Confundido com problemas comuns, câncer de cabeça e pescoço desafia diagnóstico precoce

Em meio ao Julho Verde, especialistas e estudo do INCA alertam para o câncer de cabeça e pescoço, que afeta principalmente homens e pessoas fumantes; 80% dos casos são descobertos tardiamente

, em Uberlândia

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Uma simples feridinha na boca que insiste em não cicatrizar. Uma rouquidão que persiste por mais de um mês. Um “caroço” no pescoço que você nunca teve antes. Esses sinais, que muitas vezes são ignorados, podem ser sintomas de câncer na cabeça e no pescoço, tumores que representa um grave problema de saúde pública no Brasil.

De acordo com uma pesquisa inédita do Instituto Nacional de Câncer (Inca), divulgada este ano, mais de 80% dos casos são diagnosticados tardiamente, o que compromete as chances de cura. Em entrevista ao portal, o cirurgião de cabeça e pescoço Leonardo Branco Aidar reforça que a prevenção e o diagnóstico precoce são essenciais para mudar essa realidade.

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Câncer de cabeça e pescoço
Por se manifestar com sintomas muitas vezes discretos, o câncer de cabeça e pescoço ainda enfrenta barreiras no diagnóstico precoce – Crédito: Centro de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço/Divulgação

Os cânceres de cabeça e pescoço mais comuns no país atingem a pele, tireoide, cavidade oral, orofaringe e laringe. Segundo o médico, os avanços tecnológicos ajudaram a detectar tumores mais precocemente, como no caso da tireoide, cujo diagnóstico cresceu com a popularização da ultrassonografia. Ainda assim, a maioria dos casos, principalmente os que afetam a boca, garganta e laringe, continua sendo descoberta em estágios avançados.

Um estudo conduzido pelo Inca e publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas analisou mais de 145 mil casos diagnosticados entre 2000 e 2017. Os dados mostram que 78,2% dos pacientes chegaram aos hospitais com a doença em estágio III ou IV, sendo que a hipofaringe (91,3%) e a orofaringe (86,6%) lideram entre os locais com maior percentual de diagnósticos tardios. Entre os principais fatores de risco estão tabagismo, consumo excessivo de álcool e infecção pelo vírus HPV (Papilomavírus Humano), ou seja, um conjunto de hábitos que, combinados, são responsáveis por mais de 90% dos casos em determinadas regiões do pescoço.

Além disso, o estudo mostra que homens, pessoas com baixa escolaridade e jovens com menos de 50 anos têm maior risco de receber o diagnóstico tardiamente. “A maior parte dos pacientes percebe algo errado cedo, mas, por falta de informação, julga que não seja nada grave. Isso faz com que demorem a procurar ajuda médica”, observa Leonardo Aidar. Segundo ele, não existe um programa nacional de rastreamento para esses tumores, e é preciso atenção aos sinais: uma ferida que não cicatriza após 14 dias, dor ou dificuldade para engolir, rouquidão por mais de 30 dias ou nódulos no pescoço são sintomas que devem motivar uma consulta médica imediata.

O câncer é uma doença caracterizada pelo crescimento anormal e descontrolado de células que sofreram mutações genéticas – Crédito: Freepik

Outro ponto de atenção é o HPV, especialmente os sorotipos 16 e 18, associados ao câncer de orofaringe transmitido por via sexual. A boa notícia é que a vacinação contra o vírus já tem contribuído para a redução desses casos, e a expectativa é que, nos próximos 20 anos, dois terços dos tumores relacionados ao vírus sejam evitados com a imunização em massa.

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No caso dos cânceres de pele e lábios, a exposição ao sol sem proteção é o principal fator de risco. “É fundamental usar protetor solar ao longo do dia e também investir em barreiras físicas, como chapéus de aba larga, que criem sombra sobre o rosto”, recomenda o especialista.

Câncer de cabeça e pescoço
Leonardo Branco Aidar, cirurgião de cabeça e pescoço em Uberlândia – Crédito: Instagram Leonardo Aidar/@drleonardoaidar/Reprodução

A prevenção também passa pela mudança de hábitos: abandonar o cigarro, evitar o consumo excessivo de álcool, manter relações sexuais protegidas, aderir à vacinação e buscar atendimento médico diante de qualquer sintoma persistente. “Estamos vivendo um tempo em que as pessoas querem envelhecer com mais saúde e qualidade de vida. Isso só é possível com escolhas conscientes agora”, afirma Aidar.

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A médica epidemiologista Flávia Nascimento de Carvalho, que liderou a pesquisa do Inca, destaca que a prioridade agora é reduzir a burocracia e garantir acesso rápido a exames e consultas especializadas. “A ideia é que, com o apoio da Atenção Primária, os pacientes não tenham que esperar tanto tempo para serem encaminhados ao diagnóstico e tratamento”, afirmou.

Por se manifestar com sintomas muitas vezes discretos, o câncer de cabeça e pescoço ainda enfrenta barreiras no diagnóstico precoce. Especialistas reforçam que a informação, o acesso aos serviços de saúde e a atenção a sinais persistentes são fundamentais para reduzir os índices de descoberta tardia.