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Fonte de nêutrons achada na UFU: o que a lei exige de quem guarda material radioativo

Fonte comprada nos anos 1960 foi localizada em cofre do Instituto de Física durante a regularização do laboratório; entenda o que a lei exige das universidades

, em Uberlândia

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A localização de uma antiga fonte de nêutrons no campus Santa Mônica da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) tem mobilizado órgãos federais de segurança e pesquisa nuclear.

Apesar da repercussão, a universidade atestou em nota que o material está armazenado em local isolado e seguro e que deve ser recolhido ainda este mês.

Após avaliação técnica da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), a fonte será encaminhada para o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), em Belo Horizonte (MG), para armazenamento e destinação adequados.

CNEN, UFU e CDTN
CNEN e UFU avaliam o material, que será levado ao CDTN – Crédito: ComunicaUFU/CNEN/CDTN

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Fonte foi achada durante inventário para regularizar o laboratório

Segundo a professora Paula Duarte Correia, do Instituto de Física da UFU e supervisora de proteção radiológica certificada pela CNEN, a identificação do item, adquirido na década de 1960 pela antiga Faculdade de Engenharia, ocorreu durante um procedimento obrigatório de inventário para a concessão de licenças de funcionamento dos laboratórios.

“Todo laboratório precisa realizar um inventário. Durante esse levantamento, encontramos essa fonte guardada dentro de um cofre. Ao pesquisar a origem, constatamos que era uma fonte emissora de nêutrons. Ela é sólida, conta com vários invólucros de segurança que garantem a blindagem e está totalmente selada. Não emite qualquer radiação externa”, detalhou a física.

Paula Duarte, professora da UFU,
Paula Duarte, professora da UFU, explica o caso – Crédito: Gov/Comunica/Reprodução

A supervisora ainda esclareceu que a obtenção da fonte antecede a estruturação do sistema de fiscalização de radiação no Brasil. Dessa forma, a autoridade radiológica (CNEN) e a universidade não tinham cadastro nem conhecimento prévio do item.

Assim que foi identificado dentro do cofre, a profissional informou que fizeram uma avaliação prévia e acionaram o CNEN para remoção. “Não podemos colocar num carro e levar embora. A remoção exige protocolos da Comissão Nacional”, explica.

CNEN diz que fonte é de amerício-berílio e será recolhida

Em entrevista ao Paranaíba Mais, Walter Menezes Ferreira, chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da CNEN, afirmou que a fonte é de amerício-berílio, material usado para produzir nêutrons. A identificação foi feita a partir de fotografias enviadas pela universidade, já que a equipe da CNEN ainda não esteve no local.

Segundo ele, a fonte, com mais de 60 anos, provavelmente não estava sob controle regulatório e deve ser recolhida por não ter mais uso. “É muito comum se encontrar, em universidades, fontes antigas que foram utilizadas em pesquisa. Isso é natural”, disse.

Walter Mendes Ferreira
Walter Mendes Ferreira, chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da CNEN – Crédito: Reprodução

Ferreira avalia que o material não oferece risco, por estar blindado e guardado em uma sala. A nota da CNEN ressalta que, no momento da primeira avaliação, não havia equipamento específico para detectar nêutrons e que a caracterização detalhada ainda será feita.

“Não é uma emergência nem nada. É um procedimento, um protocolo que será executado para o recolhimento do material radioativo”, afirmou.

De acordo com o chefe da divisão, a fiscalização cabe à Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), e à CNEN cabe recolher o material que a instituição não pretende mais usar, levando-o a um dos depósitos intermediários de rejeitos radioativos. Se a universidade quiser manter a fonte em uso, a avaliação é da ANSN.

A retirada é feita por duas ou três pessoas da CNEN, em viatura própria e com plano de transporte, e o local é monitorado na chegada da equipe. A CNEN ainda não informou a data do recolhimento, mas segundo a UFU será realizada ainda neste mês de outubro.

O que são nêutrons e como funciona a proteção?

A radiação é a energia que se desloca na forma de ondas ou partículas. No dia a dia, estamos expostos a radiações não ionizantes inofensivas, como luz solar, ondas de rádio e micro-ondas.

