Experiência à mesa: restaurantes temáticos conquistam consumidores de Uberlândia
Pizzarias temáticas, bares com jogos e coffee parties têm chamado atenção de consumidores de Uberlândia que buscam experiências além do "comer fora"
Entre uma partida de tabuleiro e uma pizzaria inspirada em super-heróis, Uberlândia tem visto crescer um novo tipo de consumo: o que valoriza experiências e conexões mais do que o produto em si. Cada vez mais, bares e restaurantes apostam em temas, ambientações e vivências para conquistar o público que busca algo além do tradicional “comer fora”.
Para o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-MG) de Uberlândia, Fábio Luiz Bertolucci, o setor gastronômico permite o uso de muita criatividade e originalidade. “Uma cidade com o porte de Uberlândia merece ter estabelecimentos temáticos, seja de empresários locais ou franquias que buscam o nosso mercado”, comentou ele em entrevista ao Paranaíba Mais.
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Segundo dados da Abrasel, a cidade possui cerca de 5 mil bares e restaurantes. Apesar do volume, o setor de estabelecimentos que buscam proporcionar maior interatividade para os consumidores ainda está em crescimento.
Ainda assim, o presidente da associação explica que a cidade possui capacidade para receber novos empreendimentos e possui um grande fluxo de pessoas que passam pelo município. “Temos em Uberlândia pessoas que estão vindo para eventos ou mudando para cá, oriundas de grandes cidades e ter estas opções criativas, imersivas e temáticas vai trazer para eles a sensação de uma grande cidade, com muita diversão e entretenimento”, disse.
“Tudo que é diferente torna-se atrativo, a exemplo de cafés e bares renomados que chegam na cidade e tornam-se o “point” do momento”, finalizou Fábio Luiz.
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Consumidores de Uberlândia em busca de entretenimento e experiências
São esses espaços que permitem uma pausa da rotina corriqueira e um descanso das telas, apresentando-se como uma oportunidade de reintegração com amigos e familiares. Essa é a proposta da empresária Ana Clara Carmo França, proprietária do Mestre dos Jogos, um bar que surgiu a partir de uma locadora de jogos de tabuleiro.
“Você nunca vai ver uma pessoa com celular na mão aqui. Só pegam [o celular] para ver o cardápio, mas nada no resto da noite. O pessoal se conecta e ri. Isso trouxe um interesse das pessoas virem aqui”, comentou a empresária sobre o seu estabelecimento, que fica no bairro Santa Mônica.
O espaço busca proporcionar ao público a experiência de sentar à mesa com amigos e jogar. Com um acervo de 380 jogos e monitores à disposição, o Mestre dos Jogos recebe um público diversificado, mas formado principalmente por famílias e universitários.
“A maior parte da galera é 30+, que não gosta mais de boate, daquele som alto. Aqui a gente tem o som baixinho, muito lugar para sentar”, disse Ana Clara. Além da programação usual, o espaço também proporciona eventos temáticos, como Halloween e o Dia do Orgulho Geek.
O estudante Mateus Batista, que já frequentou o estabelecimento cerca de quatro vezes, comentou que sempre busca locais que possam lhe proporcionar experiências diferentes do tradicional.
“Eu não sou uma pessoa que vai com frequência nos ambientes mais universitários, que também são muito bons, mas eu prefiro bares mais calmos e tranquilos, onde eu posso sentar, conversar com minhas amigas e comer uma porçãozinha, só relaxando e aproveitando o momento”, contou.
Outra experiência gastronômica que tem conquistado as redes sociais em Uberlândia é a pizzaria Quarteto Massa, que possui a temática de super-heróis. Com mais de 53 mil seguidores no Instagram, o espaço atrai principalmente o público infantil e famílias. “Já pensou ser servido pelo seu herói/vilão favorito?”, a pizzaria informa em suas publicações, apresentando sua proposta. O Hulk, Homem-Aranha e a Mulher-Maravilha são apenas alguns dos personagens que se encontram no local.
E, para os que gostam mais de cafés e música ao vivo (mas apreciam ter bons lugares para se sentar e conversar, enquanto aproveita o ambiente), há também ambientes que apostam nas “coffee parties”, festas diurnas que atraem jovens, adultos, idosos e até famílias com crianças em Uberlândia.
Um exemplo é o espaço gastronômico “No Jardim”, que realizou a primeira edição do Rolê Café em agosto, um evento voltado para o conceito de hábitos saudáveis, trilha sonora suave e, é claro, muito café.
A psicologia explica este fenômeno
Para a psicóloga Camila Troina, especialista em psicanálise lacaniana, a busca por espaços temáticos e experiências imersivas vai muito além da simples vontade de se divertir. Ela explica que o comportamento do consumidor está profundamente ligado à “lógica da falta e do desejo”.
Segundo ela, “toda pessoa precisa lidar com a falta — ela é estrutural, constitutiva, e é justamente o que nos move”. Nesse sentido, o desejo seria o motor das escolhas e da curiosidade humana: “O desejo nasce daí: do que falta e dos caminhos que encontramos para lidar com ela […] é também sobre o que nos causa curiosidade, aquilo que nos impulsiona a criar, experimentar e reinventar”, aponta.
Essa busca por experiências novas envolve múltiplos aspectos. “Há desejo, há prazer, há busca por novidade, por beleza, por pertencimento, por descanso, por algo que amplie o campo de experiência”, disse a psicóloga.
A especialista propõe uma reflexão sobre o que esse comportamento revela sobre o tempo presente: “O que interessa pensar é como esse modo de lidar com o desejo e com a falta ganha forma no nosso tempo. O que essa forma específica de busca por satisfação revela sobre nós e sobre o modo como vivemos hoje?”, indagou.
Camila Troina observa ainda que o apelo por estética, espetáculo e interação reflete características da sociedade contemporânea. “Talvez valha a pena nos atentarmos para como o sujeito contemporâneo busca intensificar o que vive, condensando no mesmo ato prazer, performance, presença e registro”, afirmou.
Para ela, esse movimento também se conecta a questões sociais e materiais. “Questões como uma vida cada vez mais sobrecarregada de trabalho, o aumento do custo de vida e os espaços privados cada vez menores dificultam a possibilidade de criar e sustentar condições mínimas para tais encontros. Nesse sentido, tais espaços podem surgir também como formas de viabilizar o laço social, alternativas que compreendem a satisfação de quesitos como divisão de custos e a busca por pertencimento”, concluiu..