Entre aplausos e desafios, o teatro em Uberlândia

Cena teatral resiste com público presente e artistas engajados, apesar de carências estruturais e baixo investimento

, em Caldas Novas

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As luzes do espelho do camarim de um teatro em Uberlândia mudaram a vida da atriz Tati Fernandes. Aos 8 anos, a magia desta forma de arte a encantou, uma experiência comum ao público da cidade, que lota espetáculos e que consegue desfrutar de importantes iniciativas locais. Entretanto, a falta de espaços próprios no município e a ausência de recursos dificultam que a potencialidade dos artistas da cidade continuem transformando pessoas.

Teatro Municipal de Uberlândia
Teatro Municipal de Uberlândia – Crédito: Prefeitura Municipal de Uberlândia

A magia do teatro encantou Tati em um projeto de dança, da Escola Municipal Professor Otávio Batista Coelho Filho, que se apresentou no antigo Teatro Rondon Pacheco. “Pela primeira vez eu pisava em um camarim, uma experiência animadora para aquela criança, as luzes do espelho brilhavam nos meus olhos e eu vi aquela menina de cachos dourados com fantasia da Emília com um sorriso reluzente no espelho.”

O espaço, importante não apenas para a fomentação da cultura da cidade, mas também para a formação de novos artistas e sujeitos, foi fechado em 2016 por motivos de infraestrutura. Desde então, o Teatro Rondon Pacheco nunca mais foi reaberto. Exemplos como este e do tradicional Teatro Grande Otelo, que não recebeu mais espetáculos desde o início dos anos 2000, quando fechou as portas e desde então passou por diversas reformas, materializam a desvalorização da arte pelo poder público em Uberlândia.

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Na contramão da falta de investimento e do descaso, espetáculos de teatro em Uberlândia têm atraído um público fiel, diverso e que conta com grupos e iniciativas importantes para este campo cultural. Mais do que uma forma de entretenimento, essa forma de arte atua como um pilar na formação cultural da cidade. 

Para Luiz Humberto Arantes, professor do curso de teatro na UFU e pesquisador do teatro local, em Uberlândia, esta manifestação se divide em três principais frentes: a circulação de espetáculos de fora, os de produção local e o teatro universitário/escolar. Segundo o professor, todas as frentes encontram um bom público, seja em espetáculos públicos e privados, as pessoas costumam aparecer.

Apresentação de teatro usa de brincadeiras, danças e músicas para divertir o público - Foto: Grupontapé/ Divulgação
Apresentação de teatro usa de brincadeiras, danças e músicas para divertir o público – Foto: Grupontapé/ Divulgação

Já para Carlos Guimarães, jornalista e produtor cultural, Uberlândia não é uma cidade fácil para o teatro. “A gente costuma ter sempre as casas cheias, não raras vezes alavancando sessões extras, mas só quem é próximo consegue ver a luta que isso representa. A gente corre atrás do público”.

Segundo o produtor, ao contrário de outras formas de arte e de entretenimento, que precisam de poucos anúncios para atrair o público, o teatro em Uberlândia precisa de uma campanha intensa de divulgação. Mesmo assim, vê um interesse crescente nos moradores de Uberlândia. 

“Ficamos felizes em ver essas mesmas pessoas, que estavam ali pela primeira vez, frequentando assiduamente outros espaços. É um hábito que precisa ser alimentado, que precisa trazer sempre grandes surpresas ao espectador e agregar valor à sua vida. Que seja uma experiência transformadora, essa é a perspectiva do teatro, e inesquecível”, relata. 

Com um público frequente, mesmo que algumas vezes resistente, e com pessoas que lutam por esta manifestação cultural, a arte que deu sentido à vida de Tati resiste e encanta na cidade. A criança que enxergou um caminho no espelho de um camarim de um local que não existe mais, hoje possui uma profissão, que a realiza e, ainda, a constantemente transforma.

“Ser atriz é viver em constante escuta e transformação, é ter sensibilidade de compreender o outro, dar vida a diversas histórias, causar reflexões, dar voz a grandes lutas, é estar disponível para sentir, comunicar e criar conexões. Um exercício constante de humanidade”, contou.

A falta de espaço para o teatro em Uberlândia

Segundo Luiz Humberto, em Uberlândia há peças dos mais diferentes tipos, sejam de autoria própria, de dramaturgos brasileiros e estrangeiros, peças de formação, teatro de faculdades e de escolas, e as pessoas assistem. “Você tem uma frequência de público e teria até mais, se nós tivéssemos mais espaços”. 

O professor aponta para uma demanda que, segundo ele, é importante para democratizar o acesso à arte. “É importante também a criação de espaços de apresentação que não são no centro da cidade. Os bairros precisam ter espaços culturais e teatrais. E, quando isso acontecer, também haverá uma política de ocupação, não adianta espaço se não tiver quem ocupar”. 

Distribuição de salas de teatro em Uberlândia
Distribuição de Teatros em Uberlândia, de acordo com mapa cultural da UFU – Crédito: Reprodução/UFU

Hoje, Uberlândia ainda conta com locais com boa estrutura, como o Teatro Municipal, Teatro de Bolso do Mercado, Cineteatro Nininha Rocha, o Teatro da UFU, além de espaços de grupos locais como o da Trupe dos Truões e o do Grupontapé. Para Carlos Guimarães, os espaços existentes possuem uma política de ocupação democrática, e que, na grande maioria das vezes, abrem espaço para o trabalho de produtores culturais promoverem seus espetáculos. 

