Canetas emagrecedoras podem turbinar a fertilidade masculina, diz estudo
Nova revisão de congresso de endocrinologia indica que remédios à base de GLP-1 elevam a testosterona e melhoram a qualidade do esperma em homens obesos
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As canetas emagrecedoras, já conhecidas por promoverem perda de peso e ajudarem no controle do açúcar no sangue de pacientes com diabetes tipo 2, podem ter um efeito colateral inesperado e bem-vindo: o de favorecer a fertilidade masculina. É o que indica uma revisão sistemática apresentada na reunião anual da Sociedade de Endocrinologia, em Chicago, nos Estados Unidos.

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De acordo com o levantamento, divulgado pela revista Nature, homens com obesidade que utilizam essa classe de medicamentos apresentaram aumento nos níveis de testosterona e melhora em parâmetros relacionados à qualidade do esperma. Os resultados, embora ainda preliminares, têm chamado atenção de especialistas em saúde reprodutiva masculina ao redor do mundo.
Como as canetas emagrecedoras agem no organismo
Batizados de agonistas do receptor GLP-1, esses medicamentos ficaram populares sob nomes comerciais como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound. Eles foram criados originalmente para auxiliar no controle glicêmico de pessoas com diabetes tipo 2, mas acabaram revelando um efeito adicional importante: a redução significativa de peso corporal.
Com o tempo, pesquisadores começaram a observar que o impacto desses remédios vai além do controle de açúcar no sangue e da balança. Estudos recentes apontam possíveis benefícios também para o sistema cardiovascular e para o tratamento de transtornos relacionados ao uso de substâncias, conforme aponta a National Academy of Medicine, dos Estados Unidos.
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O que mostrou a revisão científica sobre testosterona
Para chegar às conclusões apresentadas em Chicago, a equipe liderada pela endocrinologista Pratibha Natesh, da Faculdade de Medicina de Warwick, no Reino Unido, reuniu estudos clínicos randomizados que mediram os níveis de testosterona em homens tratados com canetas emagrecedoras. Apenas cinco pesquisas com esse desenho metodológico foram localizadas, o que reforça o caráter ainda preliminar das conclusões.
Em um desses trabalhos, trinta homens com obesidade e baixos níveis de testosterona, quadro chamado de hipogonadismo, foram divididos em dois grupos. Um recebeu medicação GLP-1, enquanto o outro foi tratado com terapia de reposição hormonal. Após dezesseis semanas, ambos os grupos apresentaram aumento na testosterona.
Outro estudo acompanhou homens com diabetes tipo 2 e hipogonadismo por vinte e quatro semanas. Os dois grupos, novamente, tiveram elevação hormonal, ainda que o aumento tenha sido maior entre os que fizeram reposição direta de testosterona. A diferença chamou atenção em outro indicador: apenas o grupo tratado com a caneta emagrecedora apresentou melhora na morfologia dos espermatozoides, com a proporção de células com formato considerado ideal saltando de dois para quatro por cento ao final do tratamento. Já no grupo de reposição hormonal, a contagem e a qualidade do esperma pioraram, efeito colateral já esperado nesse tipo de terapia.
Pesquisas com homens saudáveis, sem obesidade, expostos por curtos períodos à medicação não mostraram o mesmo efeito sobre a testosterona, o que sugere que o benefício esteja mais associado à perda de peso e à reversão de alterações metabólicas do que ao medicamento isoladamente.
Outros levantamentos reforçam a relação
Os achados da revisão dialogam com outras pesquisas recentes. Um estudo conduzido por Andrés Guillén-Lozoya, da Clínica Mayo, em Rochester, analisou prontuários eletrônicos de mais de 1.600 homens em tratamento com medicamentos para obesidade e identificou aumento médio de cerca de 30% nos níveis de testosterona após o uso de canetas emagrecedoras ou de fórmulas que combinam o GLP-1 a outro hormônio relacionado ao controle de glicose.
Um levantamento retrospectivo com 215 pacientes em tratamento para perda de peso encontrou resultado semelhante: níveis de testosterona, em média, 20% mais altos do que antes do início da medicação.
Por que o excesso de peso afeta a testosterona
A ligação entre obesidade e queda nos níveis de testosterona já é bem documentada pela ciência. As células de gordura concentram uma enzima que converte testosterona em estradiol, principal hormônio sexual feminino, reduzindo a disponibilidade do hormônio masculino no organismo. Some-se a isso o quadro inflamatório crônico e as alterações metabólicas provocadas pelo excesso de peso, fatores que juntos prejudicam a produção hormonal e, por consequência, a fertilidade.
Por isso, segundo Natesh, os resultados representam um alerta importante para profissionais que acompanham homens com obesidade e sintomas de testosterona baixa, como queda de libido, alterações de humor e perda de massa muscular, especialmente quando há desejo de ter filhos. A pesquisadora afirma lidar com frequência com pacientes nessa situação e defende que o primeiro passo não deve ser a prescrição imediata de reposição hormonal, mas sim uma avaliação completa do quadro clínico, considerando a perda de peso, com mudanças de hábitos e, quando indicado, o uso de canetas emagrecedoras, como estratégia inicial para reequilibrar os hormônios.
Apesar dos resultados promissores, os próprios autores da revisão reforçam a necessidade de estudos maiores e mais robustos para confirmar, com solidez, a relação entre o uso desses medicamentos e a melhora da fertilidade masculina.