Do Oscar às periferias: por que o cinema brasileiro vive um de seus momentos mais importantes
Impulsionado pelo reconhecimento internacional e por novas vozes atrás das câmeras, o cinema nacional chega ao seu dia comemorativo mostrando que contar histórias brasileiras nunca foi tão necessário
Em um país marcado pela diversidade de sotaques, culturas e realidades, o cinema brasileiro tem desempenhado, há mais de um século, um papel que vai além do entretenimento, ele ajuda a construir a identidade de um povo.
Neste Dia do Cinema Nacional, celebrado nesta sexta-feira (19), o momento é de reflexão sobre o passado, celebração das conquistas recentes e discussão sobre os desafios que ainda precisam ser superados para que o Brasil consolide sua posição entre as grandes potências do audiovisual mundial.
Se por muitos anos o cinema brasileiro lutou para conquistar espaço dentro do próprio país, hoje o cenário é diferente. O sucesso de produções recentes em festivais internacionais e no Oscar colocou novamente o Brasil sob os holofotes da indústria cinematográfica mundial e despertou um interesse renovado do público pelas histórias produzidas aqui.

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Uma história de talento e oportunidades perdidas
Para a atriz e diretora Eliana Fonseca, a trajetória do cinema brasileiro poderia ter sido ainda maior.
Segundo ela, o país nunca enxergou plenamente o audiovisual como uma indústria capaz de movimentar a economia e gerar empregos. “O que mais me choca na história do cinema brasileiro é que nunca tivemos a percepção do cinema como indústria. É uma atividade que gera empregos, movimenta a economia e ainda leva a imagem do Brasil para o mundo”, afirma.
Eliana lembra que diversos momentos importantes da cinematografia nacional acabaram não sendo aproveitados para a construção de uma estrutura permanente de produção. “Tivemos épocas gloriosas, mas isso nunca foi aproveitado para construir uma indústria nacional forte. Acho isso muito triste.”
Mesmo assim, o cinema brasileiro construiu uma trajetória marcada por obras que atravessaram gerações e conquistaram reconhecimento internacional.

Os filmes que ajudaram a construir o cinema brasileiro
Ao falar sobre os títulos mais importantes da história nacional, Eliana destaca produções que marcaram diferentes momentos da cinematografia brasileira. “Eu amo O Pagador de Promessas. É um filme brasileiro até o último fotograma. Deus e o Diabo na Terra do Sol é importantíssimo porque marca o Cinema Novo. Central do Brasil é um filme que todo mundo ama. Cidade de Deus inaugurou uma nova forma de fazer cinema. E Carlota Joaquina foi o filme da retomada.”
A lista ajuda a entender como o cinema brasileiro evoluiu ao longo das décadas, passando por diferentes movimentos estéticos, políticos e sociais.
Mais recentemente, produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto reforçaram a presença brasileira nas maiores premiações do mundo, mostrando que o país continua produzindo obras capazes de dialogar com públicos globais, enquanto reafirma a nossa própria história.

O Oscar mudou a forma como o mundo vê o Brasil?
Mais do que estatuetas e tapetes vermelhos, o reconhecimento internacional tem ampliado a visibilidade do cinema brasileiro e aberto portas para novas produções, diretores, roteiristas e atores. A presença cada vez mais frequente do Brasil em festivais como Cannes, Veneza e na própria Academia de Hollywood mostra que as histórias produzidas aqui, despertam interesse muito além das fronteiras nacionais.
Essa trajetória, no entanto, não começou agora. Em 1999, Fernanda Montenegro entrou para a história ao se tornar a primeira brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em Central do Brasil. Mais de duas décadas depois, o cinema nacional viveu um daqueles raros momentos que parecem escritos pelo próprio roteiro: sua filha, Fernanda Torres, também foi indicada na mesma categoria, desta vez por Ainda Estou Aqui. A diferença é que, desta vez, o Brasil foi além da indicação.
O longa dirigido por Walter Salles conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional e, semanas antes da cerimônia, já havia vencido o prêmio de Melhor Filme Internacional no Sindicato dos Roteiristas e Produtores dos Estados Unidos (WGA), consolidando uma campanha histórica e colocando o país definitivamente no centro das atenções da indústria cinematográfica mundial.
O impacto dessas conquistas vai além da indústria. Quando um filme brasileiro ganha espaço no cenário mundial, ele também leva consigo a cultura, a memória, a diversidade e as diferentes realidades do país. É uma oportunidade de apresentar ao mundo quem somos, como vivemos e quais histórias temos para contar.

