Banco Master: entenda o escândalo que mobilizou STF, BC e PF

Investigações no STF avançam, Banco Central liquida instituições e Polícia Federal apura fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master e seu controlador

, em Uberlandia

O escândalo do Banco Master ganhou um novo capítulo com o andamento das investigações conduzidas pela Polícia Federal no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF), após o adiamento de depoimentos de investigados nesta terça-feira(27). A apuração mira fraudes financeiras de grandes proporções, ligadas à tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília e a operações que, segundo investigadores, podem ter causado prejuízos bilionários a investidores e ao sistema financeiro.

Banco Master
– Crédito: Ravena Rosa/Agência Brasil/Reprodução

A liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, revelou um esquema complexo que envolveu fundos de investimento, concessão de créditos fictícios e pressões sobre órgãos de controle. O caso é considerado um dos mais graves já registrados no país e segue em análise por diferentes frentes institucionais.

Banco Master e a engrenagem do esquema financeiro

Segundo as apurações, o Banco Master montou uma estrutura que aparentava solidez, mas era sustentada por operações artificiais e alto risco. Entre 2023 e 2024, investigadores estimam que aproximadamente R$ 11,5 bilhões circularam em um sistema de triangulações que envolvia o próprio banco, empresas sem capacidade financeira real e fundos de investimento ligados à mesma rede de controle.

O mecanismo começava com a liberação de recursos do Banco Master para empresas usadas como intermediárias. Esses valores retornavam ao sistema por meio de aplicações em fundos administrados pela Reag Investimentos. Na prática, os fundos compravam ativos sem valor econômico consistente, como papéis de um banco estadual já extinto, registrados por cifras muito acima do preço real. Relatórios do Banco Central identificaram ao menos seis fundos suspeitos, que juntos somavam mais de R$ 100 bilhões em patrimônio e serviam para diluir perdas e mascarar a real situação financeira.

Para manter o fluxo de pagamentos, o banco adotava estratégias que adiavam o reconhecimento da inadimplência. Empréstimos com longos períodos de carência eram concedidos, enquanto novos CDBs  (Certificado de depósito bancário) financiavam a remuneração de investidores antigos, característica típica de um esquema de pirâmide. Esses títulos chegaram a prometer ganhos de até 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário). Quando a confiança no Banco Master começou a ruir, em 2024, a captação caiu abruptamente e a falta de liquidez se tornou insustentável.

Na tentativa de criar fôlego no caixa, o banco registrou contabilmente a compra de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno, sem que houvesse pagamento ou lastro real. A análise do Banco Central sobre os CPFs envolvidos indicou que as operações não existiam. Ainda assim, essa mesma carteira foi posteriormente repassada ao Banco de Brasília por R$ 12 bilhões, após ajustes artificiais nas taxas de juros. Para os investigadores, a negociação com o BRB tinha como objetivo misturar balanços e diluir as irregularidades dentro de uma instituição pública, movimento que acabou sendo interrompido pelo Banco Central.

As investigações indicam que os fundos administrados pela Reag Investimentos foram decisivos para manter o funcionamento do esquema atribuído ao Banco Master. Segundo os investigadores, a gestora teria atuado como elo entre os recursos captados pelo banco e as operações usadas para ocultar prejuízos e inflar resultados. Há suspeitas de que a Reag tenha facilitado a criação de empresas sem atividade econômica real, utilizadas como intermediárias para receber empréstimos e aplicar os valores em fundos controlados pela própria estrutura.

Esses fundos são investigados por supostamente atribuírem valor elevado a ativos fictícios ou sem lastro econômico, o que permitia pulverizar recursos e dificultar o rastreamento do dinheiro. A atuação da Reag passou a ser vista como parte indissociável do colapso do Banco Master. Após o avanço da Operação Compliance Zero, o Banco Central decretou a liquidação da gestora, decisão interpretada como um desdobramento direto das irregularidades identificadas no caso.

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp

Banco Master e a tensão entre os órgãos públicos

Apesar de o Banco Master representar uma fatia pequena do sistema financeiro nacional, a liquidação da instituição provocou um embate incomum entre órgãos de controle e fiscalização. As decisões técnicas do Banco Central passaram a ser questionadas simultaneamente no Supremo Tribunal Federal, no Tribunal de Contas da União e no Congresso Nacional, criando um ambiente de forte pressão institucional.

O Banco Central firmou um acordo com o TCU para permitir a inspeção de documentos, desde que fossem preservados o sigilo bancário e as prerrogativas da autoridade monetária. No STF, o ministro Dias Toffoli concentrou as ações judiciais relacionadas ao caso. Ele chegou a cogitar uma acareação que incluiria o diretor de Fiscalização do BC, mas recuou e determinou que a Polícia Federal colhesse apenas depoimentos adicionais do controlador Daniel Vorcaro e do ex-presidente do BRB. Toffoli também determinou que todo o material apreendido na Operação Compliance Zero ficasse sob custódia do Supremo, autorizando posteriormente a análise pela Polícia Federal com apoio da Procuradoria-Geral da República.

Andamento das investigações no STF

O inquérito que apura as fraudes do Banco Master tramita no Supremo Tribunal Federal desde dezembro do ano passado, após a citação de um deputado federal. Nesta semana, a Polícia Federal adiou os depoimentos de três investigados porque as defesas alegaram não ter acesso aos autos. O único ouvido até agora foi um ex-diretor do banco, que prestou esclarecimentos e se colocou à disposição das autoridades.

A Operação Compliance Zero investiga a concessão de créditos falsos e a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB. Segundo a PF, o montante das fraudes pode chegar a R$ 17 bilhões.

Banco Master e o caso Will Bank

A crise se estendeu a outras instituições ligadas ao grupo. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira, controlada pelo Banco Master, após constatar insolvência e o descumprimento de obrigações financeiras. Todas as atividades do Will Bank foram suspensas, os gestores afastados e um liquidante nomeado para apurar ativos, passivos e eventuais irregularidades.

Banco Master e Daniel Vorcaro

Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, foi preso pela Polícia Federal no dia em que o Banco Central decretou a liquidação da instituição. Ele é investigado por crimes financeiros relacionados à emissão de títulos de crédito falsos e às operações que sustentaram o esquema. Além de Vorcaro, ex-diretores e sócios do banco também são alvos da investigação.

Impacto para clientes e por que o caso é histórico

Com a liquidação do Banco Master, cerca de 1,6 milhão de clientes dependem do Fundo Garantidor de Crédito para o ressarcimento de valores, em um processo considerado o maior da história do fundo. Parte dos investidores, como fundos de pensão, não terá cobertura.

O escândalo do Banco Master expôs fragilidades na fiscalização, no uso de fundos de investimento e nos limites da supervisão financeira. O episódio já é tratado como um marco que deve influenciar mudanças regulatórias e o debate sobre governança no sistema financeiro brasileiro.

*Com informações da Agência Brasil