Escritor do Triângulo defende resgate da história real de Dona Beja, que ganha nova novela
Produção da HBO Max estreia nesta segunda (2) e volta a levantar questionamentos sobre a personagem histórica retratada como símbolo de sensualidade
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A estreia da nova novela Dona Beja, da HBO Max, traz o debate sobre quem foi, de fato, a mulher que marcou o Brasil Império e entrou para o imaginário popular como símbolo de sensualidade. Quarenta anos após a versão exibida pela extinta Rede Manchete, a personagem volta às telas, agora em uma releitura que, segundo especialistas no assunto, deve manter o foco no mito e deixar em segundo plano a história real da mineira Ana Jacinta de São José.

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A produção, que estreia nesta segunda-feira (2), é a segunda novela do serviço de streaming e traz Grazi Massafera no papel que consagrou Maitê Proença nos anos 1980. Ambientada no século XIX, Dona Beja revisita o Brasil Império e aposta em uma narrativa que preserva a sensualidade da personagem.
No entanto, grande parte do que o público conhece sobre Dona Beja tem origem em obras de ficção. A novela da Manchete, e também a nova versão, se baseiam principalmente nos romances “A Vida em Flor de Dona Beja” (1957), de Agripa Vasconcelos, e “Dona Beja: A Feiticeira do Araxá” (1979), de Thomas Othon Leonardos.
Segundo estudiosos, essas obras priorizaram o aspecto mítico da personagem, em detrimento de registros documentais.
Essa é a avaliação do jornalista e escritor Pedro Divino Rosa, natural de Estrela do Sul (MG) e autor do livro “Dona Beija”, lançado em 1997 após anos de pesquisa e entrevistas. Em entrevista ao Paranaíba Mais, ele afirma que a nova produção deve repetir o mesmo caminho das adaptações anteriores.
“Buscou-se muito a ficção. Os livros que deram origem à novela [da TV Manchete] até usaram dados históricos, mas criaram um mito em torno da Dona Beija sem se preocupar com a história real dela. Pelo que já se percebe, a novela do streaming vai continuar fazendo o mesmo”, avaliou Pedro Popó, como é mais conhecido.
Dona Beja x Dona Beija
Um exemplo dessa situação é a própria grafia da personagem. Segundo Pedro Popó, o nome correto, que consta em documentos oficiais e era utilizado por seus ancestrais diretos é Beija, com “i”. O escritor Agripa Vasconcelos, autor do livro “A Vida em Flor de Dona Beja”, é que popularizou o nome sem o “i”. “O nome Beija é decorrente da flor beijo, que tinha muito na casa dela”, argumenta Popó.
Fatos históricos
Segundo o autor, a Dona Beija histórica foi muito mais do que a figura de cortesã amplamente difundida. “Ela teve uma importância enorme na história de Minas Gerais. Foi decisiva na anexação do Triângulo Mineiro de volta a Minas, em abril de 1816, quando o território ainda pertencia à província de Goiás. Isso ocorreu a partir da intervenção política dela”, afirmou.
Pedro Popó também contesta pontos consagrados pela literatura e pela teledramaturgia, como a origem da primeira filha de Dona Beija. “Não era filha de um amante, como dizem os romances. Era filha de um padre com quem ela mantinha um relacionamento. Isso não era comum, mas aconteceu”.

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Outro aspecto pouco explorado pelas novelas, segundo o escritor, é a fase da vida de Dona Beija em Estrela do Sul, para onde ela se mudou em busca de diamantes. “Ela deu uma guinada na vida, participou ativamente de questões sociais e políticas e ajudou muito o município. Isso praticamente não aparece nas adaptações”, disse Popó.
O autor destaca ainda que sua obra se baseia em entrevistas com descendentes diretos da personagem, incluindo uma bisneta que transmitiu relatos preservados pela família. “Ela é muito mais do que o mito. Foi uma mulher à frente do seu tempo”, completou.
Para o pesquisador, a volta de Dona Beija à televisão e ao streaming representa uma oportunidade de ampliar o debate sobre memória, identidade e o papel da mulher na história de Minas Gerais, especialmente nas cidades de Araxá e Estrela do Sul, diretamente ligadas à trajetória da personagem.