Ex-jogadores de Uberlândia relembram convívio com Oscar Schmidt

Cambraia, campeão pelo Uberlândia, começou a jogar basquete depois ver Oscar ser campeão, em 1979; para Brasília, foi 'loucura' jogar ao lado de um jogador que marcava 50 pontos numa partida

, em Uberlandia

A morte de Oscar Schmidt despertou memórias em ex-jogadores de basquete do Uberlândia que conviveram com ele, seja como companheiro de equipe ou como adversário nas quadras. O maior pontuador da história do esporte não gostava de seu apelido “Mão Santa”, porque era firme em afirmar que não era um dom divino e que treinou bastante para realizar as suas conquistas. Entre aqueles que jogaram como parceiro de time ou que o enfrentaram, algo fica: a determinação e o exemplo.

Oscar Schmidt e claudio Brasília
Oscar Schmidt e Cláudio Brasília, quando jogaram pelo Banco Bandeirantes – Crédito: Arquivo pessoal

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Luis Henrique Cambraia, ex-jogador do Uberlândia e da seleção brasileira e que conquistou o Campeonato Brasileiro e a Sul-Americana pelo clube, lembra que foi Oscar Schmidt que o fez se tornar jogador. “Em 1979, eu fui ao ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, assistir a final do Campeonato Interclubes. Ele jogava pelo Sírio e foi campeão mundial. Ginásio lotado. E aquela data, aquele jogo, me marcou. Naquele momento, com nove, dez anos de idade, eu decidi ser um jogador de basquete”.

O também campeão brasileiro pelo Uberlândia Cláudio Brasília contou que teve oportunidade de jogar ao lado de Oscar durante três temporadas. Jogaram dois anos no Corinthians, onde foram campeões nacionais e duas vezes sul-americanos, e depois no Banco Bandeirantes, em 96,97 e 98. “Ele estava vindo da Europa, foi o primeiro ano dele no Brasil. Era loucura, um jogador que fazia 50 pontos num jogo assim”, disse ao Paranaíba Mais.

Oscar Schmidt: jogar junto e jogar contra 

Brasília conta que chegou no Corinthians ainda no começo de sua carreira, quando estava começando a despontar no basquete nacional. Naquela época, Oscar já estava se poupando e havia acabado de chegar da Europa. “Mas sempre estava fazendo os arremessos dele lá”, lembra.

Segundo o ex-jogador e treinador no UTC, durante as partidas, Schmidt sempre chamava a responsabilidade para si. “Com isso, a gente acabava procurando sempre ele para passar a bola. Mesmo sem pensar muito, quando ele aparecia livre, você soltava a bola pra ele”. Segundo os ex-jogadores, o temperamento de Oscar Schmidt dentro de quadras era aflorado. “Dentro da quadra ele cobrava bastante, de gritar mesmo, de cobrar, de xingar. Mas aí, acabava o jogo e já tava conversando com a gente normal”, diz.

Cambraia lembra que, nas vezes em que o jogador veio para Uberlândia, esta característica fazia do jogo um espetáculo. “Eu lembro que a torcida pegava muito no pé dele, ele gostava desses embates, discutia com a torcida, o jogo pegava fogo. Era muito gostoso jogar com essa intensidade de disputa. Até extrapolava as quatro linhas, porque ele realmente respondia à torcida, ele tinha um temperamento muito combativo e era muito legal, a torcida adorava pegar no pé dele”.

Oscar Schmidt jogando contra Claudio Brasília
Oscar Schmidt jogando contra Claudio Brasília – Crédito: Arquivo Pessoal/Divulgação

Mesmo assim, ambos os jogadores lembram que, quando o apito final assoava, Oscar voltava a ser uma pessoa tranquila. “Aí acabava o jogo e já tava conversando com a gente normal. Ele brincava com a gente fora da quadra, brincava no vestiário, fazia piada e tudo. No vestiário, era uma pessoa normal com a gente. A gente respeitava muito, não estávamos brincando com qualquer pessoa, mas ele convivia com a gente normalmente”, lembrou Brasília. 

Para Cambraia, isso é uma característica de um atleta obstinado e, nas vezes que se enfrentaram, nunca levou por mal. “Ele realmente queria ganhar, era um cara muito competitivo. Isso é a característica de um atleta que tem um perfil de realização muito grande, obcecado pelos resultados, por ganhar, por ser cestinha”.

“Eu marquei ele muitas vezes. Muitas vezes eu assumia essa incumbência, e realmente era um desafio muito grande. Tinha uma precisão de arremesso muito grande, e tinha uma experiência muito grande. Afinal de contas, jogou na Europa há muitos anos, na Seleção Brasileira há muitos anos. Realmente era um desafio muito grande, mas um desafio muito bom, né? Tentar impedir que ele tivesse a performance que ele naturalmente tinha”, completou.

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Oscar Schmidt: exemplo a ser seguido

Segundo Cambraia, o ex-jogador não gostava de seu apelido “Mão Santa”. “Porque dá a conotação de que toda habilidade, toda a sua capacidade caía do céu, e não era isso. E ele realmente fazia questão de ressaltar que o treino que levou, o desejo, a meta, que levou para que ele chegasse onde chegou. Então, realmente a gente perde uma referência incrível naquele que tange a busca incansável pela excelência”.

“Ele sempre foi uma referência, como pessoa obstinada, como atleta que tinha uma obstinação, construía um desafio muito grande para sempre ser o melhor. Ele só treinava muito, realmente era obcecado por fazer sempre o melhor, jogar o melhor que ele podia. Então, ele foi sempre uma referência de um profissional muito comprometido, persistente, dedicado, obstinado. E para nós, atletas, isso sempre foi uma referência importante”, completou Cambraia.

Para Brasília, ele “mostrou que o trabalho dá resultado. Mostrou que, se você treinar bastante, você consegue melhorar. E é um momento triste pra gente do basquete. Era um cara batalhador, treinava bastante.”

Quando perguntado qual memória que mais marcou sua convivência com Oscar Schmidt, Brasília se lembrou de uma cena que representa bem o ex-jogador. “Foi quando a gente foi campeão pelo Corinthians, que ele subiu numa parte mais alta lá no ginásio e ficou balançando a bandeira do clube”.

Para os jogadores, o maior pontuador da história do basquete, que abriu mão de jogar na NBA para jogar pela seleção Brasileira, e que tem a maior pontuação de uma Olimpíada até os dias de hoje, deve ser lembrado assim: um vencedor, que lutou para vencer e que deixa um legado maior do que seus títulos. Um exemplo de campeão.