A trajetória de Celeuta Batista e a despedida de uma mulher singular

Lembrada pelos amigos como uma mulher que inspirava intelectualidade e que muitas vezes preferia a companhia dos animais à dos humanos, Celeuta faleceu em um trágico acidente em Uberlândia no final de outubro

, em Uberlândia

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No fim de outubro, a comunidade de Uberlândia foi surpreendida pelo falecimento de Celeuta Batista Alves, de 71 anos, devido a um acidente.

A senhora, que residia na cidade há um bom tempo, foi bastante lembrada nas inúmeras condolências, seja por quem teve contato com ela pelas ruas, pelos corredores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) ou em aulas particulares de matemática.

Em meio a reverberação do ocorrido, por meio das redes sociais, ela foi lembrada pela pessoa exímia que era, pela intelectualidade, o contato com movimentos políticos e sua proximidade de anos com os animais, os quais, em muita das vezes, até os preferia em vez da companhia humana.

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Celeuta
Celeuta residia em Uberlândia, mas era natural de Tupaciguara – Crédito: ADUFU/ Instagram/ Reprodução

Quem era e o que aconteceu com Celeuta?

Na última noite de sua vida, segundo conhecidos, ela teria saído de sua casa, no bairro Shopping Park, com um pouco de ração, como fazia regularmente, para alimentar animais, muitos dos quais ela mesma amparava e cuidava.

Durante o trajeto para o bairro Lagoinha, ao desembarcar de um ônibus, sofreu um acidente grave e não resistiu aos ferimentos, falecendo ainda no local.

O velório aconteceu no dia 1º de novembro, no campus Santa Mônica da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), reunindo amigos e conhecidos que tiveram a oportunidade de encontrá-la em diferentes momentos de sua vida.

Conforme relatos ao Paranaíba Mais, Celeuta era de origem humilde e natural de Tupaciguara, cidade vizinha a Uberlândia. Filha única, seu pai trabalhava na prefeitura, e sua mãe era cozinheira. Desde jovem, demonstrava grande inteligência e, por meio de uma bolsa de estudos, estudou no Colégio Imaculada Conceição.

Posteriormente, ingressou no ensino superior na UFU, inicialmente no curso de Pedagogia.

“Ao ingressar novamente no ensino superior, a encontrei em disciplinas da Pedagogia. O que sempre percebi em Celeuta é que ela tinha um jeito muito particular de ser e viver. Era desapegada de bens materiais e de títulos, mas gostava muito de estudar, questionar e discutir questões sociais, políticas, econômicas e culturais, tanto do Brasil quanto do mundo. Talvez por isso ela apreciasse tanto o ambiente intelectual da Universidade. Era uma pessoa extremamente inteligente”, contou Grace De Souza, amiga de infância.

Durante sua trajetória acadêmica, se envolveu em disciplinas de diferentes institutos e até iniciar outros cursos, como Filosofia, Física, Engenharia e Matemática. Entre 1980 e 1984, participou ativamente de movimentos estudantis e políticos.

“Sem dúvidas, ela era muito combativa e inteligente. E, obviamente, inconformada com a sociedade uberlandense, autoritária e excludente”, afirma José Assunção, relembrando os breves encontros com Celeuta nos tempos de universidade.

Celeuta manteve um vínculo forte com o meio acadêmico mesmo em períodos de dificuldades financeiras. Relatos indicam que ela chegou até a viver em uma residência cedida por conhecidos da universidade, que reconheciam e admiravam sua determinação e inteligência.

Celeuta era fortemente envolvida com o meio acadêmico — Crédito: Maíra Selva/ Instagram/ Reprodução

De acordo com documentos de 2017 do Ministério Público Federal (MPF), que solicitavam benefícios previdenciários para Celeuta, ela foi descrita como filha única, vivendo sozinha em condições de extrema dificuldade, sem parentes próximos para ampará-la.

Residente no bairro Shopping Park, enfrentava um cotidiano marcado por desafios, morando em um ambiente descrito como insalubre. Apesar disso, resistiu a ofertas de moradia em instituições, reafirmando sua independência e dignidade.

“Eu estou muito bem e não preciso de asilo. Sou melhor que qualquer coordenador de instituição de idosos”, afirmou em uma ocasião, demonstrando o orgulho de si e pela escolha de priorizar a companhia dos animais.

Essa relação especial com os animais também foi mencionada em uma homenagem enviada à reportagem por um antigo professor da UFU, hoje aposentado, que preferiu não se identificar. Ele relembrou um período em que ela morou temporariamente em sua casa, no bairro Saraiva, durante um momento em que ela não tinha onde ficar.

“Celeuta morou por uns meses em nossa casa, no bairro Saraiva. Naquela época, ela levou consigo sua cachorrinha Tulipa, muito esperta e querida por meus filhos. Todos rimos quando Tulipa quis impressionar e veio mostrar o resultado de sua ‘caçada’ no lote ao lado: com um ar vitorioso, trouxe entre os dentes o molambo de um pobre franguinho tingido de rosa, daqueles vendidos no Dia das Crianças, recém-saído do ovo. Daqueles meses de convivência, ficou uma frase e uma postura que, de certa forma, definiam Celeuta. Ela conversava com Tulipa de forma carinhosa e limitava suas broncas ao refrão: ‘Não entra numas, Tulipa…’. Já naquele tempo, deixava claro que curtia mais os animais que os humanos, por mérito daqueles”, escreveu o professor.