A importância de contar nossas próprias histórias
Para Eliana, a força do cinema nacional está justamente na capacidade de fazer com que os brasileiros se enxerguem na tela. “A gente se vê na tela, a gente se discute na tela. É muito importante ver histórias nossas contadas pelos nossos olhos.”
Ela ressalta que diferentes grupos sociais precisam ter a oportunidade de contar suas próprias narrativas. “É diferente olhar uma periferia de dentro dela e olhar de fora. Quando jovens periféricos contam suas próprias histórias, eles trazem perspectivas que ninguém mais consegue trazer.”
Essa diversidade de olhares tem sido uma das grandes riquezas do audiovisual brasileiro contemporâneo.
Como nasce um filme brasileiro?

Se para quem assiste tudo parece simples, por trás de cada filme existe um processo complexo.
A cineasta Vitória Teixeira explica que a origem de uma produção quase sempre começa com uma necessidade de expressão. “Primeiramente, o filme brasileiro nasce de uma vontade. A vontade de contar uma narrativa.”
Segundo ela, cada realizador carrega suas próprias referências, experiências e visões de mundo. “O cinema nasce muito das referências e das observações da vida. O que a pessoa quer contar e como ela quer contar fazem toda a diferença.”
Atualmente, o mercado audiovisual brasileiro se divide entre produções criadas sob demanda para plataformas de streaming e projetos independentes desenvolvidos por realizadores que acompanham todas as etapas da obra.
Os desafios de fazer cinema no Brasil
Apesar do momento positivo, produzir cinema continua sendo uma tarefa difícil. Vitória aponta que um dos principais obstáculos está no financiamento. “Audiovisual é algo muito caro de ser feito. Não envolve apenas cachês, mas também equipes, equipamentos, transporte, arte, logística e inúmeros outros custos.”
Nesse cenário, editais e programas de fomento desempenham papel fundamental para democratizar o acesso à produção. “Os editais permitem que pessoas que não vêm de uma realidade financeira favorável consigam realizar suas obras.”
Mas captar recursos não é a única dificuldade. Segundo a cineasta, fazer com que os filmes cheguem ao público continua sendo um grande desafio. “Às vezes tem muitos filmes brasileiro que as pessoas não conhecem simplesmente porque não conseguem acessá-los.”
Ela defende que as produções nacionais precisam ocupar cada vez mais espaços fora do circuito tradicional. “Esses filmes também podem estar em escolas, projetos culturais e comunidades. O cinema pode gerar debates e transformar realidades.”