Mesmo assim, para o produtor cultural, o teatro em Uberlândia encontra barreiras em encontrar locações que acompanham suas pretensões artísticas. ”O Municipal é ocupado por alguns eventos que nem queriam estar ali, por terem um público mais reduzido ou pelo espetáculo ser algo mais intimista. Eu mesmo já tive artistas consagrados declinando do convite porque o teatro era grande para aquele espetáculo. Além disso, uma cidade do porte de Uberlândia já tem demandas para mais espaços”. 

Financiamento e receptividade de novos profissionais

Tati Fernandes escolheu ser atriz pela sensação enérgica e transformadora que a profissão a faz sentir, a mesma de quando tinha 8 anos. Depois da primeira paixão, fez uma oficina de teatro gratuita na UFU, o Comufu. Depois, entrou no grupo Arte em Cena, fez um curso semestral na LuzArte e depois cursou bacharelado e licenciatura em teatro na UFU. 

Recém formada, ela conta que Uberlândia tem sido uma cidade receptiva no início de sua trajetória profissional. “Sinto que já existe uma abertura especialmente na publicidade local, onde antes mesmo de formar já tive oportunidades de participar de alguns trabalhos e começar a me inserir profissionalmente através de comerciais, campanhas institucionais, desenvolvidas por produtoras locais”.

Ao mesmo tempo, Tati reconhece que o teatro em Uberlândia não conta com um mercado tão amplo quanto de grandes centros. “Principalmente quando pensamos em teatro de forma contínua e comercial”, diz.

Para Luiz Humberto, um problema enfrentado para este tipo de arte na cidade é o financiamento. Segundo o professor e pesquisador, o Município e o Estado abrem editais anualmente, mas são poucos recursos. “São editais que aparecem 20, 30 projetos inscritos e eles aprovam 4 ou 5. Nota-se uma grande demanda de artistas para fazer teatro, mas os recursos que o poder público disponibiliza são muito poucos”.

Segundo o professor, também existem outras formas de financiamento, como a Lei Rouanet, mas que dependem de encontrar uma empresa para financiar. “E aí não vejo na cidade um trabalho de mostrar ao empresariado da cidade o quanto é importante investir em cultura, investir em teatro, investir nos grupos locais. Esse trabalho quase não há. Então, a gente não tem uma conscientização para que empresas invistam em teatro”.

Carlos Guimarães também reconhece que mais recursos seria importante para o teatro em Uberlândia. “Mais patrocínios ou mesmo fomento via leis de incentivo (municipal, estadual e Rouanet) também seriam bem-vindos. As empresas que utilizam essas ferramentas ficam divididas diante da quantidade de pedidos que surgem. As incentivadoras são sempre as mesmas e procuradas por todos. Isso às vezes incorre em uma concorrência desleal”, aponta.

Segundo o produtor cultural, esta carência de recursos acaba favorecendo determinados espetáculos. “Há projetos que são muito incipientes de subjetividades que a cultura carrega, o que acaba favorecendo outros nos quais as empresas terão mais visibilidade”. 

Neste cenário, Carlos também defende um maior envolvimento da iniciativa privada, inclusive para o problema dos espaços. “Até hoje não entendi por que a iniciativa privada não comparece com um novo teatro na cidade. A viabilidade econômica existe. Só a nossa programação deixa uma quantia considerável para a Prefeitura. E um teatro privado não teria especificidades e a ocupação pública como um espaço público obrigatoriamente deve ter. Ou seja, teria ainda muito mais receita”.

Apesar de tudo, uma arte importante e que importa

Até este início de carreira, a peça que mais marcou Tati Fernandes foi o espetáculo “Piolin”,  que homenageia o circo brasilierio a partir da biografia de Abelardo Pinto. “ Foi um espetáculo circense musical, teatro popular, onde vivíamos duas horas de apresentação com muita alegria, música, danças, cores, números circenses, todas as sessões com casa cheia, muitas risadas e um retorno espetacular do público, onde todos saíam muito felizes e comovidos com a história do grande artista”.

 

Tati fernandes em uma peça de teatro em Uberlândia
Tati Fernandes no espetáculo “Piolin”, em 2024 – Crédito: Arquivo pessoal

Segundo Tati, um dos aspectos importantes do teatro que nem sempre é percebido é o desenvolvimento da empatia e da escuta. “Ele convida tanto o ator quanto o público a enxergar diferentes realidades com mais sensibilidade. Além disso, o teatro vai além do entretenimento, porque muitas vezes provoca reflexões sensíveis que permanecem mesmo depois da peça terminar”.

Carlos Guimaráes destaca que o teatro, por si, é uma experiência transformadora. “Quando os espetáculos têm consistência artística, eles balançam a pessoa, independente do gênero. Uma comédia traz reflexões às vezes densa sobre a vida, mas o espectador, na maioria das vezes, só vai digerir isso depois. O drama, quase sempre, dá uma sacudida nas emoções e fica na memória, faz a pessoa refletir sobre seus próprios sentimentos, uma experiência contemporânea instiga, alça voo no imaginário coletivo, é uma ferramenta milenar e muito poderosa”.