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Celeuta foi descrita no documento do Ministério Público Federal (MPF) como uma pessoa extremamente “lúcida, consciente e orientada, além de extremamente inteligente e intelectualizada, argumentadora, articulada e politizada”.

Ainda segundo o documento, ela atuou como professora na rede pública, lecionando disciplinas. Sua trajetória acadêmica era notável, com formação e conhecimentos nas áreas de Filosofia e Física, além de especializações. Ela também possuía fluência em outras línguas, sendo mencionada sua capacidade de falar e compreender outros idiomas.

Apesar de seu elevado nível de estudo e inteligência, enfrentou dificuldades significativas ao longo da vida. As condições precárias às quais estava submetida e a falta de recursos financeiros foram pontuadas nos documentos, destacando os desafios que ela enfrentava, mesmo com sua bagagem intelectual e profissional.

Documentos do Ministério Público Federal solicitavam suporte para Celeuta — Crédito: Ministério Público Federal/ Reprodução

Terceiros acionaram a Justiça em nome de Celeuta, buscando garantir benefícios previdenciários devido às dificuldades que enfrentava. Segundo os relatos, questões físicas e psicológicas a impediram de continuar sua carreira como professora, o que impactou diretamente suas condições de sobrevivência e dignidade.

Além do pedido de benefícios financeiros e acesso a cuidados de saúde, foi solicitado apoio para reparos urgentes em sua residência.

As intervenções incluíam a instalação de uma caixa d’água, a religação da rede elétrica e consertos estruturais essenciais para garantir um ambiente habitável.

Embora algumas providências tenham sido tomadas por órgãos de assistência social e conhecidos que se mobilizaram para ajudá-la, Celeuta não chegou a viver o suficiente para ver plenamente atendidas as condições básicas de dignidade.

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“Amigos da Celeuta”

Conforme os relatos, a senhora estaria há algum tempo sem uma renda fixa estável para suprir as próprias necessidades do dia a dia. Essa situação, que agravava suas condições de vida, acabou mobilizando a ajuda de vizinhos e conhecidos.

Com o auxílio das redes sociais, na mesma época em que a Justiça foi acionada, foram criados grupos e páginas para ampliar o alcance das campanhas de apoio, que perduraram até hoje, permitindo que mais pessoas pudessem contribuir.

Por meio dessas plataformas digitais, muitos se organizaram para arrecadar recursos destinados à compra de alimentos, mantimentos para os animais que ela cuidava e até mesmo para custear tratamentos de saúde.

Amigos ajudavam Celeuta frequentemente, quando podiam
Amigos e colegas se mobilizavam para arrecadar meios por meio da internet para ajudaram — Celeuta Crédito: Amigos de Celeuta/ Facebook/ Reprodução

Além disso, antigos colegas que a conheceram durante o curso de Engenharia também se engajaram em ações solidárias.

Eles realizaram reparos na residência de Celeuta, promoveram mutirões de limpeza no local e até construíram um muro, garantindo mais privacidade e segurança para ela.

Comunidade sentiu a perda

A Universidade Federal de Uberlândia (UFU) divulgou uma nota oficial lamentando o falecimento de Celeuta, destacando sua trajetória como estudante e seu compromisso com o bem-estar alheio.

“Em nome do Instituto de Filosofia (IFILO), a universidade expressa sua solidariedade aos familiares, amigos e colegas de Celeuta. Como forma de homenagem, o velório foi realizado na manhã de 1º de novembro, no campus Santa Mônica”, informou a instituição.

A ADUFU – Seção Sindical, representada pela gestão “Florescer nas Lutas”leuta, também manifestou suas condolências.

Em nota, a entidade a relembrou como ex-aluna de Engenharia e professora de Matemática, ressaltando ainda seu engajamento com a causa animal, especialmente nos últimos anos. A ADUFU também destacou a necessidade de apoio para garantir o cuidado dos animais deixados.

Nas redes sociais, amigos e conhecidos que sentiram a perda de Celeuta compartilharam mensagens de condolências e homenagens.

“Como uma vida pode ser tão resumida? Só consigo pensar que ninguém ouviu a última batida do seu coração. Ninguém segurou sua mão comprida e seca. Espero que, do lado de lá, ela seja mais do que um transtorno obsessivo-compulsivo de acumulação, que ela seja mais do que notícias ou estatísticas sociais. Espero que ela se alimente bem, que esteja rodeada dos seus bichos. Espero que sua alma espevitada encontre guarida em um seio amplo e macio, onde possa ser esse rastro de luz, brilhante, sábia e sabedora das coisas. Que ela reencontre seus pais lá de Tupaciguara. Que ela finalmente viva em um mundo de justiça”, escreveu uma internauta.

Entre desafios, Celeuta Batista é lembrada como uma mulher singular, que continuará viva na memória daqueles que compartilharam sua jornada. História que também acende o alerta da urgência e sensibilidade do cuidado com o próximo e da garantia de dignidade para todos.

A Polícia Civil (PC) de Uberlândia informou, em nota à reportagem, que o inquérito policial para apurar as causas e circunstâncias da morte está em andamento na Delegacia de Acidentes de Trânsito. O motorista do ônibus já foi ouvido, e o caso segue aguardando novas diligências.