Saiba a repercussão mundial da execução transmitida nos EUA
Plano do Pentágono de levar ao ar a execução transmitida de Nidal Hasan provoca reação da ONU, de líderes religiosos e de políticos dos EUA e de outros países.
A execução transmitida de Nidal Malik Hasan, marcada para 3 de dezembro, transformou os EUA em alvo de uma onda de críticas internacionais. O Pentágono confirmou que o condenado pelo massacre de Fort Hood, no Texas, será fuzilado diante das câmeras, e a notícia reacendeu um debate que o país parecia ter deixado para trás há quase um século.

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Segundo o jornal britânico The Guardian, que reuniu as reações ao caso, a proposta foi comparada por críticos a práticas de governos como os do Irã e do Afeganistão. O escritório de direitos humanos da ONU avisou que levar a morte de um prisioneiro ao público seria o mesmo que realizar uma execução pública e iria contra a proibição absoluta da tortura.
ENTENDA O CASO: O que fez major dos EUA condenado à execução por fuzilamento?
Execução transmitida une críticas de diferentes lados nos EUA
A reprovação não ficou restrita a organismos internacionais. Hillary Clinton, que já foi secretária de Estado, classificou a ideia como bárbara e indigna do país. A deputada Yassamin Ansari, primeira democrata de origem iraniana eleita para o Congresso americano, afirmou que execuções públicas pertencem a ditaduras brutais e as relacionou ao avanço autoritário do governo Trump.
O desconforto atravessou o espectro político. Adam Smith, principal democrata da Comissão de Serviços Armados da Câmara, disse que o plano ridiculariza o sistema jurídico. O senador Chris Murphy usou o adjetivo medieval. Entre os republicanos, Thom Tillis defendeu a pena de morte para Hasan, mas chamou de extremamente repugnante a decisão de exibir o momento, lembrando que esse tipo de espetáculo costuma marcar regimes opressores.
Líderes religiosos também se manifestaram. O arcebispo Paul Coakley, que preside a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, falou em promoção bárbara de uma cultura de morte e pediu que o governo reveja o plano.
Quem decidiu e o que dizem Trump, Hegseth e Vance
Pela lei militar, só um presidente pode autorizar uma execução por fuzilamento. De acordo com o Pentágono, Donald Trump deu o aval a pedido do secretário de Defesa, Pete Hegseth. Em entrevista a uma emissora conservadora, Hegseth defendeu que o público assista para entender que crimes assim têm consequências sérias. Quando perguntaram se o condenado tinha feito um último pedido, respondeu que isso não lhe interessava.
JD Vance, católico praticante, preferiu não criticar a decisão. Disse que não assistiria à transmissão, mas pediu que ninguém esqueça que Hasan matou muitas pessoas inocentes. O vice ainda deixou no ar se a exibição de fato vai acontecer, ao dizer que só não assistiria “se for transmitido”.
O Reino Unido, que aboliu a pena de morte na década de 1960, tratou de marcar distância. A ministra Bridget Phillipson considerou o conceito bastante perturbador e lembrou que ser aliado dos EUA não significa aprovar tudo o que Washington faz.
Por que a execução transmitida não tem precedente conhecido
Hasan, hoje com 56 anos, foi condenado por um júri militar em 2013 por 13 homicídios premeditados e 32 tentativas. Psiquiatra do Exército à época, abriu fogo contra soldados que aguardavam exames médicos em Fort Hood, em 5 de novembro de 2009. Foi baleado por um militar durante sua prisão e ficou parcialmente paralisado, o que o obriga a usar cadeira de rodas.
Se a pena for cumprida, será o primeiro fuzilamento realizado pelas Forças Armadas americanas desde 1945, quando o soldado Eddie Slovik foi executado por deserção. A última execução militar de qualquer tipo ocorreu em 1961, com o enforcamento de John Bennett.
Especialistas ouvidos pela imprensa não conhecem nenhum país que leve ao ar uma execução legal pela televisão. No passado, tentativas da mídia americana de fazer isso foram barradas pelos tribunais. Nos EUA, as execuções são privadas há cerca de nove décadas. O enforcamento de Rainey Bethea, em 1936, no Kentucky, costuma ser apontado como a última pública, embora outro enforcamento tenha ocorrido no Missouri no ano seguinte. Já a execução de Timothy McVeigh, em 2001, foi exibida por circuito fechado apenas a familiares das vítimas. Em todo o mundo, a Anistia Internacional contou ao menos 17 execuções públicas em 2025, sendo 11 no Irã e seis no Afeganistão governado pelo Talibã.
O que especialistas dizem sobre a execução transmitida
Para Ned Price, que atuou como adjunto do representante americano na ONU e trabalhou anos com combate ao terrorismo, glorificar a violência e criar um mártir é o caminho mais rápido para produzir fanáticos radicalizados. Outros críticos temem que o espetáculo sirva de propaganda para inimigos dos EUA.
A professora Elisabeth Semel, da Universidade da Califórnia em Berkeley, questiona a dignidade do condenado e o motivo de o governo montar um evento tão incomum. Em sua avaliação, o presidente gosta de espetáculo e a mensagem seria exatamente essa. Justin Mazzola, da Anistia Internacional EUA, disse que a exibição aumentaria a crueldade da pena capital e alimentaria o ciclo de violência.
Há quem veja um lado positivo. Deborah Denno, da Universidade Fordham, afirmou que a transparência poderia ajudar num momento em que a execução malsucedida de Christa Pike, no Tennessee, levantou dúvidas sobre o método usado pelos estados. Os advogados de Pike contam que ela acordou no hospital com raiva e confusa, gravemente doente e acorrentada à cama.
Execução transmitida pode parar na Justiça
Eugene Fidell, especialista em direito militar da Faculdade de Direito de Yale, avalia que Hasan teria como entrar na Justiça para impedir a exibição de sua morte. Por enquanto, não se sabe se ele vai recorrer a um tribunal civil, o que poderia atrasar bastante o processo. Até 3 de dezembro, o mundo acompanha para ver se a execução transmitida sai do papel.
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