Gasolina pode ter 32% de etanol: o que muda no preço e no motor dos carros

Medida promete reduzir importações, mas levanta dúvidas sobre impactos em veículos e custos para montadoras

, em Uberlândia

O Governo Federal confirmou nesta sexta-feira (24) que pretende aumentar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina vendida no Brasil. A proposta, chamada de E32, será analisada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em reunião prevista para 7 de maio.

O anúncio foi feito em Uberaba pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, durante a abertura da Safra Mineira de Açúcar e Etanol. Segundo o governo, a medida pode reduzir a necessidade de importação de gasolina em cerca de 500 milhões de litros por mês e levar o país à autossuficiência no combustível.

Governo federal anunciou proposta para ampliar a mistura obrigatória de etanol na gasolina de 30% para 32% no Brasil – Crédito: Freepik

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“O Brasil se tornará autossuficiente em gasolina”, afirmou o ministro ao defender que a ampliação da mistura fortalece a segurança energética e reduz a dependência de combustíveis fósseis.

A proposta ocorre após a aprovação, no ano passado, da elevação da mistura de etanol de 27% para 30%. O governo afirma que testes técnicos realizados para a implementação do E30 já validaram a viabilidade do uso da gasolina com até 32% de etanol em veículos automotores.

A mudança também é respaldada pela Lei do Combustível do Futuro, que determina que aumentos na mistura só podem ocorrer após comprovação técnica de segurança e desempenho para os veículos.

Mistura de etanol cresce há décadas no Brasil

O aumento da presença do etanol na gasolina não é novidade no país. O percentual obrigatório vem sendo ampliado gradualmente desde os anos 1970, principalmente após a crise mundial do petróleo.

Dados históricos do Governo Federal e estudos sobre o setor mostram a evolução da mistura ao longo das décadas:

  • 1976: 11% de etanol na gasolina (E11)
  • 1978: mistura variou entre 18% e 23%
  • 1984 a 1986: 20%
  • 1993 a 1998: 22%
  • 2007: entre 23% e 25%
  • 2015: 27%
  • 2025: 30%
  • proposta para 2026: 32%

Aumento pode afetar motores?

A possibilidade de impactos nos veículos é uma das principais dúvidas em torno da proposta de aumentar a mistura obrigatória de etanol na gasolina para 32%.

Segundo a professora de engenharia mecânica da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ana Marta de Souza, carros flex produzidos no Brasil já são preparados para operar com altos percentuais de etanol e não devem exigir alterações mecânicas. “Os motores flex já estão preparados para qualquer porcentagem de etanol, então não há necessidade de mudanças na fabricação”, explicou.

Ela afirma, porém, que veículos movidos apenas a gasolina, especialmente carros mais antigos, podem exigir adaptações em componentes e recalibração do sistema de injeção eletrônica. “Os veículos somente a gasolina não foram projetados para trabalhar com álcool. Isso pode impactar a durabilidade de componentes do sistema de combustível”, disse.

Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou em Uberaba a proposta de elevar para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina – Crédito: Tauan Alencar/MME

A especialista também destaca que o etanol possui menor poder energético em relação à gasolina, o que pode aumentar o consumo em alguns casos. Por outro lado, o combustível tem maior octanagem, característica que pode favorecer o desempenho em motores flex.

Testes realizados anteriormente pelo Ministério de Minas e Energia, com participação da Petrobras, da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), avaliaram a viabilidade técnica das misturas entre E22 e E30 antes da ampliação do percentual.

Montadoras podem ter custos extras

A ampliação da mistura também pode gerar impactos para fabricantes de veículos. Isso porque montadoras precisam homologar motores e validar desempenho, emissões e durabilidade dos componentes diante de novas especificações de combustível.

A engenheira Ana Marta avalia que eventuais custos adicionais podem surgir principalmente para adequação de modelos importados ou veículos a gasolina que não foram originalmente projetados para operar com misturas mais elevadas de etanol.

Apesar disso, grande parte da frota brasileira atual já é composta por veículos flex, tecnologia amplamente difundida no país desde os anos 2000.

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Governo aposta em queda no preço

Além da promessa de independência nas importações de gasolina, o governo também defende que a ampliação do etanol pode ajudar a reduzir preços nos postos.

Isso porque o etanol anidro costuma ter custo inferior ao da gasolina importada. Com maior participação do biocombustível na mistura, a expectativa do Ministério de Minas e Energia é diminuir a pressão dos preços internacionais do petróleo sobre o mercado brasileiro.