Ritmistas de Uberlândia levam batuque mineiro para o Sambódromo do Anhembi

Músicos da cidade integram baterias de escolas de samba de São Paulo com dedicação e paixão pelo ritmo carnavalesco

, em Uberlândia

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A batida que nasce nos ensaios de baterias universitárias em Uberlândia vai ecoar forte no Sambódromo do Anhembi. Em 2026, ritmistas uberlandenses se uniram em um intercâmbio cultural entre o Triângulo Mineiro e o Carnaval de São Paulo, que acontece desta sexta-feira (13) até o domingo (15).

Deixando para trás a calmaria do interior, esses músicos encaram maratonas de viagens, ensaios exaustivos e o desafio técnico de tocar em algumas das maiores escolas do país, como Mocidade Alegre, Camisa Verde e Branco, Dom Bosco e Estrela do Terceiro Milênio.

Ritmistas de Uberlândia durante ensaio técnico no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, onde desfilam por escolas tradicionais do carnaval paulista – Crédito: Ricardo Zamboni/Arquivo Pessoal

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Da Tabajara em Uberlândia para a Dom Bosco de Itaquera

Para Nei Júnior, de 25 anos, o samba está no DNA. Filho de Neirimar da Silva, mestre de bateria da tradicional escola uberlandense Tabajara, ele desfila pelo segundo ano consecutivo na Dom Bosco de Itaquera. Além disso, em 2026, assume a função de repique bossa, responsável por impulsionar o samba dentro da bateria.

O convite surgiu através de conexões feitas em competições de baterias universitárias. “O convite veio pelo então diretor de bateria Marcelo Pires (Tieta) após me ver tocar na Copa Inter Atléticas, pela Artilharia. Profissionalmente, isso aumenta muito o currículo. Onde eu chego, as pessoas respeitam como ritmista em São Paulo”, conta Nei, que é percussionista desde criança.

Ele iniciou sua trajetória em 2003 no Grupo Tabinha, da Tabajara, onde seu pai começou como mestre em 1997. Hoje, Nei assume o posto de diretor de bateria da Tabajara em sua cidade natal.

O desafio da logística

Para quem toca em cinco escolas, como Caíque Rocha, 28, o período exige sacrifícios. Morando em São Paulo desde 2024 para acompanhar a carreira da namorada Cecília Resende, que é dançarina, ele revela que a preparação é rigorosa.

“Chegou uma época que eu estava ensaiando de segunda a segunda. Tive que abdicar de vida social e do descanso”, relatou o músico, que este ano desfila pelas escolas Primeira da Cidade Líder, Camisa Verde e Branco, Mocidade Alegre, Pérola Negra e Estrela do Terceiro Milênio.

Caíque destacou que o esforço compensa pelo aprendizado. “Nós que viemos de longe, chegamos muito na frente de quem já está ali e não se empenha, porque nos esforçamos o dobro. Se você se esforçou e mostrou o trabalho, as portas se abrem”.

Ele destaca a intensidade do aprendizado vivendo de perto a rotina das escolas. “Não dá pra mensurar o quanto a gente aprende aqui. É uma realidade muito diferente, desde a organização das baterias até os ensaios de rua, que são gigantescos e cheios de energia. Aqui você aprende demais”, finalizou.

Representatividade feminina

A trajetória de Hannah Bizinoto, 30, mostra que nunca é tarde para realizar um sonho. Ritmista que toca tamborim desde 2015, quando começou na Bateria Virulenta da Universidade Federal de Uberlândia, ela acreditava que desfilar em São Paulo era algo inalcançável para quem não cresceu dentro dos barracões.

Em março de 2025, as portas da Estrela do Terceiro Milênio se abriram através de um convite do diretor de tamborim da escola. Por questões pessoais, Hannah não conseguiu aceitar de imediato, mas o destino reservava uma segunda chance meses depois.

Durante uma viagem a São Paulo para um casamento, o amigo e também ritmista Caíque Rocha (que vai tocar em cinco escolas) a convidou para visitar um ensaio no Grajaú. O que era para ser apenas um momento de diversão e reencontro acabou se transformando em oportunidade: Hannah foi convidada a tocar, mostrou sua técnica e garantiu, de forma inesperada, seu lugar na ala para o desfile.