Ser mulher atrás das câmeras ainda é um desafio
Vitória também chama atenção para as dificuldades enfrentadas por mulheres na indústria audiovisual.
Embora a presença feminina tenha crescido nos últimos anos, algumas áreas continuam sendo majoritariamente masculinas. “Ainda é um mercado muito difícil para nós mulheres, principalmente em áreas mais técnicas como fotografia e edição.”
Segundo ela, além do machismo estrutural, existe uma dificuldade de entrada para profissionais que não fazem parte dos círculos tradicionais do setor. “Há poucas oportunidades de entrada. É difícil conseguir experiência, permanecer e fazer com que as pessoas conheçam o seu trabalho.”
Das periferias para o mundo
A própria trajetória de Vitória ajuda a explicar o poder transformador do cinema.
Moradora da Brasilândia, na periferia de São Paulo, ela teve seu primeiro contato mais profundo com o audiovisual em um curso gratuito realizado em 2019. “Eu fiz o curso porque gostava de cinema e queria experimentar. Saí de lá com a certeza de que queria trabalhar com isso.”
Anos depois, produções realizadas pelo “Várias Fita”, coletivo audiovisual que ajudou a criar, passaram por dezenas de festivais e chegaram até eventos internacionais.
Um dos curtas produzidos pelo grupo foi selecionado para representar o Brasil em um evento da ONU no Egito. “Lá em 2019 eu jamais imaginaria que chegaria a esses espaços.”
Hoje, além de participar de produções nacionais, a cineasta também realiza intercâmbios e participa de eventos internacionais ligados ao mercado audiovisual. “As oportunidades vão se conectando e abrindo novas portas. O cinema mudou completamente a minha trajetória.”
Entre as obras dirigidas pela cineasta Vitória Teixeira, os curtas-metragens “Além das Pipas” e “Faustina – Música para viver”, se destacam, levando a jovem a integrar equipes na Colômbia, no centro de pesquisa audiovisual da USP (Universidade de São Paulo) e ao Departamento de Arte da Série “Brasil 70”, produzido pela Netflix.
O que falta para o Brasil se tornar uma potência como Hollywood?
Para Eliana Fonseca, a resposta passa por investimento e formação de público. “É uma cobra mordendo o próprio rabo. Para fazer bons filmes você precisa de investimento. Para conseguir investimento você precisa de público. E para formar público você precisa de bons filmes.”
Ela acredita que o cinema brasileiro já produz obras de altíssimo nível, muitas vezes comparáveis ou até superiores às produções estrangeiras. “A gente produz coisas muito bacanas, muitas vezes melhores do que vemos lá fora. E, principalmente, histórias com as quais nos identificamos muito mais.”
Cinco filmes do cinema brasileiro que você não pode deixar de assistir
Para celebrar o Dia do Cinema Nacional, o jornalista, crítico de cinema e colunista do P+, Vinícius Lemos, preparou uma seleção de cinco obras essenciais para compreender a riqueza, a diversidade e a força do audiovisual brasileiro. A escolha parte de uma reflexão interessante: embora rankings especializados ajudem a mapear a história do cinema nacional, a experiência individual também tem peso na construção de uma lista de filmes indispensáveis.
Recentemente, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) divulgou seu ranking dos filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos. Nas cinco primeiras posições aparecem Limite (1931), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Vidas Secas (1963), Cabra Marcado para Morrer (1984) e Terra em Transe (1967). Embora reconheça a relevância dos títulos escolhidos pela ABRACCINE, Vinícius Lemos prefere uma seleção baseada na experiência que teve com o cinema brasileiro ao longo dos anos. Segundo ele, “concordaria apenas com Limite abrindo a minha lista”. A partir daí, o ranking ganha novos nomes e perspectivas.

Os cinco filmes brasileiros indispensáveis na visão de Vinícius Lemos:
5. Limite (1931) – De Mário Peixoto
Dizer que este é um filme hermético e pretensioso não é exagerado, nem mesmo razão para afastar espectadores. Exige mais da plateia, claro; contudo, assistir a um filme mudo e experimental datado de 1931 pode ser uma ótima oportunidade de abrir um novo caminho dentro do mundo do cinema, que hoje vive uma contradição: exige-se cada vez menos em termos de texto em meio à avalanche de imagens digitais, mas com uma plateia que não consegue ver cinema baseado apenas em imagens que podem muito bem falar por si.
Claro, há aqueles que amam a arte, mas há aqueles que veem nela apenas entretenimento. Como participante do primeiro grupo, eu digo: Limite, ainda que difícil, trata-se de uma obra obrigatória por saber trabalhar a imagem com inteligência e beleza. Fragmentado e altamente simbolista, o longa não é perfeito; há imagens sem função aparente e o ritmo, por vezes, é lento além da conta. Entretanto, o filme em si cumpre um papel importante de busca artística – e o melhor é que a busca é frutífera.

4. Ilha das Flores (1989) – De Jorge Furtado
“Deus não existe”. Essa é uma das frases que abrem o curta-metragem mais importante da filmografia brasileira. O impacto da frase parece se diluir na montagem intrincada e no roteiro irônico de Furtado, que costura a função de um dedo polegar opositor e uma certa quantidade de tomates e carne suína comprados em um mercado para o preparo de uma refeição. A graça que essa colcha de retalhos forma inicialmente ganha peso e significado com o passar dos 13 minutos do filme, chegando a uma conclusão sobre distribuição de renda e alimentos que, na visão de muita gente, não deveria ter mudado em quase quatro décadas. O filme é cortante, e seu impacto final se dá justamente pela ironia que se constrói em uma lógica de conexões que pode parecer absurda e que Furtado voltaria a utilizar em seu melhor longa-metragem: O Homem que Copiava.

