interna”, conta.

Anos depois, o sorteio de outra competição colocou Cleuber novamente diante do mesmo animal.

O reencontro com o touro que quase tirou sua vida

Cleuber reconheceu o touro assim que soube qual animal teria pela frente.

Amigos chegaram a questionar se ele realmente queria fazer aquela montaria. A decisão, segundo o ex-peão, já estava tomada. “Falei que ia montar nele. Eu senti uma paz muito grande”, lembra.

Dessa vez, Cleuber conseguiu completar o desafio. “Montei nele, parei nele e rodei nele. Esse dia Deus me honrou naquele lugar. Eu lavei a alma, tirou um peso bem grande das minhas costas.”

O reencontro se transformou em uma das memórias mais marcantes da trajetória de Cleuber como competidor. Com o passar dos anos, as montarias ficaram para trás. O rodeio, não.

Fora da arena, Cleuber continua “traiando” os peões

Hoje, Cleuber não precisa subir em um touro para fazer parte desse universo. São as peças produzidas na oficina que entram em arenas, cavalgadas e comitivas. No vocabulário de quem vive esse meio, ele ajuda a “traiar” os peões.

A ligação ganhou ainda outro capítulo. Além de fabricar equipamentos, Cleuber começou a trabalhar com animais jovens destinados ao rodeio. “Eu faço tanto o equipamento e também a gente está começando a mexer com os tourinhos de rodeio”, explica.

A trajetória do mineiro ajuda a mostrar uma parte da cultura sertaneja que nem sempre aparece sob as luzes dos grandes eventos.

Em festas como o Barretão, são os oito segundos de uma montaria que concentram os olhares do público. Antes de o competidor entrar na arena, porém, existe uma cadeia formada por profissões, técnicas e conhecimentos que ajudam a sustentar o rodeio. A selaria faz parte desse universo.

Cada arreio, cada trama e cada pedaço de couro trabalhado por Cleuber carrega técnicas que atravessam gerações e permanecem na rotina de quem vive o campo e o rodeio.

Do couro trabalhado em Tupaciguara às arenas que mantêm viva a tradição do rodeio, histórias como a de Cleuber ajudam a revelar quem está por trás desse universo. Acompanhe no Portal Paranaíba Mais  e conheça outros personagens, tradições e bastidores da festa.