Caíque e Hannah se conhecem há anos e desfilarão juntos pela Estrela do Terceiro Milênio – Crédito: Hannah Bizinoto/Arquivo Pessoal

Após o convite inesperado durante um ensaio da Estrela do Terceiro Milênio, ela garantiu sua vaga na ala. “O mais desafiador foi o cansaço e a resistência. A escola toca muito rápido e estou reaprendendo muita coisa para ter consistência na avenida. É exaustivo, mas vale cada segundo”, afirmou Hannah.

Intercâmbio de conhecimentos

Um ritmista de Uberlândia que tocou em São Paulo, em 2024, e trouxe de volta os conhecimentos para Minas é José Eduardo, 32. Ele desfilou pelo Camisa Verde e Branco e hoje é diretor da Aparu, escola de samba em Uberlândia.

Para José Eduardo, tocar na Camisa Verde e Branco, na Barra Funda, trouxe um senso de pertencimento – Arquivo pessoal/Divulgação

José Eduardo observa que o nível técnico em Uberlândia tem dado saltos importantes. “As escolas daqui estão se abrindo para o conhecimento de fora, trazendo padrões rítmicos atuais”, afirmou.  Para ele, tocar no histórico Camisa Verde e Branco, na Barra Funda, trouxe um entendimento que vai além da música: o senso de pertencimento. “É uma sensação de comunidade completa. O bairro inteiro para, o motorista de aplicativo conhece a escola, o respeito é gigante. Trazer esse entendimento de inclusão, onde crianças e idosos tocam juntos com a mesma entrega, é o que tento aplicar no nosso meio em Uberlândia”, destacou o diretor da Aparu.

Da universidade para o Grupo Especial

A trajetória de Ricardo Zamboni exemplifica como a paixão pelo ritmo pode transformar um iniciante em um ritmista na elite. Sem contato prévio com a percussão até entrar na universidade, ele descobriu o samba nas baterias universitárias e no Carnaval local de Uberlândia. “Meu primeiro desfile foi em 2024, em Uberlândia, com enredo sobre chocolate. Aquilo despertou a curiosidade de viver o Carnaval de São Paulo”, relembrou.

Ricardo Zamboni no desfile do Camisa Verde e Branco em 2025, em um enredo sobre Cazuza – Crédito: Ricardo Zamboni/Arquivo Pessoal

Após passar por uma “peneira” técnica e um período de aprimoramento, Ricardo conquistou o posto no Camisa Verde e Branco e na Primeira da Cidade Líder. “Estar aqui é ressignificar essa paixão. É aprender que existe muito além do que achamos que é o ‘teto’ do conhecimento. Nada é impossível com disciplina e, principalmente, respeito ao processo”, disse Ricardo.

O primeiro a desbravar

O primeiro ritmista universitário a se aventurar pelas escolas de samba em São Paulo foi Pedro Henrique (Foguete), 30.

A trajetória dele é um elo fundamental entre as baterias universitárias de Uberlândia e o samba de São Paulo. Fundador da Computaria (2015) e da Ufuteria (2017), ele carrega a bagagem do Congado e a responsabilidade de quem ajudou a elevar a qualidade do ritmo no interior.

“No começo, na Computaria, eu era muito novo, mas tive apoio de grandes apaixonados pelo ritmo como José Eduardo, que já desfilou comigo no Camisa”, relembrou.

O primeiro convite para o Anhembi surgiu em 2019, após uma apresentação no torneio de baterias universitárias “Balatucada”. Mesmo com os desafios da distância e dos custos na época, a vontade de realizar um sonho pessoal e fortalecer o cenário do samba falou mais alto. Após passar pela Colorado do Brás, Foguete encontrou sua verdadeira identidade no Camisa Verde e Branco.

“Aqui no Camisa minha vida mudou. É o meu pavilhão. Tenho uma identificação gigante com a história da escola, uma das mais tradicionais, gerida por pessoas pretas e que teve o mestre Neno como referência. É uma alegria, mas também uma responsabilidade muito grande”, definiu o ritmista.