Golpe do falso advogado fez mais de 2 mil vítimas ano passado com promessa de dinheiro
Criminosos simulam audiências on-line com juiz e advogados falsos e induzem vítimas a fazer transferências bancárias acreditando que estão recebendo valores judiciais
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A ligação termina, a tela do celular escurece e só então a ficha cai. Algo não estava certo. Minutos antes, um empresário de Uberlândia acreditava estar participando de uma audiência judicial legítima, com juiz, advogados e até documentos oficiais compartilhados na tela. Ao final da suposta sessão, porém, o saldo bancário havia diminuído, e não aumentado, como tinham prometido.
O caso é mais um registro do chamado golpe do falso advogado, modalidade criminosa que vem se sofisticando nos últimos meses e que agora preocupa advogados e clientes na região. A estratégia consiste em simular, com alto grau de semelhança, procedimentos do Judiciário para enganar vítimas e induzi-las a realizar transferências financeiras.
O golpe tem mobilizado a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Minas Gerais diante do crescimento acelerado de denúncias. Só em 2025, até abril, foram registradas 516 ocorrências no estado, média de 129 casos por mês. De maio a dezembro, foram registrados mais 1.845 denúncias, totalizando 2.361 denúncias ano passado, média de 196 por mês, segundo balanço da Ouvidoria da OAB/MG.

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Segundo o advogado Guilherme Marra Magalhães, que acompanha casos como esse, o empresário citado acima foi inicialmente abordado por telefone por alguém que se apresentou como funcionário de um escritório de advocacia. O contato informou que havia um valor judicial a ser recebido e convidou a vítima para participar de uma audiência virtual.
Durante a chamada, os golpistas criaram um ambiente encenado. Participavam da videoconferência um suposto juiz, um falso representante do escritório e um alegado advogado da parte adversária. “Isso gera um ambiente de confiança. A pessoa acredita que está diante de um procedimento oficial”, explicou o advogado.
Na sequência, os criminosos informaram que o empresário teria um crédito a receber. Para “autorizar” o pagamento, pediram que ele acessasse o aplicativo do banco, compartilhasse a tela e fornecesse dados bancários.
A partir do momento em que perceberam que havia saldo disponível, passaram a enviar links de pagamento. A vítima, acreditando estar liberando o recebimento do valor judicial, acabou realizando transferências.
“O golpe é especialmente difícil de reverter porque, do ponto de vista bancário, as operações são feitas pelo próprio cliente. Via de regra, solicita-se o cancelamento imediatamente, mas os bancos raramente estornam”, afirmou Guilherme Marra. Agora, o empresário entrou na fase de demandar judicialmente contra os golpistas e, caso seja identificada falha nos mecanismos de segurança, também contra a instituição financeira.
Caso se torna frequente
O advogado alerta que esse não é um caso isolado. Nos últimos meses, outros clientes foram abordados com variações do mesmo golpe. Em uma das versões anteriores, os criminosos se passavam por integrantes de escritórios de advocacia e informavam que a vítima teria valores a receber em ações judiciais.
Para liberar o dinheiro, exigiam o pagamento prévio de taxas, enviadas por boletos de valores relativamente baixos. Após o pagamento, o crédito nunca era depositado.
O que preocupa, segundo Guilherme Marra, é a evolução da fraude. “Nesta semana, dois clientes meus foram abordados novamente, já com a simulação de audiências virtuais. É um nível de sofisticação maior, que engana até pessoas mais cautelosas”, disse.
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Como se proteger do golpe do falso advogado
O advogado reforça algumas orientações básicas para evitar cair nesse tipo de fraude:
- Não interagir com números desconhecidos, mesmo que usem nome, logotipo ou foto de escritórios conhecidos;
- Conferir se o telefone de contato coincide exatamente com o número oficial do escritório que representa o cliente;
- Antes de fornecer qualquer informação ou entrar em audiências on-line, ligar diretamente para o advogado ou para o escritório por canais oficiais;
- Nunca compartilhar dados bancários, acessar aplicativos de banco ou dividir a tela do celular com terceiros;
- Desconfiar de qualquer cobrança ou procedimento financeiro para “liberar” valores judiciais.
“Para receber um pagamento judicial, não é necessário compartilhar informações bancárias dessa forma. Esse é o principal sinal de alerta”, conclui Guilherme Marra Magalhães.