Rosquinhas, pirulitos e informação: médico de Uberlândia quebra tabus sobre ISTs
Infectologista Ricardo Kores transforma temas tabu em vídeos leves nas redes sociais e conquista milhões ao aproximar a informação de quem mais precisa, os jovens
Em meio às campanhas do Dezembro Vermelho, mês dedicado à prevenção do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), um médico com clínica em Uberlândia tem chamado atenção ao falar de saúde de um jeito pouco convencional. Com analogias bem-humoradas, objetos do dia a dia e uma linguagem simples, o infectologista Ricardo Kores, de 37 anos, encontrou nas redes sociais uma forma eficaz de romper o silêncio, combater a desinformação e incentivar a prevenção, sem medo, sem tabu e sem termos complicados.
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Rosquinha, bruschetta, pirulito. Os nomes curiosos, que parecem brincadeira, são na verdade uma estratégia pensada para driblar as restrições dos algoritmos das redes sociais e, ao mesmo tempo, chamar a atenção do público. “Se eu falo o nome técnico dos órgãos sexuais, o algoritmo bloqueia. Ele entende como algo indevido. Então a gente precisou criar apelidos”, explica Kores.
A ideia nasceu da necessidade. Médico infectologista, ele precisa falar sobre sexo, prevenção e doenças sexualmente transmissíveis, exatamente os temas que costumam ser penalizados nas plataformas digitais. “Eu pensei, dá pra brincar com uma coisa séria e, ainda assim, transmitir conhecimento”, conta.
Médico de Uberlândia soma 1,5 milhão
Natural de São Paulo, Ricardo Kores mora em Uberlândia e mantém clínica na cidade. Ele conta que os primeiros vídeos foram pensados apenas para se apresentar ao público local. “Jamais imaginei que isso iria viralizar. Fiz algo simples, pra que as pessoas daqui me conhecessem”, relembra.
O alcance, porém, foi muito além do Triângulo Mineiro. Hoje, ele soma 1,5 milhão de seguidores no Instagram e milhões de visualizações. “Fui reconhecido até em Portugal. Um rapaz me abordou na rua dizendo que me conhecia das redes”, relata, ainda surpreso.
Linguagem simples contra o medo e a fake news
Para o médico, a comunicação direta e acessível é uma ferramenta poderosa contra a desinformação. “As notícias falsas usam muito o medo. Dizem que vacina muda DNA, que tratamento faz mal. Quando a gente chega com informação de qualidade, sem assustar, as pessoas escutam”, afirma.
Segundo Kores, levar a medicina para fora dos consultórios é essencial. “Eu vejo a medicina chegando mais perto das pessoas, não ficando presa a termos difíceis ou só dentro dos hospitais”, diz.
O público que mais consome o conteúdo de Ricardo Kores é jovem, principalmente mulheres entre 25 e 35 anos. E isso não é por acaso. “Os boletins mostram que os novos diagnósticos de HIV estão crescendo entre jovens. Então, não adianta repetir só ‘use camisinha’. Isso não funciona mais”, avalia.
Ele defende a interação como chave da prevenção. “Rede social é troca. As pessoas comentam, perguntam, compartilham. É assim que elas tiram dúvidas que não teriam coragem de perguntar no consultório”, explica.
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Prevenção avançou, mas o estigma ainda afasta
Apesar dos avanços no tratamento, o preconceito ainda é um dos maiores obstáculos. “Hoje o HIV tem prevenção, tratamento moderno, medicamento injetável. A pessoa pode viver bem. Mas o medo e o estigma ainda impedem muita gente de procurar ajuda”, afirma.
Mesmo enfrentando críticas de colegas da área médica, Ricardo Kores segue firme na proposta. “Tem médico que acha que isso é infantilizar. Mas a população entende melhor assim. Não adianta falar difícil e não ser compreendido”, afirma.
Para ele, a mensagem é clara: informação salva vidas quando chega de verdade às pessoas. E, se for com humor, leveza e respeito, melhor ainda. “Todo mundo tem vida sexual. A gente precisa falar disso abertamente. Sem medo, sem vergonha. É assim que a prevenção acontece.”
Dezembro Vermelho e os dados que reforçam o alerta
De acordo com o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2024, o Brasil já registrou mais de 1,1 milhão de casos de Aids desde 1980, com média de 36 mil novos casos por ano nos últimos cinco anos.
Em Minas Gerais, os números mostram a seguinte situação:
- Queda de 13,3% nas mortes por aids, de 694 para 602 óbitos
- Redução semelhante à média nacional, que chegou ao menor número de mortes em três décadas
Já Uberlândia tem registrado cerca de 20 novos diagnósticos de HIV por mês, números que mantêm a preocupação das equipes de saúde. Ao todo, 6.800 pessoas vivem com HIV em tratamento na rede municipal. A faixa etária mais atingida continua sendo a de 16 a 30 anos, um recorte que acompanha o cenário nacional.
O ambulatório municipal oferece testes rápidos para HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C, todos com coleta simples no dedo e resultado em cerca de 30 minutos. Os agendamentos podem ser feitos pelo telefone (34) 3215-2444.