3. O Pagador de Promessas (1962) – De Anselmo Duarte
O único filme brasileiro a vencer a Palma de Ouro em Cannes é daqueles que servem muito bem para acabar com preconceitos. É “filme velho” de primeira linha, com roteiro e produção impecáveis. Baseado na peça homônima de Dias Gomes, o filme tem uma atuação excepcional de Leonardo Villar e ritmo muito bom. O que me espanta até hoje é o quanto suas temáticas não deixam de ter relevância, como a crítica a religiosos e ao jornalismo sensacionalista.
Enquanto um padre não entende como Zé do Burro pode demonstrar sua fé por Santa Bárbara por conta da salvação de seu burrico, a mídia o pinta como alguém subversivo, usando-o como propaganda contra movimentos do campo. Acho interessante, ainda, que o longa tenha sido criticado pelos realizadores do chamado Cinema Novo. O Pagador de Promessas era visto como popular e de realização tradicional. Mas, se conseguiu fazer tamanha sombra a ponto de uma importante ala do cinema brasileiro tê-lo usado como modelo a ser evitado — não pela qualidade, vale salientar, mas pela realização —, não pode ser considerado apenas mais um filme clássico.

2. Ainda Estou Aqui (2024) – De Walter Salles / O Agente Secreto (2025) – De Kleber Mendonça Filho
Coloco os dois filmes nesta posição como os melhores exemplos do atual momento do cinema brasileiro. O fato de ambos terem sido indicados ao Oscar de Melhor Filme e de Ainda Estou Aqui ter vencido a categoria de Melhor Filme Internacional não só demonstra que estamos em evidência em Hollywood, mas também que a grande entrada em festivais muito anteriores à premiação da Academia estadunidense, como Cannes e Veneza, aponta para um interesse crescente em produções brasileiras.
São filmes que, inclusive, enfrentam questões políticas dentro e fora de seus roteiros e vão além nesse reconhecimento. Na filmografia de Salles, Ainda Estou Aqui está lado a lado com Central do Brasil em termos de qualidade, outro grande premiado. Ao mesmo tempo, O Agente Secreto mantém a alta qualidade das realizações de Mendonça Filho, que já havia recebido prêmio em Cannes com Bacurau.

1. Cidade de Deus (2002) – De Fernando Meirelles e Kátia Lund
Se a Retomada do cinema nacional envolveu uma série de boas produções na segunda metade da década de 1990, foi no início dos anos 2000 que Cidade de Deus deu um novo salto. Com roteiro intrincado e direção de olhar pop, o filme certamente estava à frente de seu tempo. Não só porque se transformou em modelo para muitos longas a partir dali, mas por se mostrar espetacular ao tratar de temas sensíveis. Ainda que tenha sido citado como exemplo da “cosmética da fome”, não há um minuto em Cidade de Deus que não traga reflexão sobre a ascensão do tráfico em uma das comunidades do Rio de Janeiro.
O que não impede, claro, que o filme tenha uma linguagem menos crua e mais estilizada do que produções políticas dos anos 1960, por exemplo. O filme não é apenas um marco do cinema brasileiro, mas também do cinema mundial. É interessante a história de como ele causou grande aversão a votantes do Oscar em 2003 para a categoria de Melhor Filme Internacional da época, mas foi abraçado pela Academia como um todo em 2004, recebendo quatro indicações e influenciando mudanças nos processos de escolha e votação da categoria de filmes em língua não inglesa a partir dali.

O futuro já começou
Se existe algo que as conquistas recentes demonstram é que o cinema brasileiro nunca deixou de produzir grandes histórias. O desafio agora é transformar reconhecimento em estrutura, ampliar investimentos, fortalecer a distribuição e abrir espaço para novos talentos.
Porque, como resume Vitória Teixeira: “Mesmo com todas as barreiras, é importante que a gente tente entrar nesses espaços. Se não entrarmos, o círculo continua sempre o mesmo.”
E talvez seja justamente essa renovação de vozes, histórias e perspectivas que esteja conduzindo o cinema brasileiro para um dos capítulos mais promissores de sua história.
O cinema brasileiro vive um momento histórico. Agora queremos saber: qual produção nacional mais marcou a sua vida? Deixe sua opinião e siga acompanhando o Portal Paranaíba Mais