Projeto em Uberlândia transforma poesia em som e performance
Produção inverte a lógica da canção e utiliza o ritmo da fala dos poetas como base para a criação musical; obra já está disponível nas plataformas digitais
A literatura em Uberlândia ganha um novo contorno com o lançamento do projeto “Poesia Falada Subsolo”. A iniciativa propõe uma ruptura com a leitura do papel, transformando o poema em um objeto que une singularidade do autor, trilha sonora experimental e performance cênica.

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O maior diferencial do projeto está na sua arquitetura sonora. Diferente do que ocorre na música popular, onde a letra é escrita para caber em uma melodia pré-existente, o “Poesia Falada” fez o caminho inverso.
Segundo Robisson Sete, editor da Editora Subsolo, que está à frente da iniciativa, a base matriz para a composição musical foi o próprio ritmo da fala de cada poeta. “O lance foi transmutar o poema contido no papel através das interpretações de seus autores, com uma cama sonora criada a partir do som das palavras”, explica.
O resultado é o que o professor de Letras da UFU Sérgio Bento define como um “objeto verbal não-identificado, em que a palavra liberta-se da página e cumpre seu papel de puro som”.
Segundo Robisson, a ideia do projeto foi uma tentativa estética de tentar lidar com o poema de outra forma. “Constituir um novo objeto artístico de fruição da poesia, que lida com a vocalização, melodia e som, bem como o corpo e a performance e o vídeo”, explica.
Ele ainda comenta que o formato se inspira no Spoken Word (palavra falada), movimento que une leituras poéticas a ritmos como jazz, be-bop e música experimental, difundido por gerações como a Beat e consolidado pela cultura Hip Hop.

No projeto local, essa tradição é atualizada pela diversidade do elenco. São 11 vozes que trazem desde a potência vocal do Slam e da periferia até a ancestralidade dos Reinados de Minas Gerais. Essa mistura transforma o álbum em uma experiência sensorial que humaniza temas complexos, como luto, maternidade e resistência, através da tridimensionalidade do som.
Processo de criaçao foi feito a partir da interpretação dos próprios artistas
Robisson conta ainda que o processo de criação foi instigante. “Como é a primeira edição, convidamos primordialmente poetas que compõe nosso catálogo [da Subsolo]. Apresentamos a ideia aos poetas e pedimos um poema gravado no celular e escrito num word. Não havia nenhum direcionamento sobre tema ou ótica alguma, apenas que fosse até dois minutos e que fosse bom de ser dito em voz alta e musicado”, comenta Robisson, sobre o processo de criação.
Assim, a partir do ritmo da declamação do poeta, seu timbre e interpretação, foi feita a trilha sonora original pelo compositor Enzo Banzo (da banda Porcas Borboletas). Depois, o material foi levado para o estúdio do produtor Rodrigo Nepomuceno, que criou a instrumentalização. Com a trilha sonora composta, os poetas gravaram no estúdio a voz final e tudo foi mixado.
Projeto em Uberlândia vai do palco para os streamings
Neste sábado (25), o Projeto será apresentado pela primeira vez no palco do Cineteatro Nininha Rocha. No entanto, já está com ingressos esgotados. Para quem não reservou ingressos, ainda há duas formas de conferir essa inovação estética que une 11 poetas locais e música experimental:
- Imersão Digital: O álbum completo, com todas as 11 faixas que compõem o espetáculo, já vive no digital e pode ser ouvido em todas as plataformas de streaming (Spotify, Deezer, etc.). É a chance de conferir o que o professor Sérgio Bento chama de “objeto verbal não-identificado”, onde a palavra vira puro som.
- Nova Chance em Junho: A produção garantiu uma segunda apresentação gratuita para o mês de junho, desta vez no Dboche Pub Show, com data ainda a ser confirmada. O novo local comporta cerca de 200 pessoas — um público maior que o teatro Nininha Rocha — e a data exata será divulgada em breve.