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Você seria capaz de ingerir vermes para emagrecer?

O horror estético no filme "A Meia-Irmã Feia" e reflexões sobre as normas de padronização do corpo que atravessam gerações

Renata Neiva , em Uberlândia

Como jornalista e pesquisadora, estudei páginas envelhecidas de jornais para compreender o que nos tornou tais como somos hoje. Minha investigação, que deu origem ao livro “Pedagogias da Beleza – as páginas femininas do Correio da Manhã” (Editora Edufu), demonstrou que o corpo feminino foi, ao longo do século 20, objeto de educação minuciosa, regido por normas que decretaram a magreza e a juventude como deveres morais. Agora, o lançamento do filme norueguês “A Meia-Irmã Feia” (The Ugly Stepsister) nos oferece um espelho contemporâneo — e aterrorizante — dessa mesma trajetória.

A Meia-Irmã Feia
Lea Myren é Elvira em “A Meia-Irmã Feia” (The Ugly Stepsister) – crédito: Reprodução

Ingestão de vermes

Dirigido e escrito por Emilie Blichfeldt, o longa-metragem foi aclamado no Festival de Sundance e, no fim do ano, chegou ao serviço de streaming Prime Vídeo. A produção reconta o clássico conto de fadas da Cinderela, mas desloca o olhar para Elvira (Lea Myren), uma das filhas da madrasta. No filme, Elvira é consumida por uma vontade avassaladora de se parecer com sua irmã, Agnes (Thea Sofie Loch Næss), para atingir seu alvo, o coração do príncipe Julian. Obcecada pela ideia de transformação, ela é capaz até de ingerir vermes para ajudar a controlar as calorias que devora durante as refeições. Esse desejo de embelezamento não é apenas um capricho. É ainda um mergulho no gênero do horror corporal (body horror), explorando a busca pelo ideal estético que pode ultrapassar os limites da sanidade e da integridade física.

A narrativa cinematográfica dialoga diretamente com o objetivo dos meus estudos: como fomos educadas para sentir amor ou ódio por determinados tipos de corpos? No jornal Correio da Manhã, que circulou por todo o Brasil por mais de 70 anos, as leitoras eram constantemente bombardeadas por receitas, prescrições, dicas e conselhos que classificavam e puniam aparências que fugissem do “padrão”. Assim como Elvira se compara a Agnes, as mulheres brasileiras foram ensinadas a olhar para o espelho como um inquisidor.

Num dos anúncios publicados no Correio da Manhã, no fim dos anos 1950, o Magazine Mesbla informava, em pleno verão brasileiro, que acabara de receber o Macacão Emagrecedor que estava fazendo sucesso na Europa. Bastava passar o dia inteiro preso dentro do produto feito com “matéria plástica hermeticamente fechada ao corpo” para conseguir eliminar meio quilo. Na mesma época, uma reportagem orientava mulheres acima dos 30 anos (e do peso) a escolher como traje de banho um maiô de túnica com gola alta, para “evitar embaraços sob a grande luz do sol”.

O que vemos em cena no terror de Blichfeldt é a manifestação física de uma angústia que era exaltada pela imprensa: o horror de ser considerada “feia”, “gorda” ou “velha”. Nos suplementos femininos, enunciados como “a beleza se constrói” eram recorrentes, tratando o corpo como um mero rascunho que precisava de intervenções técnicas e científicas constantes para ser aceito.

A analogia entre Elvira e nossa sociedade é inevitável. Afinal, atualmente, cada parte do corpo — rosto, seios, quadris, pernas e até regiões íntimas — é examinada e comparada aos modelos reconhecidos, seja no cinema ou no cotidiano. Se no passado o jornal e a revista eram “conselheiros em domicílio”, hoje, as plataformas digitais com seus chamados “influenciadores” ocupam esses lugares pedagógicos. Muitos desses espaços perpetuam a referência eurocêntrica da mulher considerada bela (branca, alta, magra, loira, de olhos claros e jovem) como o único passaporte para o sucesso – assim como a personagem Agnes-Cinderela.

Em minha obra, argumento que a valorização social da beleza feminina foi construída como uma espécie de capital simbólico, uma moeda de troca no mercado matrimonial e social. O filme expõe a face oculta dessa busca: a violência que podemos exercer para tentar nos encaixar em determinados moldes. “A Meia-Irmã Feia” nos lembra que, quando a estética se torna uma ética obrigatória, o corpo deixa de ser a morada da subjetividade para se tornar uma máquina a ser aperfeiçoada, muitas vezes ao custo da nossa própria identidade.

Proponho a mesma reflexão que encerra meu livro: em tempos de modernidade líquida, quando as certezas se diluíram, as pedagogias da beleza continuam a nos assombrar com a angústia do tempo que se esvai. O filme de Emilie Blichfeldt não é apenas um terror de fantasia, mas também um relato sobre o peso das impermanências. Resta-nos, quem sabe, aprender a reescrever nossos próprios roteiros, procurando equilíbrio entre cuidado, prazer e limites.

 

Renata Neiva
Jornalista, doutora em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia e autora do livro “Pedagogias da Beleza: as páginas femininas do Correio da Manhã”. Diariamente, mantém o desafio de conciliar o autocuidado consciente com a superação das pressões por sacrifícios corporais, redefinindo seus próprios limites.

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.