Terremotos na Venezuela: desaparecidos podem passar de 40 mil

Dois abalos de magnitude 7,2 e 7,5 sacudiram o país caribenho, matando 164 pessoas; Brasil se coloca à disposição para enviar ajuda humanitária

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Os terremotos na Venezuela nesta quarta-feira (24), deixaram ao menos 188 mortos, quase mil feridos e cenas de destruição ao longo da costa norte do país. Dois abalos sucessivos, de magnitude 7,2 e 7,5, foram registrados com apenas 39 segundos de intervalo e chegaram a ser sentidos em estados brasileiros. Em levantamento preliminar, criado pela sociedade civil, há mais de 40 mil pessoas desaparecidas. Diante da tragédia, o Brasil se colocou à disposição para enviar ajuda humanitária ao país vizinho.

Destruição causada pelos terremotos na Venezuela, na cidade de La Guaira – Crédito (Reprodução/Redes Sociais)

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) classificou o primeiro tremor com magnitude 7,2 e o segundo, ocorrido apenas 39 segundos depois, com magnitude 7,5, tornando-o o mais poderoso registrado na Venezuela desde 1900. Os epicentros ficaram próximos à região de Morón, na costa norte do país, com profundidades rasas que amplificaram os efeitos em superfície. Em Caracas, moradores abandonaram prédios com medo de novos abalos.

Os números vítimas foram atualizadas por Jorge Rodríguez, presidente do Congresso Nacional e irmão da presidente Delcy Rodríguez, na tarde desta quinta-feira (25). Segundo ele, passa de 1.500 o número de pessoas hospitalizadas.

Essa quantidade, no entanto, tende a ser bem maior dos que a divulgada até o momento. De acordo com o site Desaparecidos Terremoto Venezuela, criado pela sociedade civil para reunir informações extra oficiais sobre vítimas, há mais de 40 mil pessoas desaparecidas.

Segundo levantamento feito pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o número de mortes pode variar entre 10 mil e 100 mil. O cálculo da entidade leva em consideração a população exposta em áreas atingidas e precariedade das construções.

O evento coloca em evidência uma das regiões geologicamente mais instáveis do planeta: o Círculo de Fogo do Pacífico.

O que é o Círculo de Fogo e por que os terremotos na Venezuela se ligam a ele

O Círculo de Fogo do Pacífico é uma extensa faixa de intensa atividade geológica que contorna o Oceano Pacífico em formato de ferradura, percorrendo cerca de 40 mil quilômetros. Seu traçado passa pelo extremo sul da América do Sul, sobe pela costa oeste do continente, atravessa o Alasca, desce pelo Japão e pelo Sudeste Asiático até alcançar a Nova Zelândia.

Circulo de Fogo
Mapa do Circulo de Fogo – Crédito: Nolan/Creative Commons

Nessa região estão concentrados aproximadamente 90% dos terremotos registrados no mundo e cerca de 75% dos vulcões ativos do planeta. A explicação está nos limites entre as placas tectônicas, que são enormes blocos da crosta terrestre em constante movimento. Quando duas dessas placas se encontram, uma pode mergulhar sob a outra em um processo chamado subducção. O atrito gerado por esse mergulho libera energia acumulada na forma de terremotos e produz o calor responsável pela formação de magma e vulcões.

Na América do Sul, a movimentação da Placa de Nazca contra a Placa Sul-Americana moldou a Cordilheira dos Andes ao longo de milhões de anos e mantém até hoje uma intensa atividade sísmica no Chile e no Peru. A faixa abriga ainda vulcões de grande altitude, como o Nevados Ojos del Salado, na fronteira entre Chile e Argentina.

Brasil oferece equipes de saúde e insumos à Venezuela

Seguindo orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Ministério da Saúde do Brasil entrou em contato com as autoridades venezuelanas para oferecer apoio humanitário. O ministro Alexandre Padilha informou que a pasta fez contato com a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) e com o Ministério da Saúde da Venezuela para colocar o país à disposição para qualquer ação de socorro.

Até o momento, não houve pedido oficial de ajuda por parte da Venezuela. A OPAS, entidade vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), já atua no país em resposta ao desastre. O chefe da instituição, Jarbas Barbosa, confirmou que o Centro de Operações de Emergência em Washington está coordenando esforços com a ONU e parceiros para atender às necessidades mais urgentes.

No plano internacional, os Estados Unidos anunciaram o envio de equipes de busca e resgate, além de suprimentos médicos. A França mobilizou um grupo de 85 socorristas especializados, e a União Europeia ativou o sistema de monitoramento por satélite Copernicus para auxiliar na avaliação dos danos. A China também sinalizou disposição para contribuir com ajuda de acordo com as necessidades venezuelanas.

Outros países também registraram tremores fortes na mesma data

Os terremotos na Venezuela não foram os únicos eventos sísmicos significativos da quarta-feira (24). Na Califórnia (EUA), um tremor de magnitude 5,6 atingiu o norte do estado, sendo o mais intenso na região desde 1940. Alertas foram enviados automaticamente para celulares antes da chegada das ondas sísmicas, e não há registro de mortes.

No Japão, a Agência Meteorológica registrou um abalo de magnitude 7,2 na costa nordeste do país. As autoridades monitoraram réplicas e avaliaram instalações sensíveis, incluindo áreas próximas a usinas nucleares. O país, marcado pela tragédia de 2011, quando um terremoto seguido de tsunami devastou a região de Fukushima, mantém protocolos rígidos de resposta a esse tipo de evento.

Já na costa leste da Rússia, um tremor de magnitude 5 foi registrado no Golfo de Kronotsky, a cerca de 161 quilômetros de Petropavlovsk-Kamchatsky. A atividade na área já vinha sendo monitorada: na semana anterior, pesquisadores identificaram uma sequência de 25 abalos na península, com o maior deles chegando a magnitude 6,9.

Os terremotos na Venezuela também chegaram a ser sentidos por moradores de Manaus, no Amazonas. Relatos publicados nas redes sociais apontaram prédios balançando e objetos se movendo dentro de apartamentos, principalmente em andares mais altos.

Apesar do susto, não houve registro de danos ou feridos no Brasil relacionados aos tremores.

Réplicas mantêm a Venezuela em alerta após os terremotos

A Venezuela permaneceu em estado de alerta nas horas seguintes aos dois tremores principais. Segundo a Fundação Venezuelana de Pesquisas Sismológicas (Funvisis), ao menos 20 réplicas foram registradas entre a madrugada e o início da manhã de quinta-feira (25), com magnitudes entre 2,3 e 3,8. As ocorrências se concentraram nas proximidades de La Guaira, Naiguatá, Maracay e Boca de Aroa.

O USGS alertou que novas réplicas, eventualmente mais intensas, ainda podem ocorrer nos próximos dias. A presidente interina Delcy Rodríguez informou que equipes de busca e salvamento certificadas pela ONU foram mobilizadas, e que o governo acionou o setor privado para fornecer maquinário pesado na remoção de escombros. Um fundo de reconstrução de 200 milhões de dólares foi anunciado para cobrir danos em hospitais e residências.

Projeções do USGS apontam para um cenário econômico severo, com perdas estimadas entre 1% e 7% do Produto Interno Bruto venezuelano, e possibilidade de dezenas de milhares de vítimas no total.