Embora a caracterização em campo ainda não tenha sido feita, foi observada uma fonte de nêutrons, partículas subatômicas sem carga elétrica (neutras) que ficam dentro do núcleo dos átomos, junto com os prótons. Os nêutrons não têm carga elétrica, mas, ao colidir com outros átomos, podem provocar reações que geram radiação.

nêutrons
Nêutrons fazem parte do núcleo dos átomos e, ao colidir com outros núcleos, podem provocar reações que geram radiação. Ilustração; não representa a fonte da UFU – Crédito: Reprodução

Contudo, essas fontes, quando armazenadas, precisam de estruturas específicas de contenção, como concreto, água e parafina. No caso da UFU, como explicou a professora, o material está selado e encerrado em estruturas de segurança e, por isso, segundo ela, não há identificação de risco de emissão de radiação.

Como funciona a estrutura da área nuclear no Brasil: CNEN e ANSN

Para garantir a proteção da população e promover o uso pacífico da energia nuclear, a legislação brasileira divide a gestão do setor em duas autarquias federais principais:

1. Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)

Vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a CNEN tem a missão de “garantir o uso seguro e pacífico da energia nuclear; desenvolver e disponibilizar tecnologias nucleares e correlatas, visando ao bem-estar da população“.

cnen e cdtn
Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) faz parte da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) – Crédito: Gov/Reprodução

A entidade pesquisa e desenvolve tecnologias aplicadas à saúde (medicina nuclear), indústria, agricultura e energia. A CNEN possui seis unidades técnico-científicas pelo país, entre elas o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), em Belo Horizonte (MG), destino para onde a fonte da UFU será transferida.

2. Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN)

Criada em 2021 e vinculada ao Ministério de Minas e Energia, a ANSN é a autarquia responsável, desde agosto de 2025, por fiscalizar, normatizar e licenciar instalações e materiais nucleares no país.

É ela quem define os critérios de proteção radiológica e zela pelo cumprimento dos acordos internacionais de salvaguardas.

Quais regras as universidades precisam seguir para guardar material radioativo?

Universidades que usam fontes radioativas em ensino e pesquisa precisam de licença antes de começar. A Norma CNEN NN 6.02 classifica o local como instalação radiativa e exige autorizações específicas, entre elas a de aquisição ou movimentação de fontes e a de operação. Desde agosto de 2025, o papel de órgão regulador é da ANSN.

No licenciamento, a instituição apresenta, entre outros documentos, plano de proteção radiológica, plano de gerência de rejeitos e plano de transporte de materiais radioativos. Também precisa manter registros de entrada e saída das fontes, inventário atualizado, controle de acesso às áreas e um responsável pela segurança das fontes. Conforme a classificação da instalação, entra ainda um plano de proteção física.

Colação de grau da UFU em Uberlândia é questionada na justiça
Universidade Federal de Uberlândia, campus Santa Mônica, onde material foi achado – Crédito: Reprodução/Comunica UFU

A instalação precisa de um responsável pela proteção radiológica, que costuma ser um supervisor certificado pela Norma 7.01. Ele zela pelo cumprimento do plano aprovado pelo regulador, enquanto o titular, responsável legal pela instalação, responde pelas normas. Segundo Walter Menezes Ferreira, da CNEN, o supervisor atua dentro da universidade e junto à ANSN, e deve notificar a autoridade quando encontra material radioativo. Ele afirmou que a professora agiu corretamente ao comunicar o achado.

Desde abril de 2022, a norma proíbe manter fonte radioativa fora de uso por tempo indeterminado. Quando a fonte deixa de ser usada, a instituição deve pedir ao regulador o recolhimento a um depósito de rejeitos, a devolução ao fabricante ou a transferência para outra instalação autorizada.

Na prática, a fonte deve ficar em local de acesso restrito, sinalizado com o símbolo de radiação e, no caso de fontes de nêutrons, cercada de materiais de blindagem, como concreto, água ou parafina, conforme explicou a professora. O descumprimento das normas pode levar a sanções administrativas.

A CNEN avalia que a fonte provavelmente não estava sob controle regulatório. A situação de licenciamento do laboratório do Instituto de Física ainda não foi esclarecida.

Transferência para Belo Horizonte

A medição inicial, feita com contador Geiger, não registrou índices acima da radiação natural de fundo do ambiente. A CNEN ressalta, porém, que não havia equipamento específico para detectar nêutrons e que a caracterização detalhada do material ainda será feita.

Assim que a caracterização for concluída, o material será levado a um depósito da CNEN. A nota do órgão cita o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), em Belo Horizonte, para destinação e controle definitivos.

Para acompanhar atualizações do caso e outras notícias de Uberlândia e região, siga o portal Paranaíba Mais.